Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > ECOS DA COPA

Muito além do drama

Por Mauricio Stycer em 15/07/2014 na edição 807
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 13/7/2014; intertítulo do OI

Conversando com Sérgio Rodrigues, autor do elogiado O Drible (Companhia das Letras), a respeito das dificuldades envolvidas no processo de escrever ficção sobre o universo do futebol, ele observou: “Qualquer esporte é difícil de ser tratado pela literatura. O esporte é uma narrativa pronta, com vitórias, derrotas e dramas. Os personagens reais já têm estatura de mito. Isso torna difícil o trabalho do escritor”.

Recorro ao comentário de Rodrigues para refletir sobre um dos aspectos que mais me incomodaram na cobertura da Copa do Mundo realizada pelas emissoras de televisão: a necessidade de enfatizar dramas que, naturalmente, já são carregados de todo tipo de emoção.

Veja, por exemplo, o caso da partida entre Brasil e Chile. Teve bola no travessão brasileiro no último minuto da prorrogação, decisão nos pênaltis, consagração do goleiro Júlio César, choro dos jogadores brasileiros. Foram tantos os elementos dramáticos que muita gente se emocionou ao final da partida – para não falar do espectador que teve um infarto no estádio.

O que veio em seguida foi espantoso. A Globo, mas não só ela, transformou o relato dessa odisseia numa novela mexicana. Por dois dias, os programas jornalísticos e de entretenimento da emissora exploraram os diferentes aspectos da partida, sublinhando indefinidamente o que havia de mais meloso na história. Quem não ficou tenso ou chorou durante o jogo foi praticamente obrigado a se emocionar nos dias seguintes.

Gênio da raça

A fratura sofrida por Neymar na partida contra a Colômbia também mereceu um tratamento muito além do razoável. Galvão Bueno, âncora do Jornal Nacional durante a Copa, deu o tom ao assumir como fato – e não suspeita – que o jogador colombiano Zuñiga foi “covarde” no lance. Outros repórteres do telejornal adotaram o mesmo procedimento, compreensível apenas em uma mesa de bar.

Patrícia Poeta escolheu o seu olhar mais sério e as seguintes palavras para abrir o telejornal de quarta-feira [9/7]: “A dor da nossa derrota é agravada por nossos rivais”. Entendeu? Falando como uma torcedora, a apresentadora informou desse jeito que a Argentina havia se classificado para a final da Copa do Mundo.

Neste mesmo dia, mas pela manhã, a repórter Fernanda Gentil enxugou as lágrimas ao falar com Fátima Bernardes. Durante todo o Mundial, a jornalista foi responsável por boletins otimistas e empolgados sobre a seleção em vários programas da emissora e, como seria de se esperar, não conseguiu conter a emoção depois do 7 a 1. Chorou ao vivo.

Falo mais da Globo porque, como detentora dos direitos de transmissão da Copa, a emissora foi a que mais investiu no assunto na TV. Mas os demais canais seguiram nesta mesma toada, buscando fisgar o espectador sem sutileza alguma.

Curiosamente, o episódio mais dramático da Copa, o desastre do Brasil diante da Alemanha, mereceu uma cobertura contida da Globo. A emissora desmontou o seu estúdio ao ar livre, junto da seleção, mandando Patrícia Poeta de volta para o estúdio, e tratou com bastante respeito os jogadores que protagonizaram o vexame. Apenas Felipão, até então louvado como um gênio da estirpe de Einstein, mereceu críticas de Galvão Bueno. Chegou a soar como ingratidão.

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Mauricio Stycer é jornalista

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