Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / FÁTIMA BERNARDES

Fátima se encontra

Por Cristina Padiglione em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 13/7/2014

Por mais simpática que nos parecesse aquela figura habituada a bancadas de telejornais, era estranho vê-la chacoalhar constrangidamente os quadris ao som das bandas que ela mesma apresentava em seu novo programa. Isso foi há dois anos, quando Fátima Bernardes se lançou na empreitada de comandar uma atração com plateia nas manhãs da Globo. De lá para cá, a jornalista foi se entregando ao papel de apresentadora de auditório.

Não chega a ser animadora nem seria o caso. Mas foi se permitindo dançar sem acanhamento diante das câmeras e até a gargalhar, sem receio de aparecer mais do que a notícia, premissa que norteou seu expediente por 25 anos.

De junho de 2012 a junho de 2014, o Encontro com Fátima trocou de cenário por três vezes e de direção – tem Boninho na direção de Núcleo e Maurício Arruda na direção-geral há mais de um ano. E muda de planejamento todo dia, ao gosto da temperatura dos convidados e dos acontecimentos. É isso que seduz Fátima, 52 anos fisicamente bem dissimulados e sem auxílio de plástica – no máximo, admite ela, aplicações de botox. Na última quinta-feira [10/7], o Estado testemunhou a performance da apresentadora in loco, em seu pequeno auditório no Projac, complexo da Globo, no Rio de Janeiro.

“No começo, eu estava sempre na fila de trás, dançando”, conta ela. “O diretor, na época era o Fabrício Mamberti, falou: ‘Fátima, você fica dançando atrás, me dá um trabalho danado pra eu achar a câmera que vai conseguir te pegar’. Aí, eu dizia: ‘Mas não é o convidado que tem de estar na frente, dançando?’. E ele: ‘Sim, e você é convidada do público todo dia, ele está aqui pra te ver’. É uma guinada, né? Acho que, se eu aparecesse pulando e dançando na primeira fila, como eu já fiz, as pessoas iam dizer: ‘Onde essa alma estava durante esses 25 anos que ela estava o jornalismo?’. Tinha de ser natural, eu tinha de estar à vontade.”

Agora, está tão à vontade que nem merchandising é capaz de constrangê-la. Alguma dúvida de que ela está se divertindo mais que no Jornal Nacional?

O teleprompter que lhe serviu por tantos anos em bancadas de telejornais e no Fantástico é recurso dispensável no Encontro com Fátima. Em cena, a apresentadora se apoia em suas “colas”, como diz: fichas com nomes de quem entrevistará na plateia e indicações das histórias do dia. Cerca-se ainda do humor rápido de Marcos Veras e da boa articulação de Lair Rennó. Sem aviso prévio, entrelaça uma conversa com outra e às vezes muda de assunto sem que você se dê conta. É hábil na prosa, a mulher. “Adoro conversar, adoro ouvir histórias”, costuma dizer. Eis aqui um resumo da nossa.

Em dois anos, o programa mudou de cenário três vezes, e o atual me pareceu muito bem resolvido. Você estava preparada para um programa que seria reajustado com tanta frequência?

Fátima Bernardes – Eu lembro de cor o texto do primeiro dia: ‘Hoje o programa está pronto, mas ele vai mudar a cada dia, porque vai contar com a sua contribuição’. É isso. A partir do momento em que você põe o programa ao vivo no ar, ele tem um desgaste muito grande. Não é telejornal, a cada dia tem de renovar a conquista desse público. Se ele se torna previsível, ele se torna chato. A gente, no começo, não tinha entendido como a música poderia entrar. Cada coisa que foi chegando foi dando um colorido que eu imaginava. Tem dia em que ele está mais jornalístico, tem dia em que ele não está nada pronto.

E eu ia perguntar quanto tempo ele levou para ficar no ponto.

F.B. – Não tá pronto. A gente hoje tá trabalhando em um monte de coisas. A gente já começou o programa de várias maneiras: tratando de bons casos e histórias emocionantes a partir de um tema ou investindo forte em um assunto. Depois resolvemos deixar bem próximo do que está acontecendo. O professor que foi espancado semana passada porque foi confundido, a gente quer que ele esteja aqui e ele esteve. Então, o nosso ideal de consumo é que sempre tenha um factual, que não precisa ter acontecido hoje, mas que esteja nas conversas das pessoas.

Você tem se mostrado também mais à vontade na condução das entrevistas. O que mudou?

F.B. – É um aprendizado lidar com o tempo. Eu fazia uma sonora no Jornal Nacional, de 30 segundos, é uma supersonora. Uma entrevista com candidato até podia durar 14 minutos, é muito tempo. Aqui no programa, posso deixar a pessoa falar 2 minutos inteiros, sem aquela agonia que eu tinha como repórter de TV. Fui, aos poucos, relaxando. Se está rendendo, posso investir na entrevista, tenho mais tempo. No início, eu tinha uma entrevista rendendo e ficava aflita porque tinha mais oito pessoas pra ouvir, mas quando percebi que eu podia entrevistar todos e voltar a falar com alguém, melhorou. Hoje, administro 70 minutos de maneira muito melhor.

Teve saudades de ser agora de novo a “musa da Copa”?

F.B. – Não era da Copa, eu era da seleção, tenho que lutar pelo título que ganhei (risos). Eu adoro esse universo de futebol, gosto de conversar, o público gosta quando trago isso. O programa me dá essa possibilidade, de fazer uma edição inteira sobre a boate Kiss, manifestação ou preconceito. Na verdade, não deixei de fazer jornalismo. Eu mudei o foco.

Você vem do jornalismo, e o Boninho é um expert em entretenimento. Vocês se dão bem?

F.B. – Nós estamos muito bem, eu nunca tinha trabalhado com o Boninho. Eu já tenho muito de jornalista, o Maurício (Arruda, diretor-geral) tem uma cabeça de jornalista, então fizemos uma boa mescla com a vinda do Boninho, mas ele cobra muito o factual. A gente mostra pra ele um planejamento dos próximos programas e ele fala: ‘Lindo, ótimo, tomara que a gente não precise usar nada disso’. Ele gosta do improviso, do quente. Tem que programar, mas que seja sempre assim: vamos usar 40% do que planejou e aproveitar o que está bom pra tocar a conversa. Como sou assim também, a gente se afinou bem.

Você demorou um ano para fazer comercial. Quantas propostas recebeu até se render?

F.B. – Não sei quantificar, mas foram muitas propostas das mais variadas, propostas pra comerciais regionais, nacionais, de banco, plano de saúde…

Isso ficou a seu critério ou a Globo interferiu?

F.B. – Não, a empresa só tem controle sobre o merchandising, que é o que vai no programa. Eu li várias pessoas dizendo assim: ‘A direção da Seara está negociando com a Globo’. Eu contei pro Schroder (Carlos Henrique, diretor-geral da TV Globo) quando ia fazer o primeiro, eu! Ninguém nunca soube, aqui, quanto ganhei e de quanto é o meu contrato, não existe esse controle sobre a vida pessoal. Existe sobre o merchandising que entra no programa, isso é outra coisa. Mas quando o Washington Olivetto leu o texto do comercial pra mim, achei a ideia muito bem sacada. Pronto, disse, essa é uma maneira legal de entrar nesse mercado. Eu poderia falar algo quase institucional com o público, e sabe que eu fiquei à vontade? Não tive nenhuma crise de consciência, fiz com

tranquilidade, mas não fiz outro. Acho que não é legal, já pensou, toda hora? O programa me ocupa muito, e meu contrato com a Seara é pelo ano todo.

E a decisão de fazer merchandising no programa, como foi?

F.B. – Desde o início, nós achávamos que um ano era o prazo mínimo pra fazer o programa sem merchandising, até a engrenagem afinar. A partir dali, a gente poderia ver como é que ele poderia entrar, e tá entrando. Tem o Itaú, tem a própria Seara, tem alguns que são esporádicos, tem alguns fechados pra pós-Copa. E fizemos ações que agregam informação.

Você pensa em algum dia retornar ao jornalismo?

F.B. – Não vou voltar. Se houvesse essa dúvida, eu nem faria, eu tenho 100% de certeza que não.

Já que você não fala em cachê, podemos saber se a proposta da Seara foi a mais alta?

F.B. – Eu nem vi outras ofertas, pra ser sincera. Eu tenho uma advogada que fez uma tabela do que seria compatível com a minha história, e ela chegou a passar isso a outras pessoas interessadas. Mas a conversa ficava com ela, não me interessei por nenhum cliente.

Você acha que errou em algum momento nesses dois anos?

F.B. – Não, eu não vou ser como o Felipão, eu não acho que houve erro. Acho que a gente botou no ar um produto que tinha formato diferente, e é natural que isso cause estranheza. Eu não entrei no lugar de um programa que já existia, entrei com algo novo, é natural que o público que via desenho estranhasse. O Bob Esponja não deixou nem a cadeira.

Disseram que você ficaria enciumada se houvesse uma edição do Encontro aos sábados, com outro apresentador.

F.B. – Achei isso tão engraçado. Se já tem um substituto nas férias, por que não teria um substituto aos sábados? Eu não quero trabalhar sábado, já trabalhei sábado na minha vida durante muito tempo. No Jornal Nacional, eu já não trabalhava aos sábados desde 2002. A seleção conquistou o penta e eu, a folga aos sábados. Acho ótimo que tenha um programa aos sábados. E tem que ser uma cara de sábado, né? Não precisa ser eu.

E como Fátima mantém esse corpinho?

F.B. – Faço dança e personal duas vezes por semana. Reduzi glúten e lactose, sem obsessão, e durmo bem. Não bebo, não fumo, ou seja, chata. Uma chata. Mas depois da lei seca, meu passe passou a ser valorizadíssimo. Dirijo para qualquer pessoa (risos). Sou sempre a motorista da rodada.

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Cristina Padiglione, do Estado de S.Paulo; a repórter viajou a convite da TV Globo

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