Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / RICARDO WADDINGTON

Solte suas feras

Por Cristina Padiglione em 29/07/2014 na edição 809
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 22/7/2014

Esqueça aquele papo do profissional de TV que busca pretensões cinematográficas para defender seu ofício. Ricardo Waddington se orgulha em dizer que faz televisão aberta. Com quase 30 anos de Globo e os créditos de quem esteve no comando de Avenida Brasil, sabe que fenômenos como aquele não se repetem com facilidade. No momento, dedica-se à direção do primeiro folhetim da Globo ambientado nos anos 70, Boogie Woogie, que estreia dia 4/8, às 18h30.

O enredo promove a estreia do moçambicano Rui Vilhena como autor titular na TV brasileira. E o melodrama não se acanha. Mostra sua cara logo na estreia, com direito a troca de bebês – uma vingança da ex-amante (Alessandra Negrini) ao pai de uma das crianças (Marco Ricca), que a abandonou após a gravidez da mulher, (Giulia Gam). E já que estamos em 1978, a trilha sonora resgata hits originais e tributo a Dancin’Days, referência no gênero. Entre um set e outro, no Projac, Waddington falou ao Estado de S.Pauo sobre as demandas do público, erros e acertos.

‘Boogie Woogie’ é um melodrama explícito?

Ricardo Waddington – Nós podíamos colocar essa história em qualquer época. É um melodrama, a estrutura do Rui é clássica. Acho que a novela precisa de certo rigor em relação à narrativa. Toda vez que a gente se afasta desse rigor da narrativa em telenovela, a gente corre muitos riscos, principalmente em relação à compreensão da história.

Mas você arrisca, não?

R.W. – Eu corro riscos, mas toda vez que a gente se afasta disso, o risco é muito grande.

E quando você se afastou?

R.W. – Ah, em várias novelas. Fiz 20 e tantas. Você pode se afastar às vezes da estrutura da novela, às vezes dá muito certo, mas o que dá certo não é o fato de ter se afastado da narrativa, e sim ter proposto alguma coisa nova dentro desse modelo. Por exemplo, Avenida Brasil é uma novela clássica. O que tem de diferente? Uma certa transgressão que o João (Emanuel Carneiro, autor) deu em relação às personagens, narrando através de uma vilã e colocando a mocinha com valores questionáveis para uma mocinha.

E por que anos 70, agora?

R.W. – Eu e o Rui julgamos que, pra contar essa história nos dias de hoje, talvez em alguns momentos ela pudesse ficar inverossímil. O fato de não ter celular, de as comunicações serem mais complicadas, as distâncias realmente existirem e os segredos serem possíveis nos dá várias alternativas, truques que o folhetim foi perdendo. O comportamento e a tecnologia foram nos roubando esses elementos. A novela trata de uma troca de bebês. Fazer isso hoje seria de uma dificuldade imensa. Além disso, temos uma predileção pelos anos 70.

Vai ser uma novela nos anos 70, sem cigarro, item vetado pela Classificação Indicativa às 18h?

R.W. – As pessoas não vão fumar. A gente até pensou em botar uns cinzeiros sujos, e até tem, mas eu nem mostro. É fundamental colocar personagens fumando e bebendo em cena? Não, não é. Isso determina, dentro da história que estou contando, alguma coisa? Não. Sou contra o cigarro na televisão, sou contra colocar bebida às 6 horas da tarde. Isso seria um retrocesso gigante.

E a trilha sonora, como é?

R.W. – Foi um trabalho enorme, porque fui bem intransigente em relação à trilha. Eu não queria covers. Você pode conseguir a música, mas pode não conseguir o cara que cantou. Então, tem direitos autorais, do fonograma e de execução. Estamos agora com 18 músicas, todas originais. (Como Boggie Oggie, September, Don’t Go Breaking My Heart, A fim de voltar / Tim Maia, Canteiros / Fagner, Barato Total/ Gal Costa, além de Pepeu Gomes e Rita Lee).

Tem Frenéticas?

R.W. – Tem. Fiz uma homenagem explícita à novela Dancin’Days, que estava no ar em 78. Temos algumas cenas em que os nossos personagens assistem à novela. Na época, não tinha nada no Brasil, era uma escassez de objetos. Ainda tinha a costureira que fazia a sua roupa, as discotecas não tinham acesso aos discos que saíam em Nova York.

Quem trazia os discos?

R.W. – As aeromoças. Elas eram os grandes muambeiros da trilha sonora da época. Ficavam todos loucos esperando os aviões chegarem para terem acesso aos LPs. A gente tem um personagem assim, da Déborah Secco. E viajar era muito difícil. O Fernando, personagem do Marco Ricca, é um homem rico, tem uma grande agência de turismo. A única maneira de se sair do País era por meio de uma agência de turismo. As distâncias eram enormes, o tempo era largo, e isso determina muito o comportamento das histórias que contamos.

Desde ‘Avenida Brasil’, toda novela é alvo de comparações com aquela. Quando teremos outra?

R.W. – Nós conseguimos, com Avenida Brasil, uma sintonia com o público muito grande naquele momento. Vai acontecer de novo daqui a 15 anos. O João vai fazer uma grande novela (para 2015), imagino, mas a gente não pode ficar nessa expectativa de que tudo vai ser um fenômeno. Imagina se o mundo tivesse vários tsunamis? A gente não existiria mais (risos). Imagine se você tivesse várias paixões? A televisão aberta tem que estar onde o povo está. Se o povo mudou, a TV vai mudar, sem o menor purismo, com toda humildade. Televisão aberta não tem nada a ver com televisão fechada, nada a ver com cinema. Toda vez que a gente acha que tem a ver, a gente tá errado.

‘Boogie Woogie’ traz alguma novidade tecnológica?

R.W. – Vamos trabalhar em 60P. É uma tecnologia nova, que confere à imagem mais definição, não deteriora a imagem na pós-produção. Posso conseguir texturas, sem mexer na qualidade. O cinema americano, hoje, trabalha em 48P, no digital. Eu tô indo pra 60, já passei o cinema americano. Posso dizer que se eu exibir a minha novela numa tela gigante, você vai ver com definição absoluta.

Como lidar com a concorrência?

R.W. – A gente tem hoje muito mais concorrência do que nos anos 80. Torço sinceramente para que eles evoluam nos seus investimentos, nas suas linguagens, nos seus talentos, para fazerem também uma televisão de qualidade. Uma indústria forte é a chance de eu, como profissional, poder fazer uma televisão de qualidade. Seria muita pretensão e arrogância nossa achar que a gente vai ter, como nos anos 80, por absoluta falta de opções, a audiência que a gente tinha. Televisão aberta é diálogo. Televisão fechada é monólogo: o cara paga e assiste. Aberta, não. Se ele não gostar, eu tô errado e tenho que mudar.

***

‘Não deu certo o que eu propus’, diz, sobre ‘Vídeo Show’

Diretor responsável pela repaginação do Vídeo Show, quando o programa promoveu a chegada de

Zeca Camargo à sua apresentação e o cenário se confinou a um pequeno auditório, Ricardo Waddington reconhece humildemente que sua nova proposta não funcionou. Não demorou a se reajustar e a encontrar em Otaviano Costa novas funções para que ele dividisse a bola com Zeca, que também foi libertado daquele picadeiro e passou a fazer o que melhor sabe: entrevistar personalidades fora do estúdio.

E o que, exatamente, não deu certo naquela reforma, ainda no final do ano passado? “Fechar-se num auditório”, diz o diretor. “Achei que o auditório pudesse ser um farol do programa, mas o público entende que o Vídeo Show não é um programa para estar no auditório, é para estar na casa da pessoa, é para estar com o ator dentro do estúdio, na hora de ele fazer a cena, e não trazer esse ator ao palco, num ambiente que ele está mais do que acostumado a ver – ele vê isso no Serginho Groisman, no Faustão, na Fátima, em vários lugares.”

O erro não foi anunciado por meio de pesquisas, a não ser as da própria medição do Ibope. “Descobri (o erro) olhando, não imaginei isso. A nossa nova proposta fugiu um pouco do DNA do Vídeo Show. O erro foi esse. Foi um erro? O erro foi uma tentativa para um programa que está há trinta anos no ar. Então, vou errar muito e vou acertar muito. Tenho que propor coisas e reconhecer, quando não der certo, e tirar, tocar o barco, sem problema nenhum.” (C.P.)

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Cristina Padiglione, do Estado de S.Paulo

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