Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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TV EM QUESTãO > TELENOVELAS

‘Império’ já pulou o tubarão?

Por Mauricio Stycer em 05/08/2014 na edição 810
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 3/8/2014; intertítulo do OI

Capítulo 5 de “Império”. O milionário José Pedro (Caio Blat) atropela um homem bêbado e foge sem prestar assistência. Desesperado, ele procura a mãe, Maria Marta (Lília Cabral), que o orienta a largar o carro numa rua deserta e, em seguida, dar queixa à polícia dizendo que o veículo foi roubado.

José Pedro segue o plano da mãe e abandona o carro numa rua escura e vazia. Na sequência, João Lucas (Daniel Rocha), irmão de José Pedro, depois de beber com amigos no meio da rua, sai andando pela cidade. De repente, ele dá de cara com um carro conhecido. Ele entra no veículo, observa que a chave está no contato e diz, rindo: “Meu irmão deixou um presentinho para mim”.

O professor e blogueiro Pedro Tapajós (Philosopop), que assistia ao capítulo, imediatamente escreveu no Twitter: “Essa novela acaba de pular um tubarão!”. Há muito tempo não ouvia a expressão, mas igualmente levei um susto com a “coincidência” criada por Aguinaldo Silva para envolver o irmão errado em um crime.

“Pular um tubarão” é um termo bem conhecido por fãs de séries de televisão. A expressão define aquele momento em que o programa que você acompanha já há algum tempo dá uma escorregada gigantesca para prender a audiência. E quando isso ocorre, tudo indica, está começando a sua decadência.

O termo foi criado pelo comediante Jon Hein nos anos 90, inspirado numa cena da série “Happy Days”. Exibido por 11 temporadas, entre 1974 e 1984, o programa mostrava as aventuras de uma turma de amigos nos anos 50 e 60, e ficou marcada pelo tom otimista e alegre das histórias

A certa altura da quinta temporada, um dos personagens principais, Fonzie (Henry Winkler), está esquiando no mar e pula por cima de um tubarão, numa cena completamente sem propósito, que marcou uma surpresa e, de certa forma, uma ruptura com o clima ameno do programa.

Folhetim rasgado

Hein desenvolveu um site sobre o assunto. Analisando centenas de seriados, ele apontava o momento em que, na sua opinião, cada um deles “pulou o tubarão”. O site foi comprado pelo “TV Guide” e perdeu parte de sua verve, mas o tema ainda inspira uma seção da publicação na internet.

Uma série recente em que enxergo com clareza o momento que “pulou o tubarão” é “Homeland” (caso você não tenha visto, alerto que haverá spoilers a seguir).

O programa caminhava muito bem na primeira temporada, até que o soldado Brody (Damian Lewis) teve a oportunidade de explodir uma bomba e matar o vice-presidente dos Estados Unidos, o seu objetivo na história. O ataque suicida, porém, falhou na hora agá. A partir daí, a série nunca mais foi a mesma.

A minha má vontade com “Homeland”, diga-se, está longe de ser compartilhada com muita gente. Não à toa, a quarta temporada estreia em outubro deste ano nos EUA.

“Pular o tubarão”, como quase tudo que diz respeito ao universo da televisão, é uma sensação pessoal, subjetiva, que só os fãs são capazes de experimentar.

Voltando a “Império”, é preocupante que alguns espectadores tenham tido a sensação de que a novela derrapou já no quinto capítulo. Fato é que Aguinaldo Silva está apostando em um folhetim rasgado, sem muita preocupação com a verossimilhança ou lógica de algumas situações. É bem provável que ainda vá pular muitos tubarões até o fim.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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