Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Som, amor e fúria

Por Tcharly Magalhães Briglia em 05/08/2014 na edição 810

Uma música popular, um casal em conflito e uma vilã ou um vilão ensandecido. A fórmula de sucesso para uma boa telenovela? Nem tanto. Como toda regra, essa máxima também tem sido revista no universo dos folhetins. Assistir ao melodrama e à história de um casal que luta para ficar junto não parece mais ser o interesse de uma parte do público, cada vez mais exigente. Entre os ingredientes citados, a presença de um vilão parece ser condição sine qua non. A fúria de um personagem que enfrenta todos os obstáculos para alcançar os seus objetivos, por mais amorais que sejam, tem se tornado o elemento obrigatório para uma novela causar a repercussão desejada.

A trilha sonora tem perdido espaço, muito também por conta das constantes transformações do mercado fonográfico e das novas relações estabelecidas entre o público e a música. A venda de CD não é mais tão sólida quanto antes e as trilhas compostas exclusivamente para as novelas são cada vez mais raras. O que falar do amor, então? Os últimos grandes sucessos de audiência, especialmente da Globo, não se sustentaram no conflito típico entre mocinho e mocinha. A paixão do público pelos vilões tem contribuído para uma relação menos intensa do telespectador com o casal protagonista. As recentes estreias do horário nobre global (Império e O Rebu) são provas de que o mote principal das histórias não reside mais como antes no drama amoroso. Embora presente, o romance tem se diluído em tramas cada vez mais complexas e mais preocupados em agradar ao público que também assiste às narrativas seriadas estadunidenses.

Som!

No que tange às músicas que embalam os capítulos, há muito tempo que não se tem uma trilha daquelas de mexer com o público. Entre as últimas histórias do horário das 21h, Salve Jorge foi a única que se preocupou em apresentar, na abertura, uma canção absolutamente compatível com o tema e o título da novela. Amor à Vida trouxe uma interpretação de Daniel para o sucesso “Maravida” que foi rechaçada por boa parte do público, mais por uma implicância cibernética do que por uma performance equivocada. O mesmo Daniel que, na década de 1990, era uma unanimidade entre o público, hoje é alvo fácil dos críticos de poucos caracteres, que fazem das redes sociais as grandes vitrines para todo e qualquer tipo de comentário maldoso e, por vezes, infundado. De todo modo, a trama de Walcyr Carrasco trouxe pouca contribuição no sentido musical, embora contasse com canções interessantes de Ana Carolina, Caetano Veloso e Ivete Sangalo. A trilha internacional, impulsionada, entre outras, por “Get Lucky” de Daft Punk, fez um sucesso muito maior do que a nacional, reduzida às enésimas ocorrências de “Piradinha”, de Gabriel Valim.

Em Família trouxe a bossa nova de volta para o horário nobre. Grandes interpretações de clássicos da MPB também vieram repaginadas, como a trilha de abertura, com “Eu sei que vou te amar” na voz de uma das estrelas mais recorrentes nas canções de novela, que é Ana Carolina. Nenhuma música foi mais ouvida, no entanto, do que “Só Vejo Você”, de Tânia Mara, rainha-mor das novelas do núcleo de Jayme Monjardim (não por acaso, seu esposo). É inegável, todavia, o talento da cantora, que já garantiu grandes sucessos como o “Se quiser”, dePáginas da Vida (2006) e “Recomeçar”, de A Vida da Gente (2011-2012).

A estreia de Império criou expectativas nos fãs de trilhas de novelas. Os Beatles foram revisitados pela interpretação precisa de Dan Torres para “Lucy in the sky with diamonds”. A música de abertura é um chamariz para uma trama que parecer ser melodicamente bem arquitetada, a ponto de mesclar Zeca Baleiro com Paralamas do Sucesso e Rihana. Ainda é aguardada uma nova versão de “Dona”, de Roupa Nova. Logo, muitas são as expectativas para o CD de Império.

É com O Rebu que se vê a trilha mais eclética e de maior qualidade, se for possível estabelecer um juízo de valor comparativo entre tramas tão distintas, atualmente no ar. Amy Winehouse, New Order, Chico Buarque e outros grandes astros da música passeiam com delicadeza e riqueza de detalhes na trama de George Moura e Sérgio Goldemberg, que já haviam causado frisson com a trilha de Amores Roubados, no início deste ano. O Rebu é, talvez, a grata surpresa do semestre, tendo em vista que além de trazer uma trama semelhante aos grandes seriados de sucesso, como Lost (especialmente nas alternativas para apresentar a história dos personagens por meio de flashbacks), mostra que uma boa música, bem colocada e compatível com o que se propõe, consegue equacionar com maestria os elementos que fazem de uma novela um verdadeiro sucesso. A cada nova cena de O Rebu, o público é presenteado com a trilha tão bem pensada.

Muitas são as expectativas para a trilha de Boogie Oogie, mas esse já é assunto para outro texto.

Amor!

Um casal protagonista incomoda muita gente. Um casal protagonista que luta pra ficar junto incomoda muito mais. Tem sido assim o destino dos mocinhos e mocinhas da teledramaturgia brasileira, nos últimos anos. Para ficar só com a faixa das 21h, qual o foi o último casal que comoveu o público? Não estranhe se a resposta demorar de vir à tona. O encanto que casais como Tarcísio Meira e Glória Meneses, Francisco Cuoco e Regina Duarte, Carolina Ferraz e Eduardo Moscovis, Fernanda Vasconcelos e Thiago Rodrigues, Cláudia Raia e Edson Celulari, entre outros, causaram, parece ter se esvaído. O amor é um “prato” cada vez menos apreciado no cardápio do público. Ao menos, o amor “clássico”, ingênuo e verdadeiramente fiel. A busca da felicidade do mocinho e da mocinha não encanta mais como antes. Império comprova essa situação. Quem é o grande amor da vida do protagonista encarnado por Alexandre Nero? Se a paixão dele, na primeira fase, já começou a segunda fase morrendo, não se pode esperar muito da sua esposa de aparência e da sua amante, respectivamente interpretadas por Lilia Cabral e Marina Ruy Barbosa. Se não aparecer um amor verdadeiro para o personagem principal, talvez a trama de Cristiana (Leandra Leal) renda um romance interessante, embora seja difícil decifrar os caminhos do amor no folhetim de Aguinaldo Silva. Recheada de grandes atores e atrizes, a trama tem um excesso de personagens que podem causar incômodo futuro. Lilia Cabral parece bem desconfortável em uma personagem que perdeu o encanto na segunda fase. A Maria Marte de Adriana Birolli tinha muito mais brilho. Há muitos capítulos para Império, entretanto, e o autor pode ainda surpreender com as narrativas românticas.

O Rebu tem no romance de Bruno (Daniel Oliveira) e Duda (Sophie Charlotte) um ponto forte, mas nada que substitua o mistério do assassinato que ronda a trama, algo natural, em se tratando de uma narrativa de suspense. Uma volta no tempo nas últimas tramas do horário, todavia, mostra que o amor não é o mais mote preferido dos autores. Saramandaia (2013) chamou mais atenção com os núcleos fantásticos e Gabriela (2012) acabou transformando as tramas secundárias em objetos de maior destaque. Só mesmo O Astro foi construída em cima do romance de Herculano (Rodrigo Lombardi) e Amanda (Carolina Ferraz). Até mesmo o “Quem matou?” foi para o segundo plano.

No horário das 21h, não se fazem mais casais como antes. Nina e Jorginho (Avenida Brasil, 2012), Morena e Théo (Salve Jorge, 2012-2013), Paloma e Bruno (Amor à Vida, 2013-2014) e Luíza e Laerte (Em Família, 2014) não conseguiram, nem de longe, repercutir como os mocinhos de décadas passas conseguiam. Talvez desde Laços de Família (2000), o principal horário de novelas da Globo não consiga emplacar um casal de grande repercussão e sucesso. Em parte, isso ocorre devido à falta de química e/ou de carisma entre os artistas escolhidos. Na maior parte das vezes, porém, essa situação só ilustra a mudança na postura do telespectador, que pede histórias mais ágeis, menos “melosas” e mais dinâmicas. O melodrama permanece firme e forte, mas diluídos em tramas menos românticas e mais aptas a provocar polêmicas mais verossímeis.

Fúria

Outra razão para justificar o insucesso dos romances na teledramaturgia contemporânea é o sucesso dos vilões. Não há história de amor capaz de superar a fama instantânea de um bom malvado. Bastaram alguns minutos da estreia de Império para as redes sociais bombardearem comentários elogiosos para a performance de Marjorie Estiano como a vilã Cora. Claro que a interpretação da atriz foi muito boa, mas boas atuações da parte dela não são surpresas. Trata-se de uma estrela em total crescimento, ultimamente mostrado nas tramas das 18h nas quais ela se destacou como protagonista (Lado a Lado, em 2012, e A Vida da Gente, em 2011). A questão é que nada é mais “pop” do que elogiar as vilãs. Basta uma atriz ou ator se darem bem no papel de mau-caráter que a audiência reage positivamente. Marjorie deu um show como vilã, mas Chay Suede, Vanessa Giácomo, Adriana Birolli e Thiago Martins também defenderam com maestria os seus papeis na primeira fase de Império. Drica Moraes, a Cora da segunda fase, também já recebe um sem número de elogios. É mesmo uma grande interpretação, mas já está se tornando lugar comum superestimar em comentários elogiosos o desempenho do vilão da história. Muitos, inclusive, apontam a falta de uma vilã bem delineada como um dos possíveis fatores que contribuíram para o fracasso de Em Família.

Uma breve retrospectiva das tramas das últimas décadas comprova que uma trama das 21h bem-sucedida não se faz sem grandes malvados. Celebridade (2003) e Senhora do Destino (2004), por exemplo, atingiram incomparável sucesso no horário, tendo em vista a unânime popularidade de Laura (Cláudia Abreu) e Nazaré (Renata Sorrah), nas respectivas tramas. Foi assim com Belíssima (2005) e a inesquecível Bia Falcão, de Fernanda Montenegro; com o Olavo (Wagner Moura) e a Bebel (Camila Pitanga), de Paraíso Tropical (2007); a Flora (Patrícia Pillar) de A Favorita (2008); a Clara (Mariana Ximenes) de Passione (2010); o Léo (Gabriel Braga Nunes) de Insensato Coração (2011), a Tereza Cristina de Fina Estampa (2011) e idolatrada Carminha (Adriana Esteves) de Avenida Brasil (2012). Essa última, junto com o Félix (Matheus Solano, em Amor à Vida) trilharam o caminho da regeneração no final da história, o que é positivo, haja vista que a ficção pode e deve trazer mais esperança para o público. O que impressiona e tem se tornado muito comum, de forma exagerada, é o excesso de elogios para os vilões. Fazer um personagem de má-índole é, de fato, um grande desafio, mas não pode ser condição para comentários precipitados. A ânsia do público em ver atuações repletas de maldade não é algo novo, mas a intensidade da popularidade dos vilões mostra que as personalidades excessivamente honestas têm perdido espaço. Acredita-se pouco na bondade que muitas vezes ronda os protagonistas, daí o sucesso de mocinhas e mocinhos de caráter duvidoso.

O sucesso do som internacional, mas trilhas, a falta de amor nas histórias e o excesso de fúria dos vilões também são sintomáticos da necessidade que o público brasileiro tem de induzir, nas histórias ficcionais, transformações que as aproximem do universo estrangeiro. Há muito tempo que Hollywood não vive mais de amor, com mocinhos e mocinhas cada vez mais populares nos papeis de anti-heróis. A fúria dos vilões é idolatrada nos seriados e o romance vira sinônimo fácil de clichê. Na música, as trilhas internacionais, muitas vezes, são mais populares do que as nacionais, em mais uma comprovação do excesso de valorização da cultura estrangeira que, em determinadas situações, extrapola nossa condição de ex-colonizado.

Claro que a música, os mocinhos e os vilões são apenas algumas vertentes da análise da teledramaturgia, que assim como sua fonte de estudo, não se esgota e se renova a cada dia, apesar da concorrência de outras atrações e outras mídias. Uma boa história, embalada pela trilha certa e com a dose ideia de maniqueísmo ainda mexe com o imaginário de uma nação notadamente folhetinesca.

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Tcharly Magalhães Briglia é estudante de Rádio e TV (UESC-BA) e professor de Português e de Inglês

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