Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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TV EM QUESTãO > ‘MS RURAL’

O meio rural sul-mato-grossense na televisão local

Por Lucas Mourão em 12/08/2014 na edição 811

Os telejornais representam, de certa maneira, o mundo para um grupo de pessoas que não pode estar presente aos fatos. Por esse e outros motivos, sua responsabilidade perante a audiência é grande. Aos produtores cabe a missão de criar o melhor programa possível dentro das exigências e padrões jornalísticos (ética, técnica, estética) e aos pesquisadores cabe a tarefa de investigar e estudar a mídia com afinco. Tomando esse pensamento como base, neste trabalho buscou-se perceber a divulgação do meio rural sul-mato-grossense na televisão local. Mais especificamente no telejornal especializado mais antigo do estado, o MS Rural. Ele foi criado em julho de 1984pela emissoraTV Morena, em Campo Grande, sendo veiculado para todo o Mato Grosso do Sul.

O programa foianalisado a partir da produção jornalística. A pesquisa identifica as vozes, os temas mais frequentes e o que o telejornal enuncia sobre o meio rural no estado. Investiga-se o telejornal (com sua linguagem e narrativa midiática) como instrumento nas mediações do processo de construção de representações e da identidade rural no estado.

A importância do jornalismo rural no estado do Mato Grosso do Sul não pode passar despercebida. Esta editoria está em crescimento e chama cada vez mais a atenção para sua responsabilidade jornalística, divulgando informações que afetam toda população, independente de se morar no campo ou na cidade. Notícias como a venda de gado, safras (colheitas), são informações que direta ou indiretamente afetam qualquer um. O preço, a oferta e a falta de produtos que um cidadão compra no supermercado, por exemplo, tem a situação do meio rural como influência.

Os assuntos relativos à agropecuária ganham cada vez mais importância na mídia brasileira, por causa da realidade econômica do Brasil. O Brasil experimenta um notório crescimento no comércio internacional do agronegócio, desde os anos 1990. No início de 2010, a cada quatro produtos agropecuários em circulação no mercado internacional um era brasileiro. Historicamente, a agricultura é umas das principais bases da economia do País, desde os primórdios da colonização. Aos poucos, houve a evolução das grandes monoculturas como a cana-de-açúcar e o café. Segundo o Ministério da Agricultura, em 2012 no Brasil, 39,5% das exportações aconteceram graças ao agronegócio (crescimento que superou em 2% o ano de 2011). Em 2013, o Produto Interno Bruto do agronegócio brasileiro teve evolução de 3% nos quatro primeiros meses do ano em relação a igual período de 2012.

O conteúdo da produção do MS Rural

O estado do Mato Grosso do Sul também se destaca no contexto agropecuário. Está entre os maiores produtores do país emextração vegetal e agricultura. Entre as principais atividades do estado destacam-se: soja, carne de vaca, milho, trigo, algodão, cana-de-açúcar. Segundo site do governo, o estado possui o quarto maior rebanho bovino de corte do Brasil. A Seprotur (Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário, da Produção, da Indústria, do Comércio e do Turismo) divulgou que em 2012 os produtos básicos corresponderam a 63% das exportações, seguido dos produtos semimanufaturados com 32% e manufaturados com 5%. Segundo o IBGE, sete cidades do Mato Grosso do Sul estão entre as 100 cidades com maior PIB agropecuário no Brasil. São elas: Rio Brilhantes (26ª), Corumbá (34ª), Maracaju (38ª), Sidrolândia (73ª), Costa Rica (78ª), Dourados (84ª) e Ponta Porã (97ª).

Conhecer a realidade rural, o seu significado para o país e mediar essa informação com eficácia para a sociedade são atribuições do profissional de comunicação que cobre esse segmento. Em um estado como o Mato Grosso do Sul, em que o agronegócio tem grande interferência na economia, há consequentemente uma maior necessidade dos veículos de informação nessa área. Com isso, é relevante notar a forma como o meio rural é noticiado na região.

O telejornal MS Rural, da TV Morena, foi escolhido por fazer parte da rede de maior expressão local e ser o programa rural de maior tradição na televisão aberta do estado, há mais de 28 anos no ar. Sendo um importante representante no contexto rural do Mato Grosso do Sul. Essa pesquisa se faz relevante também, pois considera a mídia como um local de representação. Parte-se do entendimento que a mídia é uma produtora de representações com foco na realidade local (econômica e social). O objetivo da pesquisa foi observar o conteúdo da produção jornalística do MS Rural, fazendo um estudo detalhado das pautas tratadas.

Jornalismo especializado e jornalismo rural

A segmentação do jornalismo por áreas não é algo muito antigo no Brasil, em razão da pouca idade da imprensa no cenário nacional. Teóricos da comunicação defendem que a especialização dos conteúdos indica questões de consumo, método e linguagem. Lustosa (1996) aponta a especialização do trabalho jornalístico como uma consequência lógica da divisão do trabalho nos veículos de comunicação. Ele relaciona destaca a especialização como algo anterior ao jornalismo e que estaria tendo, na comunicação, uma oportunidade para se manifestar.

Assim como pode ser visto no desenvolvimento do ensino de Medicina, em que a especialização tem tomado caminhos cada vez mais permanentes, o jornalismo também tem se direcionado nesse rumo. Mesmo numa profissão que exige tanto conhecimento geral de seus integrantes, a necessidade de ser especialista em determinado assunto é uma exigência cada vez maior da modernidade.

Nilson Lage classifica as editorias como divisões de áreas de atividade de interesse jornalístico e entende que, a partir desse raciocínio, pode-se fazer uma reflexão mais geral sobre o significado da especialização. Defende que as redações divididas em editorias pressupõem áreas com conhecimentos específicos, e que não há necessidade de “transformar especialistas em jornalistas”. “O trabalho do jornalista não poderia ser transferido ao especialista, pois cabe ao jornalista, como agente do público, relatar sobre as coisas do mundo com critérios do senso comum” (LAGE, 2005, p. 109). A especialização jornalística prova que para se produzir uma notícia é preciso estar ciente de quais etapas e por quais processos ela passa. Quais contextos e ambientes da elaboração, quem é o profissional que a produz. E não somente a notícia deve ser estudada, mas também uma série de universos temáticos, de questões técnicas e de público.

Para os autores Pereira e Pereira (2009, p. 14) “nessa perspectiva, enquanto o jornalismo de assuntos gerais desloca-se do particular para o coletivo, o especializado parece realizar o caminho do particular para o particular.” Isso acontece por causa da especialidade que diferencia o campo de atuação. Seguindo as definições de Pereira e Perreira, o jornalismo rural se define como especializado por ser detentor de informação particularizada que procura atingir público específico. Ele tem seu próprio objeto de observação, sendo diferenciado das demais formas de jornalismo.

Segundo conceitos pertinentes, resumidos por Wilson da Costa Bueno [Comunicação Empresarial. Disponível aqui, acesso em: 20 de dezembro de 2012], o jornalismo rural pode ser denominado jornalismo em agribusiness. O que é uma denominação moderna do jornalismo agrícola e compreende o trabalho jornalístico voltado ao negócio rural e veiculado em diferentes meios de comunicação. Para Bueno, ele é praticado tanto por meios de comunicação quanto por empresas que trabalham no agronegócio, produtores agropecuários, institutos e empresas de pesquisa, como a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Segundo o autor, a especialização jornalística está atrelada à ideia do tratamento em profundidade, nos meios de comunicação, de um determinado campo do conhecimento. Jornal especializado possui um referente temático, sendo os temas sua autêntica “razão de ser”. Segundo Reis e Braga (2012), o agronegócio é fundamental para a economia brasileira, pois tem grande representatividade no PIB e expressiva contribuição às exportações de commodities e produtos agroindustriais.

Na Rede Globo de Televisão, emissora com a maior média de audiência do Brasil, a editoria rural está presente praticamente diariamente, com Globo Rural, que estreou em 1980, sob o comando de Carlos Nascimento, apresentado de segunda a sexta (às5h55, horário de Brasília) e domingo (às 8h).

Mídia sul-mato-grossense e o meio rural

As principais mídias televisivasdo Mato Grosso do Sul, que se desenvolveram foram a TV Morena e a TV MS. A TV Morena surgiu antes da divisão do Estado. Foi criada em 1965, durante o período de expansão das televisões regionais, na capital e no interior. A TV Mato Grosso do Sul (TV MS) recebeu a outorga de concessão em 24 de janeiro de 1986 por meio do decreto no 92.331, assinado pelo presidente da República, José Sarney e o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães. A concessão da TV MS é conseguida em uma época de distribuição intensa de canais de rádio e televisão no País. O telejornal MS em Manchete surge pela primeira vez na grade da emissora, no dia 28 de abril de 1987.

Na televisão local, o primeiro programa rural segundo Sandim (2003) foi o TV no Campo, apresentado na TV Campo Grande (SBT). Com um período de apresentação curto (de 1981-1983). No entanto o MS Rural, da TV Morena, é o telejornal especializado em rural mais tradicional atualmente no Estado (tendo sido originado em 1984).

Os meios de comunicação urbanos começaram a valorizar cada vez mais as informações do campo, devido à importância moderna que a economia rural passou a ter no Estado. Os veículos televisivos de comunicação do Mato Grosso do Sul têm servido para contribuir na divulgação das informações rurais com programas específicos. Atualmente no estado, destacam-se no sistema de televisão [portal de mídia. Disponível aqui, acesso em: 05 de julho 2013]: TV Imaculada Conceição (canal 15) – fundada em 2003; TV Guanandi (canal 13) – fundada em 1989; TV MS (canal 11) – fundada em 1987; TV Brasil Pantanal (canal 4) – fundada em 1984; TV Campo Grande (canal 8) – fundada em 1980; TV Morena (canal 6) – fundada em 1965. Dessas televisões atualmente quem possui telejornais específicos voltados ao homem do campo é TV Morena e a TV MS.

TV Morena

Apublicação de Toniazzo (2007) traz informações preciosas a respeito da origem e da rotina da empresa TV Morena, rede de televisão com maior expressão na região. A empresa comunicacional divide-se em três afiliadas: TV Morena Campo Grande, TV Cidade Branca, em Corumbá, e TV Sul América, em Ponta Porã. É afiliada à Rede Globo de Televisão, pertencente ao grupo da Rede Mato-grossense de Televisão. Foi a primeira emissora de televisão do antigo Estado de Mato Grosso, fundada no projeto liderado por Eduardo Elias Zahran que abandonou a ideia de construir somente uma repetidora e construiu uma geradora de imagens. A emissora foi criada em 1965, numa década que ocorreu a expansão de muitas televisões regionais.

TV Morena permanece 24 horas no ar, totalizando 1440 minutos diários de exibição de programas. A produção diária de jornalismo da emissora está em torno de 90 minutos. A programação local produz: Telejornais – Bom Dia MS, MSTV 1ª e 2a Edição, telejornal esportivo – Globo Esporte e entretenimento – Atualidades e Meu Mato Grosso do Sul. Na editoria rural, a emissora produz o MS Rural.

MS Rural

O telejornal local MS Rural é considerado um dos pioneiros no setor, em nível estadual e até nacional. Ele segue o modelo do programa Globo Rural, transmitido para todo o Brasil pela Rede Globo nas manhãs de segunda à sexta-feira e aos domingos. Segundo Nunes (2011), o programa nacional estreou em 1980 com a apresentação de Carlos Nascimento, sendo o primeiro do gênero. Retrata o universo do campo, apresentando notícias que interessam ao agricultor, como a previsão do tempo, eventos sobre agropecuária, receitas e dicas de tratamento de espécies animais e vegetais. Os apresentadores do telejornal foram: Nélson Araújo, Helen Martins, Ana Paula Campos, Vico Iasi, Priscila Brandão. A transmissão acontece aos domingos, às 8h, e de segunda a sexta-feira, às 6h10. O programa diário tem duração de 30 minutos e o dominical 55 minutos.

Segundo o professor Marcelo Cancio Soares, que participou junto de Osmar Bastos na elaboração do MS Rural, a ideia de criação foi apresentada no início da década de 80 aos diretores da TV Morena, Jorge e Fábio Zahran. Naquela época existiam matérias rurais nos telejornais regional, mas eram poucas. Os envolvidos sentiram a necessidade de se fazer um programa específico.

Após aprovado, o telejornal passou a ser exibido em julho de 1984, aos domingos; sendo apresentado por Osmar Bastos. As reportagens eram feitas por Amauri Ceni e Marcelo Cancio (repórteres), Sigfleid Nowak (cinegrafista) e José Lairson (motorista). Essa equipe produzia, gravava e editava as matérias. O programa tinha uma boa audiência na década de 80 e 90, tanto de telespectadores rurais quanto urbanos. Isso se deve muito ao fato de que na época as pessoas contavam com menos opções para se informar (não havia internet e TV a cabo) e os únicos canais abertos na televisão regional eram a TV Campo Grande e TV Morena. Marcelo Cancio, que também apresentou o programa, trabalhou nesse telejornal específico durante cinco anos, produzindo no total cerca de 800 matérias. Segundo ele desde o início havia uma boa produção – com material suficiente, carro e até avião fretado para as reportagens. As matérias eram maiores que nos outros telejornais e havia também notas, boletins e uma sessão de cartas (nelas, os produtores rurais escreviam suas dúvidas ou relatavam um problema rural).

As cidades visitadas eram de todo o estado. Matérias eram feitas até mesmo nas localidades mais longes – Mundo Novo, Ponta Porã, Corumbá. Os assuntos tratados eram diversos (morango, pinha, mandioca, ovinos, caprinos); tentava-se mostrar um pouco de tudo, mesmo que soja e pecuária se destacassem mais.

Ao comparar o meio rural divulgado no programa da época, com o atual, Marcelo Cancio acredita que antes a tecnologia no campo aparecia pouco, as pessoas eram mais ignorantes, tinham pouca informação importante, principalmente em relação à higiene. Notícias sobre melhoramento genético e pesquisas rurais tinham menos frequência. Hoje as políticas públicas também alcançam mais o fazendeiro, uma vez que a eletricidade está mais presente no meio rural, possibilitando maior acesso a televisão e a internet.

Segundo a TV Morena, o MS Rural é transmitido em rede aberta há 29 anos. Dirigido por Alfredo Singh. A primeira transmissão foi em julho de 1984. Osmar Bastos foi quem mais apresentou o programa, de 1984 a 2008. Bastos também é o idealizador do jornal. Ele é veterinário formado na USP (Universidade de São Paulo). Atualmente, é apresentado por Edevaldo Nascimento e Priscila Sampaio. O programa é exibido sábado, às 8h e reapresentado domingo, às 6h, algumas vezes tem seu horário adiantado ou atrasado devido à transmissão de treinos de Fórmula 1.

O telejornal é dividido emblocos que abordam aleatoriamente as matérias, não sendo subdivididas em sessões. Periodicamente, são feitas séries de reportagens especiais com um tema determinado. As notícias são disponibilizadas em vídeo, na íntegra, no site da emissora na internet. Como fontes são usados agricultores, pecuaristas, silviculturistas, criadores de animais, trabalhadores rurais, donos de laticínios, pessoas relacionadas ao campo em geral. Dentro do tradicional processo da comunicação (emissor, meio, mensagem, receptor), esta análise está focada especificamente no emissor, na produção, no caso o MS Rural, da emissora TV Morena, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O objeto de estudo foi claramente definido como a produção do conteúdo jornalístico.

O programa norteia sua pauta à diversificação da agropecuária, valorizando e educando as boas práticas no campo e incentivando a adoção de novas tecnologias. A cultura regional, com ênfase para as receitas culinárias, tem sido destaque nas edições divulgadas, assim como o enfoque econômico também é muito explorado.

Procedimentos metodológicos

Para saber como o setor rural é retratado no MS Rural, nesta pesquisa optou-se pela AC (Análise de Conteúdo). Ela foi adotada como metodologia, por se apresentar como um método de grande utilidade na pesquisa jornalística. Podendo ser utilizada para detectar tendências e modelos na análise de critério de noticiabilidade e agendamentos. Servindo para avaliar características da produção de indivíduos, grupos e organizações. A amostra da pesquisa é composta por quatro programas, exibidos em dois meses aleatórios de 2012: 1 e 8 de setembro (oito reportagens) e 3 e 10 de novembro (dez reportagens), num total de 18 reportagens. O tempo de programação analisado totalizou uma hora, 15 minutos e 41 segundos. A amostra foiconsiderada representativa, pois usou meses aleatórios e considerou no calendário selecionado meses que não fizessem parte do período ativo do calendário de produção agrícola. Todos os programas foram gravados e transcritos, sendo cada matéria analisada individualmente.

Usando como base os teóricos citados, com ênfase para o trabalho de Bardin (2004), a AC foi aplicada no estudo das matérias do MS Rural por meio do método de dedução frequencial e análise por categorias temáticas, paralelamente. O programa MS Rural foi escolhido por ser o telejornal específico em rural mais antigo transmitido na televisão local. Sua importância se justifica por ter a maior abrangência de público. Sendo que a primeira etapa consiste em enumerar a ocorrência de um mesmo signo linguístico (palavra) ou que se repetiu com frequência. O resultado se mensurou com descrições numéricas e tratamento estatístico. Os termos e frases usados nas categorias temáticas foram retirados de elementos da reportagem: frases dos apresentadores, dos repórteres e entrevistados, além dos créditos da tela.

A segunda etapa, análise por categorias temáticas, tentou caracterizar um segmento, criando uma classe de equivalência definida, a partir das significações de frases, em função de um julgamento. Foi feito um desmembramento do texto em unidades, construindo assim, categorias que emergiam do texto. Agrupamento em categorias baseado no que havia de comum. Procurou-se, durante a análise, agrupar textos que corroborassem com a classificação: eles deveriam ter a mesma opinião sobre o assunto. Não poderia haver ao mesmo tempo outro trecho que discordasse. Foi dada ênfase nos registros repetidos.

A análise das matérias gerou a composição dos seguintes tópicos de análise: tempo da matéria; pautas; situação do meio rural; entrevistados; relação com Governos; relação com outras entidades.

Conclusões

Esta dissertação se propôs a tratar do meio rural no programa MS Rural. Para isso, se dedicou em contextualizar o assunto de maneira objetiva, visando analisar o objeto de estudo tendo uma base teórica importante. Como foi exposto, o jornalismo rural, que faz parte da Comunicação Rural, pretende divulgar informações importantes para a rotina no campo da forma mais adaptada possível.

O Mato Grosso do Sul, um dos estados que mais arrecada com a economia rural no Brasil, tem uma necessidade visível de notícias sobre o agronegócio. E é dentro dessa demanda que o programa MS Rural, da TV Morena se insere, divulgando o meio rural para todo o Estado, há quase 30 anos. Muda apresentador e repórteres, mas a pauta maior continua sendo a mesma: o setor de onde se originam tantos produtos básicos e vitais para a sociedade, esteja ela no campo ou na cidade.

Partiu-se do entendimento que o MS Rural é um produtor de representações da realidade (econômica e social). Neste contexto, investigaram-se as representações criadas por ele. As 18 reportagens dos quatro programas analisados mostraram diversas características do meio rural exibido no telejornal. Por isso não faz sentido, com essa pesquisa, elaborar uma conclusão única. Na verdade destacar uma pluralidade delas é mais viável.

No trabalho realizado constatou-se que, baseado no quadro de classificação por tempo, a maioria das matérias (72%) têm uma média de duração entre dois e cinco minutos. 22% têm duração maior e apenas 6% pode ser considerada pequena. Isso mostra que o programa tem uma lógica de composição das matérias (e quando foge do costume, pende mais para reportagem grande, do que pequena). A menor reportagem registrada na amostra trata da demarcação de terra (um assunto isolado em meio a outros predominantes). Por outro lado, as matérias sobre produção agropecuária estão mais destacadas.

Constata-se que há uma grande variedade de repórteres trabalhando no programa. Nas 18 matérias analisadas, trabalharam 11 repórteres – sendo que cinco deles apareceram mais de uma vez. Desses cinco, dois deles apareceram três vezes cada – Bruno Grubertt em Corumbá e Naurimar Franco na região de Ponta Porã (as duas cidades são transmissoras regionais da TV Morena: TV Cidade Branca e TV Sul América). Priscilla Bitencourt fez duas matérias em São Gabriel do Oeste. Liziane Zarpelon, duas na região de Dourados. E Osvaldo Nóbrega duas na região de Campo Grande. Dos outros seis repórteres que aparecem uma vez, quatro deles fazem reportagens na região de Campo Grande. Todos trabalham no jornalismo da emissora.

Entre os assuntos tratados mais de uma vez, os que tiveram destaque em matérias grandes foram o milho e a piscicultura. Isso era de se esperar sobre a milhocultura (5º produto mais exportado no estado em 2012, segundo o IBGE). Porém, tanto o tempo quanto a quantidade de reportagens dedicados a piscicultura é de certa maneira surpreendente. Pois sua cultura não é tradicional no Estado, não tem uma alta arrecadação como a de outros produtos, não estando entre os 20 produtos mais exportados pelo estado. O setor, que está em crescimento, tem diversos desafios antes de se consolidar.

É muito visível a predominância de matérias sobre agricultura, em relação à pecuária. Entretanto, quando se separa a agricultura em culturas individuais, a milhocultura é a que tem o mesmo número de matérias que a pecuária. Vale ressaltar que o milho durante a época da amostra, não estava em seu momento mais forte, na safra (mas em entressafra). Levando em consideração o calendário agropecuário da Embrapa, o programa dá ênfase a algumas culturas, mesmo elas não estando em período de colheita. No Centro-Oeste, as colheitas das culturas mais fortes acontecem no primeiro semestre (milho – fevereiro a junho; soja – janeiro a maio; cana de açúcar – abril a dezembro).

A repetição de matérias na pecuária estaria em conformidade com a força do setor que tem quatro ramificações entre os 20 produtos mais exportados do estado (carne bovina e industrializada, couro, tripas). Porém vale destacar que o rebanho de corte já foi o maior do Brasil (hoje superado pelos estados de Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo), o que justificou a implantação da Embrapa Gado de Corte no estado (em 1977).

A situação do setor rural no estadoé mais divulgada como “desenvolvida” (39% das matérias) e “em desenvolvimento” (44%). Dessa maneira, o MS Rural molda a reputação da editoria que divulga. Mostrando que a maior parte do meio rural sul-mato-grossense está melhorando, recebendo investimento e incentivo dos envolvidos e já tem quase metade das culturas bem desenvolvidas (milhocultura, suinocultura, combate a ervas daninhas, desenvolvimento sustentável, soja e pecuária). Mostra também que uma parcela pequena (17%) necessita se desenvolver muito, por estar estagnada (questão das queimadas, mandiocultura e transporte fluvial).

O relacionamento entre ogoverno federale o campo é mostrado de maneira positiva. Nenhuma crítica é feita. Toda vez que o governo é citado, aparece como financiador e ajudante do setor rural. Sendo que os setores os quais mais apoia são aqueles classificados como em desenvolvimento (cinco matérias), além de continuar auxiliando onde está desenvolvido (duas matéria) e trabalhando para melhorar um setor estagnado (uma matéria). O governo estadual, que é citado uma vez, aparece atuante na questão de fiscalização de cargas na fronteira de Corumbá. Pode-se perceber uma visão unilateral do relacionamento governo e meio rural. A esfera pública toda vez que é citada é como apoiadora, em nenhuma reportagem é falado da necessidade de maiores políticas públicas ou de maior atuação do poder público.

Levando em consideração as entrevistas, pode-se constatar um número bom de entrevistados, com uma média de três por matéria. Mesmo que o foco não esteja em todas as classes econômicas, pelo menos existe o costume de se consultar vários envolvidos no assunto. Os grupos em número total de entrevistados ou de aparição por matéria trazem a mesma conclusão: predominância da classe patronal (grandes e médios produtores rurais) em relação aos outros grupos. Esse grupo teve mais voz (14 matérias, 22 entrevistados) do que todos os outros, o número mais próximo é o de fontes ligadas a pesquisa (10 matérias, 15 entrevistas). Um exemplo dessa predominância pode ser constado na matéria 17, que fala de feira pecuária. Nenhum empregado ou pequeno produtor é entrevistado.

Fica claro também o pequeno espaço que tem no programa o pequeno produtor rural (três matérias, cinco entrevistas), ele é menos ouvido, por exemplo, do que os empregados rurais (6 matérias, 9 entrevistas). Esses últimos servem mais para ilustrar o assunto tratado, visto que trabalham diretamente com as culturas e conhecem muito dos detalhes da produção. Mas nenhuma matéria é específica para o funcionário.

Essa predominância é reforçada se observarmos as citações feitas das entidades coletivas. A predominância é de cooperativas, que mostra a união de alguns setores da produção (milho, suíno e pecuária). É visto também o apoio direto das entidades de pesquisa em três setores (mandiocultura, criação de ovinos e desenvolvimento sustentável). A ausência de matérias ligadas aos sindicatos de trabalhadores rurais mostra que essa categoria não é mesmo o foco do programa.

A análise feita nesta dissertação mostra que o meio rural do estado do Mato Grosso do Sul, apresentado pelo MS Rural, é de certa forma bem diverso. Algumas características, entretanto, são enfatizadas pela frequência com que o programa as divulga: agricultura mais ativa que a pecuária (ênfase para milhocultura); meio mostrado em boa situação (maior parte se desenvolvendo ou desenvolvido); as cidades mais destacadas são aquelas com maior força em suas culturas agropecuárias; o governo federal é visto com bons olhos, como um parceiro de diversos setores; o homem do campo é mais divulgado como um grande/ médio produtor, tendo apoio de cooperativas e entidades patronais.

As conclusões expostas aqui servem também como sugestão de reflexão na editoria rural. Para que audiência e produtores tenham um estudo mais detalhado do programa, podendo observar características das reportagens muitas vezes despercebidas durante a produção e recepção. E avaliar abordagem, seleção e composição das pautas relacionadas ao homem do campo.

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Lucas Mourão é mestrando em Comunicação Social

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