Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
Menu

TV EM QUESTãO > VER TV

Diversão e crueldade na cozinha

Por Mauricio Stycer em 21/10/2014 na edição 821
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 19/10/2014; intertítulo do OI

Uma cena de três minutos, exibida nesta quarta-feira (15), ajuda a explicar por que “MasterChef”, um concurso de gastronomia exibido pela Band, é um dos melhores programas do ano na TV aberta.

Todos os competidores tiveram 75 minutos para preparar um prato à base de peixe. Bianca, segundo a descrição que fez, preparou um “papillote de tilápia”, com “cream cheese e groselha na cama de laranja, vinagrete e cogumelos”.

O primeiro jurado, o brasileiro Henrique Fogaça, passou lentamente o garfo sobre o creme que cobria o peixe, depois retirou a fatia de laranja que estava embaixo, provou um pedacinho e não disse nada.

O segundo jurado, o francês Erick Jacquin, apontou para o creme avermelhado e perguntou: “O que é isso aqui?”. Bianca tentou explicar: “Groselha. Queria tingir o cream cheese. Achei que ele ia desaparecer.” Jacquin retrucou: “É Natal?” Com um sorriso amarelo, Bianca disse: “Não”.

A argentina Paola Carosella, terceira a provar, não disse nada e fez cara de quem ficou intrigada com o que comeu.

Filão apetitoso

Chegou, então, a hora do diagnóstico. Fogaça disse: “O cogumelo está ok, mas há um excesso de coisas. Você pôs tudo que viu pela frente. E o peixe, que era para ser o protagonista, ficou só como mais um ingrediente de escolha”.

Paola observou, compreensiva: “Tilápia é um peixe extremamente suave. Não tem muito sabor. Se você colocar um monte de coisas, ela vai embora. É muito difícil trabalhar esse prato”.

Veio então Jacquin. Como ocorre frequentemente, a Band até inseriu legendas, para não haver dúvidas em relação ao seu português com forte sotaque.

De uma só vez, ele disse: “Eu não acredito. Você pegou essa tilápia, bonita, maravilhosa, nesta mesa de peixe extraordinária, para fazer isso. Imagina essa tilápia. Ela deve pensar: Nossa, eu terminei minha vida desse jeito?’ Como você pode fazer isso? Esse é um peixe do pior fast-food do litoral de São Paulo. Laranja, cebola, cream cheese, champignon, vinagrete da caixa de outro dia. Só faltou um ovo e é um peixe a cavalo. Você sabe fazer muito melhor que isso. Onde foi a sua personalidade? Tô triste. Por você e pela tilápia.”

Bianca foi a eliminada da semana.

“MasterChef” é mais um formato estrangeiro importado pelo Brasil. Já foi testado e aprovado em mais de uma centena de países. O mérito da Band, além de reproduzir a receita com cuidado, foi ter escolhido um trio de jurados muito bom.

Com vocação teatral, e cada um dono de um estilo próprio, Fogaça, Paola e Jacquin são muito rigorosos. A crueldade dos julgamentos faz parte do show –os candidatos, todos cozinheiros amadores, sabem onde se meteram.

O SBT não perdeu tempo e, 40 dias depois da estreia do “MasterChef”, lançou “Cozinha Sob Pressão”, igualmente um formato estrangeiro, no qual cozinheiros profissionais se submetem ao julgamento de um chef experiente, no caso, Carlos Bertolazzi.

Há vários outros concursos de culinária na TV paga. A aposta da Band e do SBT mostra que, além do interesse comercial, há enorme potencial de entretenimento neste filão. O único risco, como ocorre com toda moda, é o público logo enjoar.

******

Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem