Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Memórias de uma emissora de ponta

Por Julio Cesar Fernandes em 21/10/2014 na edição 821

Na segunda-feira (13/10) ocorreu o evento “TV Excelsior” no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Promovido como parte do curso “Memória televisiva e história da telenovela brasileira”, ministrado pelo signatário, o evento gratuito teve participação das atrizes Regina Duarte e Vida Alves, além do primeiro diretor artístico da emissora, Álvaro de Moya. A conversa com os profissionais da TV Excelsior foi mediada pelo pesquisador Elmo Francfort.

Antes, o mesmo curso promoveu outro encontro a respeito do programa Castelo Rá-Tim-Bum com o diretor Cao Hamburger e os atores Pascoal da Conceição (Dr. Abobrinha) e Álvaro Petersen Jr. (Celeste).

Em mais de duas horas, a história da extinta emissora foi contada por meio dos três participantes, que trabalharam na Excelsior em épocas distintas. Álvaro de Moya, que é a memória viva da emissora, representou a primeira fase da emissora. Ele é autor do livro Glória in Excelsior (que pode ser baixado aqui) e estava na inauguração, em 1960.

Dentre os casos relatados por Moya está a valorização do tempo na grade de programação. Ele próprio implementou a precisão de segundos e a padronização dos horários com a criação das grades horizontal e vertical em emissoras de televisão.

Banhos seguidos

Já Regina Duarte representou a fase de ouro da TV Excelsior, em que grandes musicais, programas de auditório e telenovelas foram produzidas na emissora. Regina relembrou sua estreia na emissora em 1965. A atriz interpretou a personagem Malu, de A Deusa Vencida. Regina disse que foi questionada em relação ao nome de sua personagem em uma série da TV Globo em 1980, Malu Mulher, e escolheu o mesmo nome de sua personagem dos anos 1960, pelo que a novela representou em sua carreira.

Outra curiosidade contada por Regina, ainda a respeito de sua estreia, foi que o maquiador da emissora a ensinou a se maquiar no primeiro dia e depois disso ela tinha que fazer diariamente todo o trabalho sozinha, pois havia somente um profissional para cuidar de todo o elenco.

Regina foi para a TV Globo em 1969, quando ainda estava no ar na novela Dez Vidas, na Excelsior. Mesmo com a emissora já em decadência e sem pagar o salário havia seis meses, a atriz não se sentiu confortável na troca e ficou doente, com febre e de cama. Tudo mudou por conta de uma decisão da própria Excelsior: “Uma noite, doente, eu liguei a televisão e vi que a Leila Diniz já estava fazendo meu personagem na novela! Fiquei morrendo de ciúmes”, confessou Regina.

A terceira participante da mesa foi a pioneira Vida Alves, que estava na inauguração da televisão no Brasil, em 1950, e continua na ativa: “Não trabalho na televisão e sim para a televisão.” Vida é presidente da Pró-TV (Associação dos Pioneiros da Televisão Brasileira) e luta para a criação do Museu da Televisão Brasileira.

Vida e Regina atuaram juntas em uma mesma novela: Os Estranhos, em 1968. Ambas relembraram uma participação mais do que especial: a do jogador Pelé. Vida disse que entre uma cena e outra, o jogador – e, na ocasião, o também ator – tinha que tomar banho, como nas partidas de futebol.

Memória viva

Além das telenovelas, Elmo Francfort pediu para os participantes falarem a respeito de marcos na programação da Excelsior, como o programa de variedades Brasil 60, com Bibi Ferreira; o I Festival da Música Popular Brasileira” (1965), cuja vencedora foi Elis Regina com a música “Arrastão”; o Jornal de Vanguarda, que tentava driblar a censura; e a faixa de filmes “Cinema em Casa”.

A crise que a emissora passou e que culminou com o encerramento de suas atividades, em 1970, também foi relatada. Álvaro de Moya salientou a perseguição ao grupo Simonsen (dono da emissora) por não apoiar regime militar então vigente no país após o golpe de 1964. Vida estava lá em 15 de outubro de 1970, quando “foi retirado o cristal”, que era responsável pelas transmissões. A ideia de criar uma rede, como a TV Excelsior gostaria, não foi bem-sucedida, mas as marcas de profissionalismo estão presentes até hoje em outras emissoras.

Histórias interessantes, emocionantes e que denotam a importância da TV Excelsior para a história da televisão brasileira. Fatos relevantes que foram acompanhados não só por contemporâneos da Excelsior, mas também por jovens que tiveram o prazer de conhecer melhor a rica trajetória da extinta emissora e, assim, manter latente e viva a sua memória.

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Julio Cesar Fernandes é mestre em Comunicação Social com ênfase em Memória Televisiva, coordenador de operações do Jornalismo da TV Globo em São Paulo, autor do livro A memória televisiva como produto cultural: um estudo de caso das telenovelas no Canal Viva

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