Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A realidade engole a ficção

Por Mauricio Stycer em 28/10/2014 na edição 822

Encerrada “Plano Alto”, uma boa série de temática política exibida pela Record ao longo das primeiras três semanas de outubro, a questão mais importante a tentar entender é: por que, ao contrário da tão animada disputa eleitoral, o programa não despertou interesse algum?

De autoria de Marcílio Moraes, “Plano Alto” se passa em junho de 2013 e conta a história do governador Guido Flores (Gracindo Jr.), cuja situação, naquele momento, é a pior possível. Enfrenta uma oposição raivosa na Assembleia Legislativa, que o ameaça com uma CPI, é acusado por sindicatos de servidores pelo sucateamento da saúde do Estado e vê estudantes e black blocs ocuparem ruas e repartições públicas na capital.

Ao redor de Flores, inúmeras tramas se desdobraram. O líder da oposição na Assembleia, apesar do discurso moralista, alimenta práticas políticas criminosas, além de ter telhado de vidro na vida privada. Já o presidente do Brasil, supostamente aliado, vê o governador como ameaça à sua sucessão.

O filho do governador é um ambicioso deputado federal, capaz inclusive de traí-lo, enquanto seu neto se envolve com os black blocs.

Há vários jornalistas na história. Eles são usados pelos políticos para plantar notas maldosas em colunas ou para investigar histórias a serviço de um ou outro grupo. O editor de política de um importante jornal é casado com a filha do governador, uma relação que ele usa profissionalmente a seu favor e a favor do sogro.

Erro crasso

Por mais que o espectador possa enxergar semelhanças com o mundo real, Moraes escapou da tentação de fazer um “seriado à clef”. Ou seja, os personagens são, de fato, genéricos, sem associação direta com um ou outro tipo conhecido da política ou do jornalismo.

Essa é, não por acaso, a força maior de “Plano Alto” –um retrato realista, bem cético do mundo político, mas sem apontar o dedo para ninguém em particular.

O primeiro episódio marcou 4,7 pontos no Ibope. O último registrou apenas 3,1. Na média dos 12 capítulos, “Plano Alto” ficou com 3,8 pontos –uma audiência tão baixa que a Record evitou divulgá-la.

Em sua página no Facebook, o autor procurou minimizar o fato. “O resultado me deixou feliz”, escreveu Moraes. “A audiência não foi alta, mas isso eu já esperava. Não escrevi uma série com os elementos que, pelo menos hoje em dia, costumam garantir sucesso de público.”

Faço apenas um reparo ao texto de Moraes, bem escrito, de fato, mas um pouco literário demais. Alguns atores claramente tropeçaram na arte de digerir e dar alguma coloquialidade a suas falas. Mas não creio que esse problema tenha atrapalhado muito o desempenho da série.

Creio que foi um erro crasso lançar “Plano Alto” no mês das eleições. Quem, em boa fé, viu oportunidade na associação do programa com a disputa nas urnas, não se deu conta que a série oferecia um olhar sutil e, de certa forma, sofisticado sobre a realidade.

Diante do horário político obrigatório, dos debates e da cobertura jornalística destas eleições, “Plano Alto” não tinha como chamar a atenção. A série de Marcílio Moraes foi engolida pela realidade.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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