Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

TV EM QUESTãO > ‘QUE MONSTRO TE MORDEU?’

De costas para as crianças

Por Mauricio Stycer em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 16/11/2014; intertítulo do OI

Cao Hamburger, como se sabe, é um dos criadores do “Castelo Rá-Tim-Bum”, um dos melhores programas infantis da história da TV brasileira. Os 20 anos da estreia da série estão sendo festejados, no momento, com uma baita exposição no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

É também o criador de “Que Monstro te Mordeu?”, série que estreou nesta semana na TV Cultura. A julgar pelos primeiros episódios, o novo programa segue os passos do trabalho mais famoso do diretor, mostrando as possibilidades de produzir programação inteligente, ao mesmo tempo divertida e educativa, para crianças.

Jô Soares entrevistou Hamburger na última segunda-feira (10). A conversa se prolongou por mais de 17 minutos e versou sobre a origem do sobrenome do entrevistado, o colégio Equipe, onde ele estudou nos anos 70, a amizade com Serginho Groisman, que se juntou à conversa, futebol, shows de música, e menções breves a Nando Reis, Gilberto Gil e Flávio Império.

Sobre o que seria o assunto principal da entrevista, porém, Jô dedicou menos de dois minutos. A respeito do “Castelo Rá-Tim-Bum”, limitou-se a dizer que a série foi uma recordista de audiência e elogiou o protagonista, Cássio Scapin (“Meu amigo, um ator espetacular”).

Sobre “Que Monstro te Mordeu?”, só fez uma pergunta (“Como é a nova série que acaba de estrear?”), mas não deu chance a Hamburger de responder e logo exibiu um trailer. Depois observou: “Quando a criança não quer dormir, você mostra esse trecho. São bonitinhos os monstros…”.

Ótima combinação

Ao final, já se despedindo, Jô se lembrou de falar sobre a exposição do “Castelo” no MIS. Informou, então, os horários e os nomes dos patrocinadores. Cao Hamburger fez menção de que queria dizer algo, mas o apresentador não se deu conta e encerrou a conversa.

Tirando o fato de que Jô não estava numa boa noite, a entrevista é reveladora do espaço cada vez menor que a produção para crianças encontra na TV aberta brasileira.

Na principal emissora do país, desde 2012, a programação infantil, agrupada no programa “TV Globinho”, se limita a uma faixa de cerca de quatro horas nas manhãs de sábado. Fala-se que mesmo este horário poderia sair da grade em 2015.

Além da TV Cultura, que segue apostando neste segmento, somente o SBT oferece o que se pode chamar de programação diária, matutina, destinada a crianças.

Há algumas explicações para este fenômeno. Em primeiro lugar, os novos hábitos, que afastam, não apenas os adultos, mas também as crianças da TV convencional. Os números de audiência de canais estrangeiros dedicados ao público infantil na TV paga atestam esta mudança.

Há também uma questão comercial, ligada à pressão por limites cada vez maiores à publicidade infantil. A recente resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), que considera este tipo de publicidade “abusiva”, deve inibir, ainda mais, o interesse de eventuais patrocinadores em apostar neste segmento.

A encantadora “Que Monstro te Mordeu?” contou com investimentos de R$ 14 milhões do Sesi-SP e encontrou espaço para exibição em uma TV pública. É uma combinação ótima que, infelizmente, no Brasil, não dá para generalizar.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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