Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > REDE RECORD

Andando para trás

Por Mauricio Stycer em 10/03/2015 na edição 841
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 8/3/2015; intertítulo do OI

Ao reunir a imprensa para anunciar a programação de 2015, no início de fevereiro, a Record aproveitou também para divulgar o seu novo slogan: “Aberta para o novo”.

O tema logo motivou piadas, uma vez que as três principais apostas da emissora neste ano parecem ser Gugu Liberato, Xuxa e César Filho, que têm, somados, mais de 100 anos de carreira na televisão.

Em princípio, não compartilho da ironia em relação a este slogan. Acho possível que artistas e apresentadores veteranos se renovem. E mais, acho saudável a emissora reconhecer, ainda que com muito atraso, a necessidade de se abrir para o novo.

A estreia de Gugu, porém, levantou muitas dúvidas tanto sobre a ambição do apresentador quanto sobre a intenção da Record.

Exibido nas noites de terças, quartas e quintas, o novo programa do apresentador está no ar há apenas duas semanas, mas já exibe a aparência de um velho curvado usando bengala para andar.

Descrevo brevemente o cardápio do episódio desta última quarta-feira (4). Gugu abriu o programa prometendo esclarecer um mistério exibido na véspera –o sexo de uma ave levada ao palco por um senhor de Caldas (MG). A legenda na tela avisava: “Daqui a pouco o resultado do exame de DNA da galinha mineira”.

Entretenimento e assistencialismo

A exploração barata do mundo bizarro mereceu uma justificativa de Gugu. Segundo o apresentador, a história da galinha que age como galo havia despertado o interesse de outras duas emissoras de TV e foi tema de portais da internet.

Na sequência, o apresentador prometeu mostrar o seu encontro com Shaolin, que vive há quatro anos imobilizado, sem falar, em consequência de um acidente de carro. O drama do humorista já foi exibido um sem número de vezes em diferentes programas da Record, onde ele trabalhava à época do desastre.

Encerrado o longo melodrama na casa de Shaolin, que incluiu elogios da mulher dele à emissora por continuar pagando o seu salário, o programa retornou ao palco, onde Gugu recebeu um cantor de hip-hop que faz o seu número de dança a despeito de ter uma perna parcialmente amputada.

O quadro se concluiu, como era possível antecipar, com a doação de uma prótese nova e mais moderna ao jovem, o que vai facilitar a sua vida e a sua carreira musical. Ciente das críticas a este tipo de assistencialismo primário, Gugu disse: “A televisão é usada até para deseducar muitas vezes, por que não usar para ajudar?”.

Em seguida, o apresentador levou ao palco uma senhora que sonhava reencontrar os seus cinco irmãos. O programa, claro, promoveu o encontro em meio a muitas lágrimas. A atração seguinte foi uma brincadeira –três mulheres conhecidas (Claudete Troiano, Sylvia Design e Renata Alves) deveriam adivinhar qual o bicho que estavam tocando com as mãos.

Por fim, depois de duas horas e meia, Gugu reconvocou ao palco o dono da ave que foi submetida a exame de DNA. Dirigindo-se ao auditório, ele pediu: “Quem acha que é galo levanta a mão! Quem acha que é galinha levanta a mão!”. E lendo o exame, revelou: “O sexo é feminino”.

“Record aberta para o novo”? O programa do Gugu, de fato, desmoraliza o novo slogan da emissora. Não há nada ali com menos de 50 anos de idade na TV. Pior, sob a justificativa do entretenimento e do assistencialismo, busca-se exclusivamente conquistar alguns pontinhos no Ibope e recuperar a vice-liderança perdida para o SBT. Um atraso total.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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