Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

TV EM QUESTãO > NOVELAS & PRECONCEITO

País retrocede ao discutir causa gay

Por Jaiane Valentim em 24/03/2015 na edição 843

A nova novela da Rede Globo, Babilônia, estreou há uma semana e já gerou um rebuliço desnecessário por parte de internautas, deputados e até mesmo de duas de suas concorrentes diretas.

A trama, escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, aborda, entre outros temas, a relação homoafetiva na terceira idade. As personagens Estela (Nathália Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro) têm uma união estável há 35 anos e, após todo esse tempo, puderam finalmente se casar. Casais homossexuais já estão presentes nas novelas da emissora, como nas antecessoras Império (José Mayer e Kléber Toledo) e Amor à Vida (Mateus Solano e Thiago Fragoso). Babilônia “chocou” o público por não esperar a trama inteira para mostrar o beijo de um casal homossexual. Isso aconteceu logo na estreia, na segunda-feira (16/3); outro beijo entre Estela e Teresa foi ao ar no terceiro capítulo.

Não demorou muito para que o país se mostrasse mais preconceituoso do que se pensa. Diversas manifestações contrárias ao casal tomaram as redes sociais, escancarando uma parcela da população que parece não acompanhar o tempo que vive.

“Preocupada”, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional divulgou no dia seguinte da estreia, 17, uma nota de repúdio à cena. Segundo o texto, “a emissora tem clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira o modismo denominado por eles de ‘outra forma de amar’, contrariando nossos costumes, usos e tradições. Essa é a forma encontrada para disseminar a ideologia de gênero, atacando diretamente a família natural e aqueles que denominam de ‘conservadores’, pelo simples fato de não coadunarem com estas práticas”.

Posturas como essa, vinda de deputados, pessoas que lutam (pelo menos deveriam) por melhorias para aqueles que os colocaram no poder, fazem com que o país “retroceda” – na verdade, em relação a esse assunto, algumas pessoas parecem não fazer nenhum esforço para compreender o direito e princípio de igualdade, que consta na Constituição Federal (1988). Ainda é curioso partir da bancada evangélica, que, obviamente segue princípios bíblicos; afinal, o conceito de igualdade também consta no livro sagrado. Tiago (2:9) diz: “Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.”

Hipocrisia do SBT, oportunismo da Record

Não foi só a Frente Parlamentar Evangélica que atacou a Globo. Concorrentes diretas, SBT e Record, oportunistas, também deram uma cutucada na emissora carioca. Na mesma semana de estreia de Babilônia, o SBT pôs no ar uma chamada dupla das novelas infantojuvenis Chiquititas e Carrossel. Logo no início, o anúncio diz “novela pra família é aqui!“. Esse oportunismo do SBT poderia ser facilmente chamado de hipocrisia. Em 2011, a emissora de Silvio Santos mostrou o primeiro beijo lésbico em novelas da TV brasileira. Na ocasião, as atrizes Giselle Tigre e Luciana Vendramini, que viviam Marina e Marcela na novela Amor e Revolução, protagonizaram um beijão, longo e intenso, diferentemente dos selinhos que já foram ao ar na Globo.

A repercussão não foi das melhores e isso fez com que um segundo beijo com as duas fosse vetado, além de um beijo entre homens. À época, o SBT divulgou nota, dizendo “o SBT realizou uma pesquisa para avaliar o desempenho de Amor e Revolução. A pesquisa apontou a insatisfação do público em geral em relação às cenas de violência demasiada e beijo gay explícito”. A emissora ainda se envolveu em outra polêmica. Ao exibir a novela mexicana Sortilégio, no ano passado, o SBT transformou um casal gay em heterossexual. Com a dublagem, o texto original foi modificado e, com isso, o público tinha a impressão que os dois rapazes eram mesmo héteros.

Emissora do bispo Edir Macedo, a Rede Record também quis dar sua “lição de moral” na Globo. No último domingo, 22, o apresentador Geraldo Luís disse em seu programa, ao vivo, que [Os Dez Mandamentos é] “uma novela para a família brasileira que você pode ver com os seus filhos”. Os Dez Mandamentos é a primeira novela bíblica da TV brasileira. A discussão de religiões chega às novelas e cria uma polarização mais evidente.

Em um país onde gays sofrem agressões físicas gratuitas nas ruas, a Globo acerta ao discutir o tema. Tratando o casamento como ato político, como diz a personagem de Fernanda Montenegro, e sabendo do poder de alcance que tem, tenta – há algum tempo – tornar um beijo homossexual em algo natural. Assim como é importante enxergarmos casais homossexuais como um casal como qualquer outro, não só na teledramaturgia como na vida real.

É preocupante que conteúdos violentos, por exemplo, sejam mais “bem vistos” do que a homossexualidade. A própria Rede Globo exibiu uma série sobre um serial killer e nada causou tanto desconforto. Pelo contrário. Houve uma discussão sadia sobre assassinos com esse perfil. Por que não podemos discutir com maturidade um assunto tão presente na nossa sociedade há tanto tempo, como é a relação e o casamento gay? Seus filhos não podem ver uma cena de cumplicidade entre duas pessoas do mesmo sexo, mas podem ver assassinatos, roubos e uso de drogas na televisão?

É difícil acreditar em um país onde questões como essa são postas como de outro mundo. O progresso, descrito em nossa bandeira, parece não fazer sentido. Em casos como esse vemos que somos caranguejos. A Globo insiste em bater na tecla, mas, infelizmente, até o momento tudo entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

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Jaiane Valentim é jornalista

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