Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > TV CULTURA

Parque de diversões da elite

Por Mauricio Stycer em 24/03/2015 na edição 843
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 22/3/2015; intertítulo do OI

Uma televisão pública deve se preocupar com os números de audiência? A questão não é nova, mas poucas vezes recebeu uma resposta tão dura e contundente quanto a oferecida pelo jornalista Ernesto Rodrigues no livro “O Traço da Cultura” (editora Reflexão, 336 págs., R$ 49,90).

O subtítulo da obra já dá o tom do ataque: “O desafio de ser ombudsman da TV Cultura, a emissora mais festejada e menos assistida do Brasil”.

Formado na mídia privada, incluindo a Globo, em que exerceu cargos de chefia no telejornalismo, Rodrigues teve uma péssima impressão da Cultura entre 2008 e 2010, período de seu mandato como ombudsman: “Um parque de diversões da elite cultural paulistana em que todos trabalhavam de costas para o público, sem querer saber se ele estava satisfeito. Ou mesmo presente.”

Por ser mantida majoritariamente com recursos do governo do Estado de São Paulo, a Cultura é uma emissora pública, lembra. “Público é também algo que pertence a todos, aberto a qualquer pessoa e sem caráter secreto, exclusivo ou excludente”.

Com uma audiência média em torno de 1 ponto no Ibope (cada ponto hoje corresponde a 67 mil domicílios na Grande São Paulo), a Cultura não estaria, na visão de Rodrigues, realizando a sua “missão”. A saber: “tornar aquela mesma programação realmente pertencente à coletividade que a sustentava, envolvendo-a, impactando-a, mobilizando-a e, em última análise, justificando a própria existência como TV pública”.

Mais explicações

Sinal das dificuldades que enfrentou, Rodrigues justifica a decisão de publicar o livro como reação à “virtual clandestinidade” que viveu no período. Os seus mais de 500 textos, diz, foram “escondidos no blog do ombudsman hospedado na página de internet da emissora aberta menos assistida de São Paulo”.

O autor descreve as muitas críticas pontuais que fez –do excesso de experimentação dos documentários exibidos a erros na escolha dos horários dos programas, passando pela “arrogância” de diretores de atrações que, na sua visão, pouco se importavam com os espectadores.

Uma acusação sempre feita à Cultura, a instrumentalização política da emissora, é abordada em um capítulo. Apesar de ter notado “tons carregados” e momentos de “militância” em programas, o ombudsman avalia que a Cultura conseguiu desagradar tanto a tucanos quanto a petistas no período em que acompanhou a programação.

Contra o “elitismo e soberba burocrática que faziam parte do DNA organizacional da emissora”, Rodrigues defende a inclusão de conteúdos, personagens e temáticas “mais populares” na grade. Na sua visão, isso não significa “abrir mão do senso crítico ou adotar a mediocridade como parâmetro cultural ou jornalístico”.

O autor reclama de falta de contextualização e didatismo em vários programas da Cultura, um problema que se vê também no seu livro. Poderia ter explicado melhor o que levou a emissora a criar o cargo de ombudsman, como e por que ele foi escolhido e por quais razões a função foi extinta após uma única experiência.

Rodrigues reconhece ter levado para o trabalho na emissora pública “cacoetes da TV comercial” –o que transparece na obra. Ainda assim, “O Traço da Cultura” (o título faz referência a programas que “dão traço”, ou seja, ibope inferior a 0,5 ponto) merece atenção, pela discussão que recoloca em pauta.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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