Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > ‘BABILÔNIA’

Muito mais que um beijo

Por Mauricio Stycer em 31/03/2015 na edição 844
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 29/3/2015; intertítulo do OI

No sétimo minuto do primeiro capítulo de “Babilônia”, Estela (Nathalia Timberg) disse a Teresa (Fernanda Montenegro): “Você já passou da idade de trabalhar tanto, meu amor”. Noventa segundos depois, encerrando uma conversa trivial sobre a filha de uma delas, Estela beijou carinhosamente a mão de Teresa, que retribuiu com um longo beijo na boca da mulher.

Exibida há duas semanas, a cena causou, como seria de se esperar, enorme alvoroço. Horrorizados, espectadores se declararam ofendidos, enquanto telepastores denunciaram a “podridão moral” da Globo e pediram boicote à Natura, patrocinadora da novela.

Com notável senso de oportunidade, e boa dose de hipocrisia, o SBT anunciou que no mesmo horário está exibindo “Carrossel”, uma “novela pra família”. Em 2011, a emissora colocou no ar o primeiro beijo entre duas mulheres em uma novela brasileira.

A Record, que acaba de lançar “Os Dez Mandamentos”, não confrontou a Globo formalmente, mas dois de seus principais apresentadores, Marcelo Rezende e Geraldo Luís, também estão explorando o mote de que a novela bíblica é “para a família”.

Como foi fartamente anunciado antes da estreia de “Babilônia”, Estela e Teresa formam um casal há décadas. Elas criam como filho um dos netos da primeira, Rafael (Chay Suede). Por volta do capítulo 35, as duas vão formalizar a união, em uma grande festa.

Está claro que a rejeição, tanto a espontânea quanto a orquestrada, não é ao beijo que Estela e Teresa deram no primeiro capítulo, mas à sugestão dos autores de “Babilônia” de que o conceito de família deve ser entendido de forma mais ampla do que a tradicional.

Abaixo da expectativa

No segundo capítulo, ainda passado em 2005, Teresa é chamada à escola de Rafael e ouve da diretora o pedido para que o garoto não mencione com os colegas ter “duas mães”, mas, sim, uma mãe e uma tia.

“Eu não tenho nada contra, mas alguns pais dos alunos ficaram incomodados”, diz a diretora. “Legalmente, a senhora tem toda razão”, responde a personagem de Fernanda Montenegro. “Mas há certas leis que precisam se adaptar à realidade.”

A observação parece ser uma referência a um projeto de lei, em tramitação no Senado, que revê o instituto da união estável e amplia o seu conceito reconhecendo a relação homoafetiva como entidade familiar.

“Babilônia”, desta forma, dá sinais de estar engajada em uma campanha importante para a militância LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). Trata-se de um passo adiante em um terreno onde as novelas da Globo sempre patinaram.

Como se sabe, a emissora proibiu, por muitos anos, a exibição de beijos entre personagens homossexuais. Autorizada oficialmente em janeiro de 2014, a quebra do tabu em cena de “Amor à Vida”, protagonizada por Felix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), abriu espaço para a discussão avançar.

Desperta curiosidade ver como a Globo lidará com a pressão para atenuar o debate proposto em “Babilônia”. Pesa contra a novela, neste início, um resultado no Ibope muito abaixo da expectativa. Grupos de discussão estão sendo feitos para ouvir a opinião dos espectadores. A bandeira de Teresa e Estela, desconfio, corre riscos. Espero estar enganado.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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