Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Os limites entre jornalismo e entretenimento

Por Tcharly Magalhães Briglia em 31/03/2015 na edição 844

O interesse do público pelo universo das celebridades tem sido responsável, há muito tempo, pelo sucesso de muitas publicações. Revistas sobre famosos, sites de notícias e programas de TV e de rádio especializados em falar sobre os artistas já fazem parte da realidade comunicacional brasileira e conseguem cativar um público fiel. Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídias (2014), entre as seis revistas mais lidas e lembradas pelo público, três são desse universo da fama: Caras, Contigo! e Tititi, o que comprova o gosto pela temática.

O imaginário nacional, notadamente influenciado pela televisão, justifica um pouco do impacto da mídia sobre TV. Como destaca Arbex (2001):

“A identidade do telespectador com as personagens da telenovela ocorre por um processo de “enquadramento” da vida num certo enredo permitido e tolerado. O processo de identificação permite viver certas emoções sem correr riscos, no isolamento de sua casa e cercado de todas as garantias (nada mais conhecido do que o enredo de uma telenovela)” (ARBEX, 2001, p. 47).

Não apenas com as telenovelas acontece a empatia. Reality-shows, celebridades em ascensão, eventos, calendário cultural, novidades, enfim, são inúmeros os assuntos que levam o público a uma publicação especializada. No contexto contemporâneo, há um movimento intenso, iniciado de forma mais enfática, desde a última década, com o boom dos sites e blogs. Na página da UOL, Flávio Ricco é o jornalista que ocupa um dos principais espaços na divulgação de notícias sobre o entretenimento. Ao lado de Maurício Stycer e Nilson Xavier, Ricco tem uma coluna consagrada e respeitada, haja vista a credibilidade nas notícias e o cuidado com a apuração dos fatos e a escolha das fontes. Enquanto Stycer e Xavier concentram-se nos textos analíticos e argumentativos, Ricco, embora “flerte” com a crítica, prioriza o factual, em uma busca constante de renovação diária.

Diante do espaço preenchido pelo jornalismo especializado em televisão, este artigo problematiza o fazer jornalístico dos profissionais focados no mundo das celebridades. Tendo em vista que a ênfase desse trabalho é o entretenimento, questionam-se os limites entre o jornalismo e o entretenimento no blog do Flávio Ricco. Para isso, parte-se de uma compreensão e análise crítica dos conceitos em questão, seguidos da noção de jornalismo cultural e jornalismo digital. Em seguida, as teorias do jornalismo são acionadas com vistas a encontrar a definição ideal para o trabalho realizado na coluna, em análise.

Jornalismo e entretenimento na comunicação

O que nos faz distinguir a realidade da ficção? Diante da informalidade e da dramaticidade cada vez mais impostas no trabalho jornalístico, fica difícil, por vezes, entender o porquê de alguns assuntos ficarem no meio-termo entre o entretenimento e o jornalismo. Como debate Amaral (2008), o jornalismo tem a função de informar, ao passo que o entretenimento tem a função de divertir. Didaticamente, os limites parecem bem rígidos, mas na prática os assuntos se fundem e inviabilizam uma distinção tão estanque. Amaral ainda destaca que as notícias que não têm como objetivo ampliar o conhecimento são enquadradas na categoria de jornalismo.

“Ao mesmo tempo em que uma notícia sobre uma novela ou sobre um programa como o Big Brother poderia abrigar uma série de informações jornalísticas sobre o funcionamento da televisão no Brasil, a teledramaturgia ou os hábitos da juventude, uma notícia sobre uma disputa no Congresso Nacional pode apenas ficar no plano da diversão. Assim, o jornalismo borra suas fronteiras com o entretenimento não somente quando prioriza temas irrelevantes ou fúteis, mas, sobretudo, na maneira como trata suas pautas. A notícia se rende ao entretenimento quando é construída a imagem de um leitor desinteressado dos temas públicos ou supostamente destituído da capacidade para compreender o contexto em que vive” (AMARAL, 2008, p.64).

Os limites entre o jornalismo e o entretenimento são colocados de modo curioso: assim como as notícias de temas aparentemente fúteis podem se tornar alvo da narrativa jornalística, o jornalismo “sério” acaba se tornando mais “divertido” a depender da construção textual. Quanto um fato é dramatizado, quando escolhe-se um “personagem” capaz de comover o público, bem como nos momentos em que a sensibilização e a diversão se sobrepõem aos fatos, as matérias factuais também mostram-se com o objetivo de entreter. Na TV, por exemplo, é difícil levar muito a sério as notícias que são intercaladas por comerciais que provocam o imaginário e “passeiam” pelo lúdico. O que se complica, diante desse cenário, é a qualidade da informação e o nível de formação de opinião. O público acaba sendo o principal prejudicado quando a notícia prioriza elementos não jornalísticos e “cria” uma narrativa mais próxima do ficcional. Quando há um propósito para tal feito, as ações se justificam, mas criar tramas apenas para mudar o tom do fato não parece ser uma ação muito profissional. As “piadinhas” tem hora e lugar e nem sempre se aplicam a qualquer contexto. É ainda com Arbex (2001), interpretando Baudrillard, que encontramos uma problematização das fronteiras entre o real e o ficcional:

“Jean Baudrillard dirá que o desaparecimento das fronteiras entre ficção e realidade atribui à mídia não apenas a capacidade de criar fatos, como também a de criar a ‘opinião pública’ sobre os fatos que ela mesma gerou. Para ele, a capacidade de ‘colonização do imaginário’ pela mídia transformou a própria opinião em mero simulacro” (ARBEX, 2001, p. 54).

A construção dessa opinião pública é fundamental para o sucesso dos sites, periódicos e programas sobre o entretenimento. A opinião do público é influenciada pelo modo como a notícia é dada e pelas escolhas feitas pelos emissores da informação. A ação de gatekeeper, aquele que decide quais fatos serão veiculados, se transforma em um elemento crucial para a validação de fatos que, inicialmente, soariam triviais ou até mesmo supérfluos.

A construção social afiançada pela mídia é vista em situações como a popularização de um dado artista e a divulgação incessante de um astro da música ou da novela. O excesso de exposição é tão forte que uma personalidade sai do anonimato rumo à fama em uma velocidade impressionante, justificada pela criação de qualidades e exibições constantes. O público pensa que escolhe, mas na verdade, absorve uma quantidade incrível de informação desnecessária e manipulada pelos interessados em propagar comportamento e estimular o consumo de algum “objeto” artístico. Sobre essa “encenação midiática”, Felipe Pena disserta:

“Revistas de fofocas, periódicos sobre famosos e programas de TV como Vídeo Show e TV Fama vivem da encenação e repercutem infinitamente em novas encenações. A mídia produz celebridades para poder realimentar-se delas a cada instante em um movimento cíclico e ininterrupto. Até os telejornais são pautados pelo biográfico e acabam competindo com os filmes, novelas e outras formas de entretenimento. É uma Disneylândia de notícias, como se os redatores fossem Mickey Mouse e Pateta” (PENA, 2013, p. 88, grifo do autor).

As celebridades são, desse modo, o foco de interesse do espectador/consumidor contemporâneo, as “habitantes preferenciais do espetacular entretenimento do jornalismo”. (PENA, 2013, p. 90). É incrível o fascínio que elas exercem, mesmo entre aqueles que dizem não gostar desse universo. Os comentários que os internautas postam, nos sites especializados, mostram o quanto os fatos sobre a vida dos famosos mexem com o imaginário dos leitores. Há sempre os que elogiam e os que fazem severas críticas.

Diante da repercussão causada por esse tipo de informação, pode-se questionar a razão de alguns jornalistas escolherem determinados temas. Como os programas de entretenimento, as notícias sobre TV também precisam ser atraentes e devem ser compatíveis com o que o público gosta de ver, ouvir e ler. “O fato é que os jornalistas se valem de uma cultura própria para decidir o que é e o que não é notícia”. (PENA, 2013, p. 71). A decisão de publicar também está ligada à veracidade da informação e à credibilidade das fontes, que no caso do jornalismo sobre TV, deve ser de extrema confiança. O risco de publicar uma notícia falsa implica em muitos problemas, inclusive nos processos que muitos blogueiros e revistas acumulam por conta de informações erradas ou mal explicadas.

“A lógica por trás da colocação da rede noticiosa pressupõe uma compreensão 1) da seriedade que existe na relação entre jornalistas e fontes, 2) do investimento que é feito no cultivo das fontes, e 3) e dos critérios de avaliação que os membros da tribo jornalística utilizam na sua interação com os diversos agentes sociais” (TRAQUINA, 2005, p. 190).

A garantia de uma rede noticiosa eficaz está, assim, atrelada à relação entre produtor, fonte e jornalista. Quem seriam as fontes, nesse caso? Apenas as assessorias de imprensa dos artistas e das emissoras de TV? Os internautas?

“Para avaliar a fiabilidade da informação, os jornalistas utilizam diversos critérios na avaliação das fontes, nomeadamente 1) a autoridade; 2) a produtividade; e 3) a credibilidade […].A maioria das pessoas acredita na autoridade da posição. Quanto mais prestigioso for o título ou posição do indivíduo, maior será a confiança das pessoas na autoridade. Chama-me a isso de hierarquia da credibilidade” (TRAQUINA, 2005, p. 191).

Ante a dificuldade de classificar o que é jornalismo e o que é entretenimento, a credibilidade da notícia muito contribui. A depender do seu status, ela pode ascender ao critério de jornalismo cultural, assunto do próximo tópico.

Jornalismo cultural e jornalismo digital

O jornalismo cultural tem o seu início datado do século 18, com o trabalho na imprensa escrita dos ingleses Richard Steele (1672-1729) e Joseph Addison (1672-1719). Ainda na Inglaterra, Dr. Johnson (1709-1784) foi outro nome de destaque. Na França, Denis Diderot (1713-1784) também foi um grande crítico de arte. Nos EUA, destacaram-se, no século 19, Edgar Allan Poe (1809-1849) e Henry James (1843-1916). No Brasil do século 19 reinam as críticas de Machado de Assis (1839-1908) e José Veríssimo (1857-1916).

Já no século 20, as revistas e jornais ganham fôlego na crítica sobre cultura. O nome da Revista Cruzeiro é sempre um ícone a ser lembrado. Na década de 1940, Álvaro Lins (1912-1970) e Otto Maria Carpeaux (1900-1978) aliam, em seus textos, crítica, jornalismo, enciclopedismo e ensaios de caráter político. Algum tempo depois, a partir da década de 1960, Paulo Francis (1930-1997) passa a ser um grande nome da crítica cultural, circulando por diversos veículos.

Na década de 1980, consolidam-se os suplementos de cultura mais emblemáticos daquele e do decênio seguinte: o Caderno 2,do Estado de S.Paulo e o Ilustrada, da Folha de S.Paulo. Sobre a repercussão desses dois cadernos temáticos, Piza (2004) comenta:

“Enquanto a Ilustrada dava mais atenção ao cinema americano e à música pop, o Caderno 2 fazia uma dosagem maior com literatura, arte e teatro. […] Outra característica dos anos 90 é a presença cada vez maior de assuntos que não fazem parte das chamadas ‘sete artes’ (literatura, teatro, pintura, escultura, música, arquitetura e cinema) como moda, gastronomia e design” (PIZA, 2004, p. 41).

Hoje, a imprensa ainda conta com espaço para o jornalismo cultural, embora não repercuta mais como antes. O jornal O Globo conta com a coluna diária de Patrícia Kogut, que tem uma versão on-line, com conteúdo amplo e atualizado diariamente. Sites como TV Foco e O Planeta TV também atuam na esfera das “fofocas” sobre TV e atraem número significativo de leitores. Em certos casos, também, outro movimento acontece: a crítica cultural se confunde com o cronograma de eventos e muitas vezes não acompanhamos a trajetória das obras e sua repercussão e importância artística. Isso acontece com o lançamento de filmes, novelas e peças de teatro que ganham a visibilidade inicial típica das efemérides e depois acabam se perdendo no esquecimento típico.

Entre os temas comuns, estão: nascimento e morte, a mania das listas dos melhores e as grandes revelações. Importante que o jornalista acrescente a sua visão dos fatos e não apenas reproduza os releases distribuídos pelas assessorias. Sobre as dicas de como atuar com qualidade na arena cultural, Piza (2004) elenca: duvidar, fazer contrastes e apurar; fazer uma abertura atraente; manter o ritmo do texto; hierarquizar as informações; evitar clichés; preocupar-se com títulos, imagens, legendas; não abusar dos verbos dicendi; traduzir os jargões do setor; criatividade no texto e na edição; concluir de forma satisfatória.

Não parece algo tão simples, mas a prática na redação ajuda a internalizar o que deve e o que não deve ser feito. No caso das notícias culturais, ainda há a problemáticas da falta de prestígio, manifestada, em certos casos, por aqueles que se consideram jornalistas “mais sérios”: “[…] o chamado hard news, o noticiário quente, instantâneo, no calor dos fatos, é menor do que nos outros cadernos. […] olham mais para o que ainda vai ocorrer do que para o que está acontecendo ou já aconteceu” (PIZA, 2004, p. 80). Logo, com essa tendência ao não-factual e tentado pelas notícias de maior apelo social, poucas são as publicações que não se rendem aos prazeres e agruras das celebridades, por mais efêmeras e complicadas que elas sejam. “A exposição da intimidade é uma das principais estratégias de sobrevivência das celebridades. […] Mas por que existe expectador para esse tipo notícia?” […] (PENA, 2013, p. 30). É um tanto fácil entender o porquê. O público passa a se interessar pela vida privada do artista, tornando-a pública e se aproximando.

No caso do jornalismo digital, esse trabalho de busca e apuração da notícia é constante. Na internet, o jornalismo não para. O excesso de informação pode gerar desagradáveis “enxurradas” factuais que confundem o público, criando a falsa necessidade de sermos informados sobre o que os famosos comeram em um evento “badalado”, as férias dos artistas, as roupas que eles usam, entre outras futilidades camufladas de utilidade pública pela crítica dita “especializada”. Sobre essa relação entre lembrar e esquecer, Arbex (2001) coloca:

“[…] a produção de uma quantidade brutal e incessante de informação também produz a “amnésia permanente”. É claro: se o que interessa é a “novidade”, e essa á produzida industrialmente – a cada dia, hora, minuto – o telespectador/leitor é convidado a abandonar qualquer reflexão sobre determinado evento para sempre se “entregar” ao novo” (ARBEX, 2001, p. 89).

Se antes, as redações trabalhavam com vistas a fechar a edição até o fim do dia, hoje, os tempos mudaram de modo substancial, a ponto de o jornalista que trabalha na esfera digital não “respirar” nem um pouco. A “amnésia permanente” aludida por Arbex (2001) está exemplificada nas constantes atualizações dos blogs e sites, que a cada minuto/hora, postam novas informações que são impossíveis de serem absorvidas. Em tempos de ócio extrema externado nas redes sociais, os sites criam páginas nas redes vinculadas ao portal, o que permite o compartilhamento incessante de notas e informações sobre os mais variados temas. Nesse cenário, a “duração” da notícia e sua posterior repercussão tornam-se cada vez mais efêmeras. Se, hipoteticamente, pela manhã, um famoso é acusado de postar um vídeo íntimo na internet, todas as notícias vão se concentrar na comprovação ou não do fato. Assim, se até o fim da tarde já se souber que a personalidade em questão é mesmo quem aparece no vídeo, o “novo” fato já é saber as razões para a postagem de um vídeo particular. Caso as suposições não se comprovem, a história fica “antiga” e dura o tempo de um boato mal espalhado.

O diferencial do jornalismo digital também está nas oportunidades hipertextuais oferecidas:

“Um bloco de diferentes informações digitais interconectadas é um hipertexto, que, a ao utilizar nós ou elos associativos (os chamados links), consegue moldar a rede hipertextual, permitindo que o leitor decida e avance sua leitura de modo que quiser, sem ser obrigado a seguir uma ordem linear. Na Internet, não nos comportamos como se estivéssemos lendo um livro, com começo, meio e fim. Saltamos de um lugar para outro – seja na mesma página, em páginas diferentes, línguas distintas, países distintos etc.” (FERRARI, 2004, p. 42).

Romper com linearidade narrativa traz um absurdo diferencial: o leitor pode clicar em diferentes links e construir novas histórias, bem como consegue compreendê-las com mais propriedade, haja vista o número excessivo de relações que são estabelecidas por meio de um link. Se, por exemplo, a notícia destaca a escolha de determinada atriz para um personagem de telenovela, o texto pode trazer links que levem aos testes anteriores, às notícias que já saíram sobre o assunto e às informações sobre a trama. Logo, o leitor avança conforme seu próprio ritmo, recontando o fato por meio da sua ótica não-linear de construção da leitura.

Tal vantagem para a audiência representa um desafio para o jornalista, que deve ter total domínio de todas as etapas de produção. Do mesmo modo, o autor do texto precisa compreender as causas, consequências e desdobramentos de um fato. Cada nova atualização de um link corresponde a uma nova chance de tornar a notícias mais completa.

“O trabalho online é realmente excitante, pois exige que o jornalista pense na informação em toda a sua cadeia. Você redige o texto, acrescenta ao banco de dados geográfico o novo endereço da sala de cinema em questão, oferece um serviço de compra de tíquetes etc. Estamos falando em pensar a informação em toda a sua plenitude. É como se o repórter do caderno de Cultura de um jornal também fosse o repórter de trânsito e ao mesmo tempo o gerente publicitário […]” (FERRARI, 2004, p. 92).

Qual o lugar dos blogs sobre televisão nesse contexto? Jornalismo cultural? Entretenimento disfarçado de notícia? Excesso de notícias desnecessárias no mundo multifacetado da internet? Em que dimensão as notícias sobre celebridades podem ser classificadas? Analisemos essas questões, a partir do blog de Flávio Ricco (UOL).

O entretenimento jornalístico da coluna de Flávio Ricco

No portal da UOL, a coluna de Flávio Ricco pertence à seção de entretenimento, nomeada de “Entretê”. Em um acesso realizado no dia 5 de novembro de 2014, no mesmo “cardápio”, encontram-se outros temas: novelas, reality shows, celebridades, cinema e filmes, comidas e bebidas, crianças, F5 Entretenimento (coluna de variedades do jornal Folha de S.Paulo), Guia UOL, livros e HQs, música, Rádio UOL, revistas, sexo, sexo gay, televisão e novelas e viagem. Enfim na concepção do portal, muitos são os temas voltados para entreter, e não é a intenção desse artigo questionar o caráter de entretenimento desses assuntos. No entanto, se a televisão, em si, é notadamente destinada ao lazer, o que dizer do jornalismo que é feito sobre o veículo de comunicação de maior alcance nacional?

Há uma vocação natural da TV para o entretenimento, fato que tem distanciado alguns nomes do jornalismo brasileiro dos trabalhos tradicionais. Zeca Camargo, consolidado durante as décadas em que esteve no Fantástico, a revista eletrônica dominical da Globo, sempre esteve no limiar entre o jornalismo e o entretenimento. Pedro Bial, por sua vez, em 2002, lançou-se à ousada aventura de se distanciar do tipo de jornalismo que fazia e partiu para a apresentação do reality show mais famoso do país: o Big Brother Brasil, que completou quatorze edições em 2014. Apresentar realities também virou algo “rotineiro”, como é o caso de Tiago Leifert, no The Voice Brasil (Globo), Brito Jr., em A Fazenda (Record) e Ana Paula Padrão no Master Chef (Band). Isso sem falar no mais clássico caso de migração para o entretenimento: a saída de Fátima Bernardes da bancada do Jornal Nacional, em 2011, para lançar-se como apresentadora do Encontro, nas manhãs da Globo, desde 2012. Com essa transformação na carreira, estariam os jornalistas “deixando de lado” sua vocação e seguido um novo rumo? O que se vê é que, apesar das novas exigências, eles não deixariam o perfil jornalístico de lado. No entanto, o que dizer de quem escreve sobre eles?

“A mídia (a imprensa como parte dela) assumiu a privilegiada condição de palco contemporâneo do debate público. E a palavra palco não foi escolhida aleatoriamente. Na contemporaneidade, as representações substituem a própria realidade. Um assunto exposto na era pública não é necessariamente de interesse público. Ele pode ser forjado nos esquemas de marketing que visam moldar o gosto do público e agendar seus debates. É o caso, por exemplo, das celebridades instantâneas” (PENA, 2013, p. 29).

Flávio Ricco é um dos grandes frequentadores desse palco de interesses públicos que é a vida das celebridades. Escrevendo sobre TV desde 2003, Ricco já passou por vários canais, entre eles, Globo, SBT e Tupi. Atualizada diariamente por volta da meia-noite, a página sempre traz novidades sobre televisão e, por vezes, lança atualizações ao longo do dia. Os comentários que serão feitos a partir de agora tomam como exemplo a edição do dia 3 de novembro de 2014, escolhida por ser a data posterior à estreia de uma novela da Rede Globo, a trama Alto Astral, exibida às 19h e de autoria de Daniel Ortiz.

Com a colaboração de José Carlos Nery, a coluna do dia começa com uma nota comentada. O jornalista critica a ação do Canal Fox Life em relação à produção de programas fora do país:

“O Fox Life, agora sob a direção do Zico Góes, está preparando a versão da série Lucky Ladies. A ideia era, no começo, fazer tudo com o pessoal daqui, mas como o levantamento feito na Argentina apontou um custo menor, vão gravar com gente de lá. Sentiu?” (RICCO, 2014).

O tom da nota é crítico e a linguagem busca se aproximar ao máximo do leitor, a ponto de garantir se a mensagem foi bem captada, com o questionamento “Sentiu?”. À princípio, a primeira postagem do blog, na referida data, está mais próxima do comentário. Em seguida, Ricco cita uma opinião dada, em 2012, pelo cineasta Fernando Meirelles, acerca do boom de produção brasileira favorecido pela lei de incentivo à produção da TV paga. A referência a Meirelles é uma forma de endossar sua crítica em relação ao mercado atual de produção das televisões por assinatura. Citar um ícone do cinema nacional confere ares de maior credibilidade ao fato. Esse recurso é o mesmo usado quando se busca referendar uma fonte importante. Como destaca Pena (2013):

“No ciberespaço, a relação com as fontes complica-se muito, pois elas também podem ser produtoras diretas de conteúdo, sendo, portanto, informantes com potencial incalculavelmente multiplicado. Basta que tenham um simples blog na internet. Muitas vezes, os titulares desses blogs também são os jornalistas, o que ainda é mais complicado” (PENA, 2013, p. 62).

Nesse caso, a fonte e o jornalista são a mesma pessoa, haja vista que embora esteja citando um fato comprovado, o cerne da nota é a crítica, baseada nas concepções do blogueiro. Em seguida, há uma nota sobre o futuro do programa CQC, da Rede Bandeirantes. O texto não cita as fontes, mas como sugere que a situação de crise vivida pelo programa já é conhecida, pressupõe que o texto foi feito pensando no leitor assíduo da coluna. Logo após, outra nota sobre a Bandeirantes mantém a coerência temática da coluna. Dessa vez, cogita-se uma participação de Ana Paula Padrão no programa A Liga, em 2015. A seguir, salta-se para mais uma crítica, agora direcionada à Rede TV!: “Por mais que se busquem explicações, é complicado chegar a alguma conclusão sobre a existência de determinados programas. Este, da Rede TV!, é só um entre tantos casos” (RICCO, 2014), cita Ricco sobre o programa Encrenca, responsável por fazer brincadeiras de caráter duvidoso na edição do domingo, 2 de novembro, com celebridades já falecidas, como Hebe Camargo e Ayrton Senna.

A coluna do dia segue com duas notas sobre o possível fim do reality A Fazenda, em 2015, mas mais uma vez não se cita a fonte. Logo após essa nota, acontece algo rotineiro no blog: a publicação de uma foto, com legenda, de um fato desconexo com os temas posterior e anterior. Nesse caso, é um registro de Luciana Gimenez entrevistando o irmão, Marco Antônio. Logo após, volta-se a falar sobre a Record, agora em caráter de notícia: a possível estreia de um reality com César Filho e Elaine Mickely. Seguem-se, depois, outras notas comentadas: uma sobre o ator Alexandre Nero e outra sobre a falta de água e energia na sede da Rede TV!, em Osasco (SP). A nota seguinte é curiosa: é o direito de resposta da Band em relação a uma crítica feita pelo colunista na edição de sábado, dia 1º de novembro, sobre o programa Jogo Aberto.

“A Band rebateu a opinião deste colunista através de e-mail, dizendo que Jogo Aberto é um espaço ‘dedicado à celebração do futebol’ e que o programa ‘foca em conteúdo de qualidade, apresentando incontestável sucesso com o público e com os anunciantes’.

A palavra é livre e cada um que responda por ela, mas as críticas ao programa continuam sendo legítimas” (RICCO, 2014).

Apesar de dar o direito de a crítica ser rebatida, Ricco mantém sua posição inalterada. Pena (2013) critica um pouco a ação dos jornalistas de blog que não apuram os fatos.

“Portais, websites e blogs descentralizam a informação. Estes últimos, pela facilidade de acesso, vêm formando o que os medalhões do jornalismo americano chamam de pejorativamente de jornalistas de pijama. A alegação é que a grande quantidade de blogs inviabiliza a verificação de suas informações, o que os torna pouco confiáveis” (PENA, 2013, p. 177).

No caso da coluna do Flávio Ricco, não se trata de uma falta de apuração, mas de uma excessiva centralização dos comentários, que partem de suas observações pessoais, o que os aproximam da crítica e os distancia do jornalismo puramente factual. Como definir, então, o que é notícia? É o próprio Pena (2013, p. 72) quem vai situar quais são os valores-notícia. Eles se dividem em categorias substantivas (ligadas à importância dos envolvidos, aos interesses nacional e humano e aos feitos excepcionais); categorias relativas ao produto (brevidade, atualidade, novidade, organização da empresa, qualidade e equilíbrio); categorias relativas ao meio de informação (acessibilidade à fonte, manuais, política editorial); categorias relativas ao público (identificação dos personagens, interesse público e protetividade) e categorias relativas à concorrência (furo, expectativa, modelos referenciais).

As duas últimas categorias parecem ser as mais evidentes nos textos de Flávio Ricco, que prioriza as expectativas do público e a identificação com os personagens, nesse caso, as personalidades nas quais as notas se baseiam. A aproximação com os valores-notícias acontece mais na última parte: o bate-rebate, no formato típico jornalístico, que são os drops. Neles, várias notas curtas são veiculadas. Por fim, na seção C’est fini Ricco sempre conclui com mais um fato. Na edição em análise, está a notícia de que a Globo fará um especial com Chacrinha dentro da programação comemorativa dos 50 anos da emissora. A coluna sempre é fechada com “Então é isso. Mas amanhã tem mais. Tchau!”, o que reitera a tentativa exercida pelo jornalista de aproximação com a oralidade e a informalidade.

Curioso é o fato de a coluna não citar nada sobre a estreia da novela Alto Astral, mesmo tendo sido publicada à meia-noite posterior a estreia. Tal fato leva a crer que é bem incomum uma atualização noturna do blog. Mesmo sendo postadas no inicio do dia seguinte, ao que parece, só em casos extremos inserem-se informações mais instantâneas. Mas entende-se, também, que por já ser publicada no dia posterior à estreia, era interessante já conter uma nota mínima comentada. Afinal, o típico poder de a mídia “direcionar” os assuntos de interesse também se comprova no jornalismo sobre TV: “A influência da mídia nas conversas dos cidadãos advém da dinâmica organizacional das empresas de comunicação, com sua cultura própria e critérios de noticiabilidade” […]. (PENA, 2013, p. 144). Logo, faltou o cuidado com a atualização mais imediata que o jornalismo digital exige. Embora tenha focado nas críticas, um blog de abrangência como esse já deveria inserir essas informações nas edições do dia seguinte.

O colunista Flávio Ricco não atendeu ao pedido do autor desse artigo, no sentido de conceder uma entrevista breve sobre o blog, especialmente sobre se sua estrutura recai mais para o jornalismo ou o entretenimento. Com base nas teorias aqui vistas e na análise do blog, pode-se concluir que os textos de Flávio Ricco estão mais para a crítica típica do jornalismo cultural, distanciando-se do mero entretenimento. Uma vez que as postagens concentram-se na análise factual e comentada, com expressão do juízo de valor comum ao crítico, podemos dizer que o blog em estudo encaixa-se na dimensão do jornalismo cultural.

Considerações finais

Os limites entre o jornalismo e o entretenimento parecem simples de serem definidos, por conta dos objetivos distintos de informar e divertir. Quando essa distinção entra no terreno das notícias sobre TV, as diferenças tornam-se mais delicadas, tendo em vista a dimensão que os fatos assumem nesse universo. Tal problemática se intensifica ainda mais na esfera digital.

Por conta da forte influência que exercem no imaginário nacional, as celebridades acabam por moldar comportamentos e pautar os noticiários sobre o mundo da fama. No caso de Flávio Ricco, além de noticiar os fatos, o colunista expressa seu ponto de vista diante do que fala, aproximando-se mais do jornalismo cultural opinativo e distanciamento da modalidade meramente factual.

Chamar de jornalismo cultural o que geralmente é visto como “fofoca” é arriscado, ainda mais na pesquisa de caráter acadêmico. Todavia, não há como desconsiderar o valor cultural de um meio de comunicação tão influente na sociedade brasileira. Ao incentivar comportamentos, os famosos interferem até mesmo na construção das ideias do público. Logo, um jornalismo de caráter crítico pode contribuir para a reflexão mais aprofundada sobre a TV e o entendimento do real papel que ela exerce na vida de quem a assiste.

Referências bibliográficas

AMARAL, Márcia Franz. “Os (des)caminhos da notícia rumo ao entretenimento”. In: Estudos em Jornalismo e Mídia. Ano V. Nº 1 – 1º semestre de 2008, p. 63-73. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-6924.2008v5n1p63. Acesso em 18 out. 2014.

ARBEX, Júnior José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Comunicação Social. Pesquisa brasileira de mídias 2014: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília: Secom, 2014.

FERRARI, Pollyana. Jornalismo digital. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2004.

PENA, Felipe. Teorias do Jornalismo. 3ª edição. São Paulo: Contexto, 2013.

PIZA, Daniel. Jornalismo cultural. São Paulo; Contexto, 2004.

RICCO, Flávio. “Fox faz na Argentina o que anuncia fazer no Brasil”. Coluna do dia 4 de novembro de 2014. Disponível em: http://televisao.uol.com.br/colunas/flavio-ricco/2014/11/04/fox-faz-na-argentina-o-que-anuncia-produzir-no-brasil.htm. Acesso em 4 de novembro de 2014.

TRAQUINA, Nelson. Teorias do Jornalismo, porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2ª ed., 2005.

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Tcharly Magalhães Briglia é estudante de Rádio e TV (UESC-BA) e professor de Português e de Inglês

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