Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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TV EM QUESTãO > TELESUR

A burrice da inteligência de Uribe

Por Mário Augusto Jakobskind em 25/07/2005 na edição 339

A Telesur já é uma realidade, para desespero do esquema do pensamento único. É que, a partir de agora, a América Latina terá acesso a um noticiário que não passa pelo crivo do Departamento de Estado, da CIA ou de uma mídia comprometida com o poder econômico que manipula e apresenta meias verdades que desinformam.

Muito se vai inventar em relação à Telesur, aliás, o tempo correto é o passado, pois absurdos já foram cometidos, como o ocorrido em uma edição do jornal El Tiempo, da Colômbia. Um articulista ignorante recebeu um ‘informe’ (entre aspas, entre aspas) com base em relatório do serviço de (des)inteligência do presidente Álvaro Uribe, que dizia o seguinte, pasmem: ‘A emissora (Telesur) transmite mensagens que estimulam o terrorismo, com a divulgação de uma música invocando o grupo terrorista ETA’.

Para se ter uma idéia do absurdo, o ‘informe’ se baseou na trilha sonora do filme Tieta do Agreste, de Cacá Digues, em que Gal Costa canta ‘Eta, eta, eta/ E a lua, e o sol, é a luz de Tieta/eta, eta, eta’, de autoria de Caetano Veloso. Nem precisaria explicar que a canção se refere a Tieta, personagem de uma novela do conhecido escritor Jorge Amado e que o filme é de 1996.

Articulistas-celulares

O episódio em questão mostra o ridículo do jornal El Tiempo, uma publicação de direita que tem representação na Sociedade Interamericana de Imprensa, a famigerada SIP, que volta e meia se reúne para falar mal do regime venezuelano e defender o que há de mais retrógrado na imprensa daquele país sul-americano.

Este lamentável episódio remete a um período obscuro da história brasileira nos anos 70, quando, no Rio de Janeiro, agentes do então Departamento de Ordem Política e Social (Dops) fizeram uma diligência em um teatro da cidade para procurar um cidadão de nome Bertold(o) Brecht, que era acusado de exercer ‘atividades subversivas’. No anedotário latino-americano, conta-se que um militar tinha ordenado a seus comandados que se empenhassem na queima dos livros de Chapeuzinho Vermelho, pois não se podia admitir que ‘vermelhos’ contaminassem a infância.

O artigo de El Tiempo ‘denunciando’ a Telesur mostra como certos articulistas amestrados, também conhecidos como celulares, por serem pré-pagos, são ignorantes e como ainda se faz mau jornalismo. Se a inteligência colombiana é capaz de elaborar um documento da natureza do informe sobre a Telesur, pode-se imaginar a quantas anda esse serviço do governo de Álvaro Uribe, o maior aliado do Departamento de Estado norte-americano.

Só pensam naquilo

O episódio fez com que o ministro da Informação da Venezuela, Andrés Izarra, assinalasse a necessidade de a Telesur apresentar ao continente expressões culturais latino-americanas. Tem toda a razão o ministro, pois quanto mais os povos da América Latina se conhecerem, menores serão as possibilidades de proliferarem baboseiras como as de El Tiempo.

Para Aram Aharonian, diretor-geral da Telesur, a agressão do jornal se deve basicamente ao fato de que a Telesur desafía o pensamento hegemônico dominante com o seu lema ‘Nosso Norte é o Sul’.

Por estas e muitas outras, a Telesur vai se tornar um instrumento de comunicação da mais alta importância para a democratização da informação do continente latino-americano, dominado até agora por multinacionais da comunicação e por empresários que só pensam naquilo, ou seja, o lucro fácil.

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