Sábado, 14 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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ENTRE ASPAS >

A crise do telejornalismo americano

Por Cleyton Carlos Torres em 15/06/2010 na edição 594

O jornalismo mundial vem sofrendo drasticamente com os impactos causados pela revolução digital e suas redes e mídias sociais. Hoje, qualquer cidadão consegue se informar em praticamente todos os lugares e instantaneamente. Hoje, qualquer pessoa é capaz de abrir seu próprio ‘meio de comunicação’ e começar a disparar palpites furados, preconceituosos e parciais. Isso vem interferindo – e muito – no jornalismo impresso, por exemplo.

Mas é só a web 2.0 que está destruindo o tradicional meio de se fazer comunicação jornalística? É somente a internet a grande responsável pela migração em massa de consumidores noticiosos de meios habituais para veículos ‘alternativos’? Pode até ser, mas não para as emissoras dos Estados Unidos. Pelo menos não somente.

A maior rede de TV norte-americana e uma das mais influente do planeta, a CNN, está sob forte e intensa crise, digamos, até mesmo existencial. O canal, que era reconhecido pelo seu jornalismo limpo, direto e imparcial, desabou para o quarto lugar entre os canais noticiosos dos EUA. Outro exemplo da migração de telespectadores ocorre também com a MSNBC, que abocanhou centenas de pontos em audiência quando Barack Obama estava em fase de campanha. Depois de eleito, a emissora desabou.

O que acontece, então? Segundo Sumner Redstone, dono da CBS, a imprensa tem menos de dez anos de existência. Porém, nesse intervalo, é possível perceber que o que tem gerado a crise nas redes americanas não é somente o fator web, mas sim, a mudança de cultura e hábitos do povo norte-americano. O país, que antes era homogêneo, se encontra, depois da era Bush, bipolarizado politicamente. Algo parecido com o que Lula faz no Brasil. Todos aqueles que assistiam à CNN antes da vitória de Obama – e eram democratas e não simpatizantes do atual governante – continuam dando audiência para a emissora. No entanto, todos aqueles que, depois da era Bush, não são democratas, migraram para redes como a Fox News e seus palpiteiros desenfreados. A matemática da audiência é simples. Esses telespectadores não foram abduzidos ou abandonaram as grandes emissoras americanas pela internet. De fato, grande parte da audiência está na web e em seus portais e blogs, mas o que realmente impactou tais canais foi um único e exclusivo fator: o controle remoto.

CNN perde reinado nos EUA

Com os avanços tecnológicos, se você não tem a informação que deseja, é só ir atrás ou, na pior das hipóteses, construir a sua própria versão da notícia.

Foi exatamente isso que ocorreu com a CNN e com a MSNBC. Muitos telespectadores passaram a se considerar não democratas, o que resultou em uma busca frenética por quem também se dizia não democrata. Onde foi o lugar comum de encontro? Isso mesmo: a Fox News. Com um jornalismo árduo, pesado e uma crítica além do esperado (o que para muitos é o bastante para nem ser considerado jornalismo), a Fox News vem conquistando a cada dia os órfãos de todas as outras redes americanas tradicionais. Ela criou uma maneira de passar a noticia onde o que menos importa é a veracidade e a checagem dos fatos. O que vale é a maneira estapafúrdia com que essa informação é repassada ao público.

Agressividade, maquetes destruídas ou apresentadores eufóricos. Vale tudo para roubar os telespectadores insatisfeitos e não democratas que assistiam aos outros canais. Enquanto o jornalismo em si perde com tais acontecimentos folclóricos, a diversificação de fontes de informações agradece o fato de existirem mais pontos fluentes de opinião.

Ademais, vale lembrar que a CNN tem perdido seu reinado somente nos EUA. Em quase todos os outros países onde ela mantém uma produção considerável, a emissora norte-americana ainda continua poderosa.

Perda massiva da qualidade

O que se pode, então, tirar como análise, é que a web interfere, sim, na produção jornalística mundial e na construção de laços mais duradouros entre telespectadores e emissoras, principalmente as americanas. Portanto, nesse último caso, culpem quem quiser, menos os jornalistas e a internet. Comecem, por exemplo, apontando o dedo na cada dos consumidores de notícias americanos que estão mudando seus hábitos (para pior?).

A CNN ainda é fortíssima na web, mas vem perdendo audiência na TV por não fazer um jornalismo partidário, como a Fox News faz. Donde se pode concluir que, pela primeira vez, a crise do jornalismo não é diretamente relacionada ao jornalismo, mas sim, aos seus próprios consumidores. Na próxima vez que disseram que o jornalismo está acabando devido a diversos fatores, relembre o caso CNN e Fox News: sim, o jornalismo pode até estar acabando, mas os próprios assinantes e telespectadores contribuíram para a perda massiva da qualidade até se chegar a um ‘jornalismo teatral’ e amador: o da Fox News.

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Jornalista, blogueiro, pós-graduado em Assessoria de Imprensa, Gestão da Comunicação e Marketing e pós-graduando em Política e Sociedade no Brasil Contemporâneo, São Paulo, SP

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