Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > CINQUENTINHA

A farsa engraçadinha

Por Robson Terra em 15/12/2009 na edição 568

O primeiro presente aberto do pacote de final de ano da Rede Globo chegou com a minissérie Cinquentinha, de Aguinaldo Silva, que estreou com 24 pontos de média, tem a direção de Wolf Maia e as estrelas (em ordem alfabética para não despertar egos) Betty Lago, Maria Padilha, Marília Gabriela e Susana Vieira. Mas quem está roubando a cena é Angela Vieira interpretando uma jornalista que saiu do armário. Metafórico.

A sinopse conta que um milionário morre e divide sua herança para três ex-esposas e uma quarta, com outro filho, que nenhuma das primeiras sabe que existe. Batata!

As primeiras emoções do presente, pouco adequado ao espírito natalino que envolve os consumidores no Natal brasileiro, revelam a interface com a obra de Nelson Rodrigues, com direito a citação da personagem Mariana (Marília Gabriela) de que ‘as mulheres deveriam amar só homens de 17 anos’. É visível o clima nelsonrodriguiano, ‘aquele que incomoda’, na narrativa do programa que tem o ritmo do gênero teatral vaudeville, com entra e sai de quartos e salas, flagrantes de atos obscenos(?), mas é uma farsa deslavada como diria o dramaturgo José Luiz Ribeiro. A farsa é sempre deliciosa aos olhos do espectador que completa a ação ao desnudar o simulacro da realidade. Aliás, como estão desnudadas as atrizes na trama…

A farsa, que se apresenta com alguns tons acima da comédia, é o gênero, que se distingue da sátira por não estar preocupado com uma mensagem moral, busca apenas o humor e, para isso, vale-se de todos os recursos; assuntos introduzidos rapidamente, evitando-se qualquer interrupção no fio da ação ou análises psicológicas mais profundas; ações exageradas e situações inverossímeis. Recorre a estereótipos (a alcoviteira, o amante, o pai feroz, a donzela ingênua, a madura insaciável) ou situações conhecidas (o amante no armário, gêmeos trocados, filhos bastardos e reconhecimentos inesperados). E com muito exagero de interpretação, quase uma caricatura em ritmo frenético, edição sincopada, que justifica as cenas surreais protagonizadas pela personagem Lara Romero, a atriz famosa demitida e decadente com seus arroubos e figurinos alegóricos.

As quatro atrizes prometem momentos hilários e o telespectador pode se deliciar com a caricatura que elas fazem de si mesmas e o divertissement que a minissérie promete.

Almodóvar vai adorar…

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Jornalista e mestre em comunicação e tecnologia, Juiz de Fora (MG)

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/12/2009 Nídia Martins

    Parabéns pelo texto adorável e explicativo. Muito bem observado tratar-se de uma farsa, com ‘ações exageradas’. A cena de todos à volta da mesa enquanto o testamenteiro, de pé, pensa alto suas indagações olhando para o infinito, enquanto um personagem secundário começa a vomitar ao fundo, desconectado da ação do protagonista, está entre Fellini e Almodóvar, com uma pitada trash. Ficou tudo muito bom.

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