Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > MÍDIA E CULTURA

A leitura crítica do audiovisual

Por Ivo Lucchesi em 03/04/2006 na edição 375

Entre muitos ditos populares, um, em especial, nos interessa: ‘Uma imagem vale mais que mil palavras’. Não é sempre que a chamada ‘sabedoria popular’ estará correta. Afinal, o saber (popular ou erudito) é marcado por incompletude, imperfeições, incertezas. Enfim, se há um campo que não está acima de qualquer suspeita, é o do saber. Em nada, por outro lado, essa condição o desmerece. Ao contrário, ter-se tal percepção é garantia de pesquisa permanente, aliada ao estado de continuada vigilância. É nesse sentido, portanto, que retomo a sentença popular, com o intuito de questionar a eficiência conceitual da qual a frase supostamente se faça portadora.

O poder suspeito da imagem

A predominância de uma certa retórica triunfalista a respeito da progressiva oferta de tecnologia multimídia parece criar uma espécie de rede de proteção contra qualquer outro discurso com viés crítico. A tendência dos veículos de informação, ante as novas ofertas, vai sempre na direção da exaltação dos benefícios, deixando à sombra a análise dos possíveis malefícios, o que finda por estimular o estado de ‘cegueira crítica’.

Sistematicamente, a tática da ‘segregação’ tem sido aplicada a tudo que diga respeito a um discurso questionador, no tocante ao campo da ‘imagem’. Mais que em outros países, no Brasil, a ocupação de espaços públicos para inserção de um discurso analítico e prospectivo atinge quase o grau zero, restringindo-se o debate à retraída e confinada esfera acadêmica. Conseqüentemente, fortalece-se, pelo menos no âmbito majoritário do chamado ‘senso comum’, a assertiva que torna a ‘imagem’ um poderoso instrumento contra a frágil e limitada ‘palavra’, situação decorrente do alto grau de desprestígio que, no modelo cultural em voga, se confere ao discurso verbal.

Em princípio, há de se registrar a riqueza de potencialidade estética e comunicacional, presente em todas as modalidades de linguagem que se expressam através da ‘imagem’. Não é essa, pois, a questão. O problema é de outra ordem, ou seja, saber se providências estão (ou não) sendo formuladas e aplicadas pelos órgãos encarregados de traçarem políticas para a cultura e educação, num país que segue literalmente a crença no fundamento contido na máxima popular. Avaliação inicial dá conta da total ausência dos setores governamentais, em todas as instâncias (municipal, estadual e federal), quanto a se ocuparem da questão.

A atual geração é, culturalmente, (de)formada à luz da imagem. Paradoxalmente, a mesma geração acusa estado de ‘analfabetismo’ ante os códigos audiovisuais que lhe são postos à disposição. É uma geração que lida espertamente com os aparelhos. Todavia é absolutamente desprovida de capacidade cognitiva quanto a saber ler o que vê e ouve.

O quadro é grave, em razão de também se somar ao ‘analfabetismo’ visual a insuficiência no código verbal. Devora-se mídia eletrônica em profusão, sem nenhum mínimo suporte reflexivo no que se refere à sintaxe sofisticada na qual se insere o código audiovisual. Desse preocupante descompasso, resulta o perfil de uma cultura da ‘excitação’, em franco prejuízo da ‘reflexão’.

Sintomas de entorpecimento do imaginário social são facilmente detectáveis por profissionais e teóricos que se ocupam tanto com o estudo das linguagens quanto com análise cognitivo-comportamental. As áreas de comunicação, semiologia / semiótica, psicologia social, além, no campo da medicina, dos estudos realizados em neurologia e psiquiatria, não deixam dúvidas em relação aos (d)efeitos causados pelo consumo de mídias eletrônicas, desacompanhado de programas voltados ao conhecimento, ainda que rudimentar, de como funcionam tais códigos.

Políticas educacionais investem altas verbas em aquisição de ‘ferramentas audiovisuais’ enquanto ignoram inclusão de disciplinas destinadas à compreensão do que elas significam, seja para a exploração de suas virtudes potenciarias, seja para alertar quanto às ameaças nelas contidas.

O modelo televisivo reinante no Brasil, a preferência por certo tipo de cinema e o frenético uso de computadores e celulares traduzem um quadro marcado pela oscilação pelo consumo de uma estética que se divide entre o ‘horror’ e o ‘devaneio’. Há um deslizamento subjetivo que tanto assimila produtos exploradores de catástrofes, violência, narrativas nutridas por ‘conspirações’ de toda ordem, a exemplo do modelo cinematográfico norte-americano (exceção feita à produção canadense), quanto absorve produtos geradores de encantamento. O resultado final é um emaranhado de estados subjetivos absolutamente paradoxais, conduzindo à neutralização e à vacuidade interior.

A falsa discussão

A questão mais em voga tem sido a validade desse ou daquele modelo de TV digital. Nos termos em que o problema vem sendo abordado, é fácil perceber-se que a motivação do debate é meramente de caráter econômico, empresarial. Que modelo é mais rentável para ‘A’ ou ‘B’. Temas como redefinição de ‘grades de programação’, função social da televisão, padrões qualitativos para conteúdos, entre outros, passam ao largo. Nessa área, ninguém põe o dedo.

Que direito tem, por exemplo, uma emissora de TV exibir seqüências chocantes de um documentário sobre violência urbana e, em seguida, impor ao telespectador a entusiástica comemoração pelo gol vitorioso? É uma sintaxe pervertida que, na diferença de minutos, expõe a subjetividade do receptor ao estado de angústia para, rapidamente, exibir a euforia. Quem programa sabe. Quem vê apenas sofre os efeitos. Assim, quem preparado não é para saber ler as imagens dominado por elas é.

Nessa modelagem cultural, o impacto das imagens produz diluição e indiferenciação de conteúdos e progressivo esquecimento, fazendo com que a linguagem audiovisual induza o receptor ao estado de economia reflexiva ao qual se segue a dispersão da energia comunicacional. Os agentes codificadores conhecem as malícias e estratégias subliminares. Os usuários, em sua maioria, sequer desconfiam da existência de tais manobras. Afinal de contas, é necessário relembrar que: 1) a linguagem nunca é inocente; 2) o conhecimento jamais é ingênuo; 3) o poder ignora a pureza.

Essa discussão, algum dia, chegará ao Brasil? Por outro lado, será que o que efetivamente importa é o fato de um astronauta brasileiro, formado na NASA, por falta de ciência e tecnologia próprias no país de origem, ter sido escalado para participar modestamente numa missão espacial? A julgar pelo tratamento eufórico que a Rede Globo emprestou ao acontecimento, estamos condenados ao conteúdo da segunda pergunta, em prejuízo do teor presente na primeira.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio de Janeiro)

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