Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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ENTRE ASPAS >

A manchete do dia

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 15/09/2009 na edição 555

Aos menos velhos que eu, pode ser que essa recordação tão sublime sequer faça parte de sua lista de coisas a sentir saudade. Parte de minha infância foi recheada por uma emissora hoje infelizmente extinta. Graças a essa emissora, passei vários recreios de minha segunda série brincando de Changeman e Flashman, seriados japoneses vinculados pela TV Manchete.

A rede, boicotada de várias maneiras à época, foi a responsável por vários mega ultra sucessos extra Vênus platinada. É meio chavão ou senso comum, mas para quem desconhece a informação pode ser válido para tentar romper com essa emblemática impressão de que a rede dos Marinho é a única com qualidade e invencível. Além de ter lançado várias estrelas hoje globais, como Murilo Rosa, Drica Moraes e Taís Araújo, essa justamente protagonista da próxima principal novela da poderosa, a emissora teve muito que mostrar em seu curto período de vida.

A TV Manchete, ou apenas Manchete, foi fundada na cidade do Rio de Janeiro em 5 de junho de 1983 pelo jornalista e empresário ucraniano naturalizado brasileiro Adolpho Bloch e permaneceu no ar até o dia 10 de maio de 1999. Além de transmitir o carnaval carioca com grande êxito em seu ano de estréia, algo que fez a Globo no ano seguinte se arrepender de não o ter feito e voltar a transmiti-lo em 1985, a rede tocou no ponto até então pouco explorado por emissoras além Jardim Botânico. O ramo de novelas foi um grande destaque da emissora e hoje lhes conto que 10 anos após de sua transmissão final ainda o é.

Terceiro lugar isolado

Explico-me. Dentre várias outras obras realizadas, uma que voltou à tona no Brasil pelo SBT, recém terminou sua exitosa exibição no país vizinho. Além de grandes feitos, como Dona Beija (1986), Helena (1987), Corpo Santo (1987), Kananga do Japão (1989), sua primeira produção dramatúrgica foi a minissérie Marquesa de Santos (1984). Dentre vários sucessos, houve uma trama clássica de Benedicto Ruy Barbosa, Pantanal, que sacudiu o conservador Brasil da década de 90, exibida entre 1990 a 1991. Vieram outros, como A História de Ana Raio e Zé Trovão (1991), Tocaia Grande (1995) e Xica da Silva (1996). Sim, é dela mesma, Xica da Silva, que estou a falar.

Apesar de tantas críticas à época, hoje a trama atingiu mais uma grande marca. O último capítulo de Xica da Silva obteve excelente audiência na Argentina. Nesta última terça-feira (8/9), conquistou excelentes 9.3 pontos de média, ocupando o terceiro lugar isolado no ranking do Ibope. Essa foi a melhor marca da emissora daquele dia. Enquanto sua substituta, O Profeta, não chega a 5 pontos sequer, menos que o dia de estréia de Xica da Silva, vinculadas ambas pelo Canal 9.

Audiência triplicada

A trama protagonizada por Taís Araújo e produzida pela Manchete encerrou sua jornada em terras portenhas como maior êxito fora das duas principais redes este ano. Ao longo de sua exibição, Xica da Silva teve diversos problemas com a concorrência. Por ser veiculada às 22h, enfrentou fortes concorrentes como Caiga Quién Caiga, o CQC argentino, a novela Valientes e o bem-sucedido Showmatch, ambos do canal El Trece.

Em tempos de tramas mais que repetitivas, tanto no Brasil como no exterior, é interessante pensar que uma produção de formato diferenciado possa, sim, ter ainda sucesso. Em contra a muitos críticos, que só aplaudem a mesmice e o vil.

Pode-se considerar que a TV Globo novamente perdeu para a TV Manchete. Já que quem substitui a querida e extrovertida Xica é um produto global. Esse que não atingiu o mesmo índice de estréia da produção manchetiana. Escrita por Walcyr Carrasco, autor do menos pior resultado do horário das 6 e também das 7 entre novelas nesta última década, sob o pseudônimo Adamo Angel, e dirigida por Walter Avancini, Xica da Silva levou a Rede Manchete de volta ao segundo lugar na audiência geral da televisão brasileira, depois de alguns anos em crise.

Em 2005, o SBT causou uma grande surpresa no mercado televisivo brasileiro ao anunciar que adquirira os direitos de exibição da novela; estreou a reprise em 28 de março, indo até 9 de dezembro do mesmo ano, às 22h. O sucesso da reprise de Xica da Silva, que triplicou a audiência da emissora de Sílvio Santos recolocando-a na vice-liderança no horário, levou a Rede Bandeirantes a comprar os direitos de exibição de outra novela da Rede Manchete, Mandacaru, e reprisá-la no mesmo horário em 2006.

Fantasma presente e passado

Xica da Silva foi exibida na TVI (Portugal) em 1997, e mais tarde, em 2003, reexibida na SIC (Portugal). Teve grande êxito no exterior, sendo transmitida em vários países, como o Chile (onde foi líder absoluta também em sua reprise), República Dominicana (que exibiu a novela quatro vezes), Angola (onde Taís Araújo foi recebida com honras de chefe de Estado por causa do sucesso da trama) e Venezuela, Equador, Rússia, Colômbia, Bolívia, Honduras, Nicarágua, Porto Rico, Panamá, Paraguai, Peru, Guatemala, Japão, Argentina e outros.

A trama também fez enorme sucesso nos Estados Unidos, ao ser exibida pela emissora Telemundo, e abriu caminho para as novelas brasileiras no país. A coisa foi tão inacreditável que Taís Araújo foi contratada pela Telemundo por um ano para promover a novela e participou de um reality show da emissora; por conta do êxito de Xica, fez participação especial no também sucesso colombiano, Betty, a Feia. Na época, foi eleita pela revista People espanhola uma das 50 personalidades mais bonitas do mundo. Recentemente, de 14 de novembro de 2006 a 24 de agosto de 2007, Xica foi reapresentada nos EUA (pela terceira vez), porém pela TV Azteca America.

A Manchete é o fantasma na história presente e passada da poderosa rede carioca. É isso aí, realmente, só para variar, a qualidade deve vencer o status. Taís Araújo, com apenas 17 anos, era uma atriz pronta e mais de 10 anos depois finalmente chega ao horário das 8 como protagonista em Viver a Vida, de Manoel Carlos. E pensar que a vara da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro notificou publicamente a Manchete, além de protestos de setores da sociedade pedindo a retirada da novela do ar. Realmente, o Brasil não sabe o valor que tem, e dá valor ao que não tem valor.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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