Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > GUERRA DAS TVs

A mentira como forma de persuasão

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 19/02/2007 na edição 421

A guerra invisível entre as redes de televisão árabe e anglo-americanas, imoral e idiota, causa impactos tão violentos quanto as bombas que devastam o Iraque. Cúmplices dos seus respectivos governos, as televisões mostram todos os dias ao mundo cenas patéticas desse espetáculo macabro, submetendo as questões éticas ao modelo econômico dos Estados Unidos e ao arbítrio do antigo e atual governo iraquiano, sem que se possa diferençar o bom e o mau jornalismo, já que a mentira continua fartamente usada como forma de persuasão.

As televisões norte-americanas e inglesas, quando da invasão ao Iraque, foram as primeiras a atingir o mundo com notícias sobre a guerra, prestando-se perfeitamente aos propósitos políticos das forças de coalizão. O melodrama foi fartamente usado como essência de suas apresentações, notícias publicadas em forma de espetáculo, o emocional coletivo explorado com informações sobre um soldado preso aqui, outro desaparecido ali, funerais dos soldados ingleses adiante, o desespero das famílias daqueles que morreram, a enorme superioridade bélica dos ingleses e norte-americanos, George Bush como o grande libertador do povo iraquiano, e por aí vai.

Vítima e déspota

Os meios de comunicação tornaram-se, enfim, aliados do ato terrorista praticado pelas nações invasoras e seus profissionais só interpretaram os fatos de acordo com as censuras prévias do alto comando das forças coligadas. Cerca de 700 jornalistas embarcaram com as tropas, mas, ao invés de cobrir os acontecimentos da guerra, limitaram-se a fazer relatórios para os generais, como verdadeiras marionetes. Nem por isso os sentimentos anti-americanos cessaram, muito menos as razões da guerra ficaram bem esclarecidas.

A imprensa árabe, por sua vez, valeu-se do seu poder para fazer a propaganda do governo de Saddam Hussein – o poderoso ditador de então –, apresentando-o como a grande vítima da opressão norte-americana e tentando transformá-lo em herói. Para chocar o mundo, utilizou imagens de corpos mutilados e o que sobrou do orgulho do povo iraquiano. Porém, deixou de mostrar o despotismo crescente com que Saddam afundou o país, impondo censura à imprensa, liquidando as manifestações culturais e artísticas, prendendo, assassinando e exilando milhares de cidadãos.

A guerra não acabou

Todos os países envolvidos nesse conflito devem explicações à história pelos atos unilaterais e bárbaros praticados por cada um. Mas, não só eles. A imprensa também. Ela deixou de ser observadora isenta para se tornar co-autora desse crime contra um povo que tem o direito de viver conforme suas tradições. Faltaram, e continuam faltando, análises mais criteriosas dos fatos, mais enfoques sobre os motivos que levaram a esse conflito, e explicações melhores para estas indagações: por que a CNN diz que a situação no Iraque está sob controle, quando as redes árabes mostram uma nação mergulhada na anarquia e no caos? Foi o petróleo do Iraque a razão do conflito? Os norte-americanos querem implantar uma nova ordem social baseada nos códigos morais da Bíblia, segundo os quais o islamismo é o anticristo? Bush quer impor sua doutrina ao mundo de qualquer jeito, pouco se importando em recorrer até às armas nucleares?

Embora a imprensa não tenha até agora dado respostas a essas questões, ela trouxe à tona a certeza de que qualquer ditadura representa o esmagamento de todas as liberdades, como aconteceu no Iraque e nos países que tiveram a desventura de vê-la vitoriosa. A imprensa revela também que o Estado, nas mãos de um ditador ou de um partido que privilegia uma classe que se apóia sobre a força e sobre a violência em proveito de uma única fração da sociedade, leva aos piores excessos e conduz qualquer país à barbárie. E o pior! A imprensa tem mostrado que a guerra não acabou, está apenas começando…

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Jornalista, Salvador, BA

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