Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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TV EM QUESTãO >

A morte dos grandes telejornais

Por Antonio Brasil em 21/07/2009 na edição 547

Você provavelmente não conhece Walter Cronkite. Mas para os americanos da
geração televisiva, aqueles que foram criados diante da telinha, Cronkite era
sinônimo de bom jornalismo, credibilidade indiscutível e poder. Muito poder.


Walter Cronkite foi o primeiro jornalista a receber o título de ‘âncora’ de
telejornal. Discípulo de outro ícone do jornalismo americano, Edward Murrow,
acumulou as principais funções na produção e apresentação de notícias para
telejornais.


Nos tempos pioneiros da TV e da guerra fria, o ‘âncora’ de telejornal
mantinha ‘estável’ um mundo à deriva, à beira do desastre final. A televisão era
o equivalente à bomba atômica no campo da comunicação de massa. Ambas eram armas
poderosas, mas ainda desconhecidas em seus efeitos. Mas já tinham um objetivo
comum: conquistar os corações e as mentes de um mundo dividido.


Nos tempos em que telejornal era o principal meio de informação, Walter
Cronkite se tornou mais poderoso do que os presidentes americanos. Eles vinham e
seguiam. Alguns venciam ou eram derrotados em guerras ou eleições. Outros foram
assassinados ou renunciaram. Mas somente ‘Uncle Walter’ – o Tio Walter, como era
carinhosamente conhecido pelos americanos – persistia no comando do Evening
News
da CBS, líder de audiência durante muitos anos. Algo parecido com
o Jornal Nacional em tempos de ditadura.


Sincero e coerente


Só para termos uma idéia do poder dos telejornais americanos, nos anos 1970
as principais redes chegavam a garantir 75% da audiência no horário nobre. Hoje,
os principais telejornais de rede têm 19%. E para piorar, seus âncoras morrem,
estão se aposentando e perderam a credibilidade.


Em 1972, uma pesquisa de opinião considerou-o como o ‘homem que inspira mais
confiança à América’, mais do que qualquer político, dirigente religioso ou
herói desportivo. Não sei se Cronkite era realmente o homem mais confiável da
América. Talvez seja um exagero jornalístico.


Como diz o obituário do NYT, ‘Walter Cronkite era o número 1 nos tempos
em que os grandes telejornais importavam’.


No fim da década de 1960, Walter Cronkite desempenhou papel fundamental ao
mudar a opinião pública norte-americana contra a guerra no Vietnã. Ele ajudou a
mudar a história. O presidente Lyndon Johnson desistiria da reeleição ao ser
criticado por Cronkite nos telejornais da CBS. O mais ‘confiável’ homem da
América era mais do que um jornalista poderoso. Ele era o oráculo de uma
sociedade surpreendida pela ‘inesperada’ hegemonia e liderança mundial.


Para mim, ‘Uncle Walter’ era somente um homem ‘sensato’. Suas opiniões sobre
quase tudo – guerras no Vietnã e no Iraque, guerra contra as drogas, corrida
espacial e tantas outras – refletiam os ideais do que havia de melhor nos
EUA.


Ele não estava sempre certo, não sei se o mais confiável. Mas me parecia
sempre sincero e coerente. E isso não é pouco para um jornalista tão
poderoso.


Queda de audiência


A morte de Walter Cronkite confirma o fim de uma era. Jornalistas poderosos
como Edward Murrow, Peter Jennings, Dan Rather, Tom Brokaw e Ted Koppel
morreram, foram aposentados ou se envolveram em práticas duvidosas de
jornalismo. Alguns serão lembrados com saudades. Outros serão esquecidos pelo
público. Mas certamente não serão substituídos por novos âncoras tão poderosos
como o velho Cronkite.


No Brasil, jamais tivemos âncoras de telejornais como Walter Cronkite. Nossos
‘quase’ âncoras, como Boris Casoy, Joelmir Betting, William Bonner ou Fátima
Bernardes apresentam telejornais, mas não acumulam tanto poder ou são tão
‘confiáveis’. Ainda bem. Nossos ‘quase’ âncoras não produzem boas reportagens
para seus telejornais. Recebem salários astronômicos, são celebridades e vivem
distantes da realidade. Afastados da cobertura diária estão mais próximos do
poder e dos poderosos.


Hoje, os novos âncoras não mudam a opinião pública ou a história. Ainda
bem!


A principal função dos novos jornalistas de TV é tentar diminuir a queda de
audiência diante do envelhecimento do público e a relevância jornalística diante
da internet.


Fim de um modelo de jornalismo


A morte de Walter Cronkite confirma o fim dos grandes telejornais.


Nos EUA, há 30 anos, os três principais telejornais das grandes redes de TV
tinham cerca de 76% do share de audiência e mais de 46 milhões de
telespectadores. Hoje, esses mesmos telejornais têm no máximo 37% de
share e amargam uma audiência de no máximo 30 milhões de
telespectadores. Novos hábitos, novos horários, a segmentação do meio televisivo
e novas fontes de notícia como a internet não poupam os velhos telejornais.


O jornalismo de modelo com ‘mão única’, onde o todo-poderoso ‘âncora’ informa
com a voz de Deus, é responsável pelas notícias, emite opiniões, monopoliza os
grandes eventos e determina como o público deve pensar, parece estar com os dias
contados.


O modelo autoritário de telejornais no estilo ‘Eu falo, vocês ouvem e…
obedecem’ não faz mais sentido. Seu fim já está mais do que anunciado. O público
anseia por um jornalismo menos ‘professoral’, hierárquico e autoritário. Algo
mais no estilo de uma ‘conversa’ do que uma ordem ou uma ameaça.


Um diálogo entre parceiros onde o público contribui e acrescenta valor às
notícias. É o fim de um modelo de jornalismo do alto de um ‘pedestal’ onde o
jornalista se considera detentor único do poder das notícias e da
verdade.


Morte anunciada


Ao invés de substituir os velhos e poderosos âncoras do passado, deveríamos
investir em uma nova constelação de repórteres-apresentadores que contribuiriam
para a experimentação e diversidade jornalismo de TV. Novos formatos e
linguagens estão sendo desenvolvidos especialmente para a rede e para os
celulares. E isso pode significar uma sobrevida para os telejornais.


Ao contrário do jornalismo de TV, Walter Cronkite nunca mudou. Continuou
acreditando no poder da TV e das boas reportagens para produzir grandes
telejornais. Cronkite não era artista ou refém de índices de audiência. Não
acreditava que jornalismo se confunde com entretenimento. Cronkite não mudou.
Quem mudou foram os grandes telejornais.


Aos 92 anos, a morte do velho Walter Cronkite já era esperada. Agora é a vez
dos grandes telejornais. Mera questão de tempo.


O obituário já está pronto.

******

Jornalista, doutor em Ciência da Informação, professor da UERJ

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