Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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A Teia e a última flor do Lácio

Por Heitor Reis em 25/11/2008 na edição 513

Sem nenhuma sombra de dúvida, a Teia 2008, realizada no Distrito Federal, de 12 a 16 de novembro, valorizou a cultura nacional… Mas… Mas, mesmo assim, quem dela participou e organizou não é perfeito, coisa democrática e ditatorialmente absoluta entre os seres humanos e outros bichos.

Justamente por isto, não podemos jogar a criança fora com a água do banho. Devemos criticar as partes, considerando uma visão extremamente positiva do todo, como é neste caso. É assim que as coisas melhoram.

Sempre há alguma ressalva sobre qualquer coisa, por melhor que seja ela, fato que os maniqueístas, reducionistas e ufanistas ingênuos ou maldosos não suportam. Mas, mesmo assim, vou correr este risco…

A tese já traz, em si mesma, a contradição que irá gerar a antítese, dizem os estudiosos da dialética.

É incrível como um evento onde se visa a valorizar a cultura de nosso povo, assassine, com a mais extrema naturalidade, nosso idioma. Nada contra ser poliglota, mas misturar dois idiomas simultaneamente e dizer palavras estrangeiras que a maioria da população não entende é desconhecer a própria realidade em que se está inserido. Aumentar ainda mais a desigualdade existente e sem horizonte algum de quando será reduzida, enquanto se badala o contrário no tema do evento.

Miserável macaquice

Um cara chegou para mim perguntando se na sala cheia de computadores que utilizávamos para cobertura do evento havia um tal de wireless.

Eu disse que ali não tinha tal coisa, somente possível nos EUA, Inglaterra etc. Mas que tinha conexão sem fio à rede mundial de computadores. E acrescentei que o idioma oficial do Brasil era o português, o qual ele estava mutilando ao não usar a tradução literal do termo.

O cara surtou. Disse um punhado de bobagens e foi-se embora… Mais tarde me procurou e teve a hombridade ou a mulheridade, ou ambas, de me pedir desculpas, as quais aceitei, usando de toda minha criatividade para não constrangê-lo ainda mais.

Infelizmente, este caso não é isolado, mas uma verdadeira epidemia nacional, como disse Sérgio Buarque de Holanda, pai do grande Chico: O brasileiro tem mania de macaquear o estrangeiro. Especialmente neste caso, onde o Estado brasileiro escraviza na ignorância 74% dos brasileiros na condição de analfabetos e semi-analfabetos.

Eles desconhecem o português plenamente e, assim, são vítimas fáceis que adotam o idioma estrangeiro como forma de expressão, hipnotizados pela miserável macaquice da grande mídia e dos jornalistas mercenários, diplomados ou não, que a servem.

A grande inimiga do povo

Nem parece que o chefe do Executivo Federal insistiu, veementemente, na Teia anterior, defendendo o idioma oficial do Brasil:

‘Dá pra falar menos inglês, pra gente como eu entender?’ (Lula) [ver aqui]

Aldo Rebelo, do PCdoB, tem projeto de lei que visa a colocar a coisa nos trilhos. Mas há quem discorde, como é natural e democrático. Aguardemos para ver no que vai dar e torçamos para que haja um debate qualificado para a felicidade geral da nação, onde predomina a ignorância sobre o que se fala, ouve e lê.

Para quem já esqueceu ou nunca soube, nosso idioma, é lindamente chamado de ‘A última flor do Lácio’, local donde surgiu o latim, cuja versão mais vulgar contribuiu substancialmente para gerar a fala lusitana, agregando outras existentes, na região que veio a ser Portugal.

O português é conhecido como ‘a língua de Camões’ (em homenagem a Luís de Camões, escritor português, autor de Os Lusíadas). ‘A última flor do Lácio’ é uma expressão usada no soneto Língua Portuguesa, do escritor brasileiro Olavo Bilac. Miguel de Cervantes, o célebre autor espanhol, considerava o idioma ‘doce e agradável’ [ver aqui].

Claro que há palavras difíceis de traduzir, mas seguramente estamos exagerando nesta liberalidade graças aos jornalistas, diplomados ou não, que vendem suas consciências à grande inimiga do povo brasileiro: a mídia (Perseu Abramo e outros).

Barbarismo ou idiotismo

Certamente, há países que defendem sua língua melhor que o Brasil, a exemplo de Portugal e Finlândia:

Nada de estrangeirismos. Quando surge um fenômeno novo em qualquer campo, a Academia de Letras se reúne para criar a palavra que vai designá-lo. O nome do autor fica registrado nos dicionários ao lado da palavra. Se quase todos os idiomas do mundo designam telefone por vocábulos mais ou menos parecidos entre si, na Finlândia criou-se o termo puhelin (de puhella, conversar), sugerido por um jornal de Porvoo em 1897. Intransigentes na defesa do idioma, nem por isso os finlandeses deixam de abrir-se ao estrangeiro, seja no tempo, seja no espaço. Boa parte da população fala sueco e inglês. Enquanto no país da última flor do Lácio, inculta e bela, discute-se se nossa língua-mãe deve ou não voltar aos bancos escolares, desde 1989 a Rádiodifusão-Televisão Finlandesa dá-se ao luxo de oferecer uma retrospectiva do noticiário internacional da semana em latim, sob o título Nuntii Latini. Se você quiser ouvi-la directe colligatio, isto é, online, basta clicar aqui. Novissima emissio Nuntiorum Latinorum per rete informaticum Internet audiri potest, si in apparatu phonocharta et quoddam audioprogramma (e.g. RealAudio) inest. E-mails, isto é, inscriptio cursualis electronica, podem ser enviados para nuntii.latini@yle.fi[ver aqui].

Da Wikipédia, também temos algo sobre esta mania de abandonar o próprio idioma para macaquear o estrangeiro, praticando o exibicionismo de termos facilmente traduzíveis para a língua pátria:

Anglicismos são termos ou expressões inglesas introduzidas na língua portuguesa, seja devido à necessidade de designar objectos ou fenómenos novos, para os quais não existe designação adequada na nossa língua, seja por uma série de motivos de carácter sociológico (ignorância da língua portuguesa, dificuldades em traduções inglês-português, aculturação, vontade de parecer ‘distinto’ etc.) que levam à preferência por palavras inglesas, em detrimento das portuguesas. Ao se utilizar um termo inglês em vez de equivalente vernáculo, caracteriza-se por vício de linguagem, também chamado de barbarismo ou de idiotismo [ver aqui].

Início do processo

Para quem já se reconhece como súdito cultural do maior país terrorista da face da Terra, especialmente quem se acredita revolucionário ou de esquerda e deseja recuperar nossa raiz, segue a tradução de algumas palavras usadas habitualmente por nosso povo para início do processo. Ou defender o que é nacional é sempre coisa da direita?

Acquired Immune Deficiency Syndrome (AIDS) = Síndrome da ImunoDeficiência Adquirida (SIDA)

coffe break = parada, pausa ou intervalo para o café ou merenda

compact disc (CD) = disco compacto (DC)

delivery = entrega

DeoxyriboNucleic Acid (DNA) = Ácido DesoxirriboNucleico (ADN)

franchising = franqueamento ou franquia

hard disc (HD) = disco rígido (DR)

hotdog = cachorro quente

internet = rede mundial ou rede internacional

link = anelo, vínculo, elo, ligação, caminho

marketing = mercadologia, mercância ou comércio [ver aqui]

mouse = rato

on line = na linha

shopping center = centro de compras

software = programa

wireless = sem fio

‘De noite, uma drag queen

Segue, abaixo, a contribuição de Zeca Baleiro para reforçar esta causa [ver aqui]:

Samba do Approach (1999)

‘Venha provar meu brunch

Saiba que eu tenho approach

Na hora do lunch

Eu ando de ferryboat

Eu tenho savoir-faire

Meu temperamento é light

Minha casa é high-tech

Toda hora rola um insight

Já fui fã do Jethro Tull

Hoje me amarro no Slash

Minha vida agora é cool

Meu passado já foi trash

Fica ligada no link

Que eu vou confessar, my love

Depois do décimo drink

Só um bom e velho engov

Eu tirei o meu green card

E fui pra Miami Beach

Posso não ser pop star

Mas já não sou nouveau riche

Eu tenho sex-appeal

Saca só meu background

Veloz como Damon Hill

Tenaz como Fittipaldi

Não dispenso um happy end

Quero jogar no dream team

De dia macho man

E de noite uma drag queen’

******

Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (CMQV) e articulista

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