Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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A telenovela avança, a sociedade retrocede

Por Yuri Alves Fernandes em 14/04/2015 na edição 846

Por abordar questões morais e a diversidade, Babilônia gera debates relevantes para a sociedade, mas enfrenta um preocupante problema: a visão unilateral cada vez mais forte no país.

A baixa audiência de Babilônia, novela exibida pela Rede Globo, pegou muita gente de surpresa. A trama, que ocupa o horário mais nobre da TV brasileira, já chegou, inclusive, a registrar índices inferiores ao folhetim das 19h, Alto Astral. Em razão disso, com pouco menos de um mês no ar, a emissora carioca já providenciou diversas mudanças na história com o intuito de fisgar o telespectador.

Apesar do início conturbado, a telenovela tem ingredientes necessários para ser considerada um “novelão”: romances, vilãs, vingança, doses de humor e um elenco que dispensa comentários. O que explicaria então o desinteresse do público? Simples! Babilônia aborda questões morais. E, cá entre nós, será que as pessoas estão abertas a esse tipo de discussão?

Basta assistir uma cena entre Tereza (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) para você perceber a riqueza do debate proposto nos diálogos. Em uma sequência exibida no dia 9 de abril, por exemplo, o casal, juntamente com o filho, Rafael (Chay Suede), e a empregada, discutem sobre liberdade religiosa. Rafael não possui religião e sofreu preconceito pela família de sua pretendente, Laís (Luisa Arraes), que o classificou como indigno. Mas observem a ironia: o pai dela, Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira), é um prefeito corrupto capaz de se aproveitar de um incêndio na cidade e do sofrimento alheio para se autopromover. O próprio diz que governa pautado por Deus. Nada que choque – afinal, o nosso Estado laico está cheio de Aderbais, não é mesmo?

Além da corrução, os novos arranjos familiares, as cotas raciais e as diferenças sociais são temas levados para os lares dos brasileiros por meio de Babilônia. Ao discutir esses assuntos, a novela passa a assumir um papel de difusão de aspectos sociais e culturais, deixando, portanto, de ser apenas um gênero de entretenimento. Levar o debate à sociedade é avançar. Mas tem muita gente estagnada. Pessoas que preferem tapar os ouvidos – ou no caso, os olhos – para questões que são inerentes à nossa coletividade.

A verdade dói

Claro que esse pode ser um dos fatores da não aceitação da trama; alguns simplesmente não assistem por questão de afinidade. Mas o que podemos constatar com os tão comentados boicotes à novela e a repercussão do beijo entre Tereza e Estela, por exemplo, é que cada vez mais estamos vivendo em uma sociedade de inversão de valores. Afinal, o político corrupto já não causa espanto. Já a senhora lésbica destrói a – frágil – família brasileira.

Babilônia é a novela certa, mas na hora errada. Atualmente no nosso país, pautas conservadoras que contrariam bandeiras feministas, trabalhistas, progressistas, e da comunidade LGBT ganham fôlego. Tudo sendo arquitetado por aqueles que o próprio povo colocou no poder. A sociedade não avança; a novela tenta, mas esbarra no público menos esclarecido, conivente com o retrocesso.

Como a novela é um produto da indústria cultural, ela tem que gerar lucro. E quando essa lógica é ameaçada, medidas são tomadas. Carinhos entre Estela e Tereza serão cortados, o que não desmerece a iniciativa dos autores. Em suma, Babilônia não é uma novela ruim, é uma novela que tenta retratar a realidade e a hipocrisia social. Mas não dizem que a verdade dói? Para o público conservador, é melhor mudar de canal do que conviver com a diversidade nos seus mais diferentes âmbitos. É mais fácil aceitar histórias de impérios do que histórias que acontecem com os nossos vizinhos.

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Yuri Alves Fernandes é estudante de Comunicação Social

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