Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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A teoria da conspiração e a teoria do agendamento

Por Ana Karla Farias em 07/07/2015 na edição 858

Na década de 70, os pesquisadores e estudiosos da Comunicação Maxwell McCombs e Donald Shaw dedicaram-se a estudos tendo como intuito demonstrar a influência que alguns programas televisivos exerciam no que seria discutido e pensado entre os diversos segmentos da sociedade, ou seja, o público receptor da mensagem midiática. Com fulcro na supracitada pesquisa originou-se a hoje conhecida, Teoria do Agendamento ou Agenda-Setting Theory, no original em inglês.

Pois bem, com base em tal teoria os meios de comunicação se revelam como detentores do poder simbólico de pautar e agendar o que será conversado e ganhará notoriedade entre a opinião pública. Para McCombs e Shaw, a Teoria do Agendamento pressupõe que as notícias são como são porque os veículos de comunicação “determinariam o que pensarmos” e como pensarmos os fatos noticiados. Os ditos consumidores de notícias tenderiam a considerar mais relevantes os assuntos veiculados na imprensa, sugerindo que os meios de comunicação agendariam nossas conversas. Ou seja, a mídia nos imporia, suavemente, o que falar e interferiria em nossos relacionamentos.

Esclarecido o conceito do agendamento, adentremos um assunto que tem se alastrado, nos últimos dias, pelas diversas redes sociais digitais e tem se tornado alvo principal de discussões, com certo teor de clamor e revolta, nos mais diferentes âmbitos da nossa vida cotidiana – no trabalho, no café, na escola, nos bancos acadêmicos, entre outros lugares – enquanto receptores de notícia: o caso polêmico de Maju. A jornalista Maria Júlia Coutinho, conhecida popularmente como Maju, foi vítima de comentários racistas na página do Jornal Nacional no Facebook, em post publicado na noite de quinta-feira (2/7). Como já é sabido, uma vez que foi bastante noticiado, alguns internautas escreveram comentários depreciativos e ofensivos à jornalista em razão de sua cor no post que apresenta uma foto de Maju. Ato contínuo, vários internautas e artistas saíram em defesa da apresentadora do tempo do JN e se pronunciaram contra a manifestação expressa, despudorada e escancarada de racismo. O que tornou o ocorrido ainda mais visível socialmente é que os apresentadores do telejornal de maior audiência no país, William Bonner e Renata Vasconcellos, gravaram um vídeo postado no Facebook em que dão um recado, com a equipe do JN. Eles mostraram um cartaz e gritaram a “SomosTodosMaju”. No Twitter, a hashtag #SomosTodosMajuCoutinho chegou ao topo dos tópicos mais comentados. Não por acaso, tenho observado que o assunto está sendo deveras repercutido nas redes sociais digitais de muitos brasileiros que aderiram à causa da jornalista, postando a frase que se popularizou por entre a opinião pública: “SomosTodosMaju”.

A teoria do agendamento ainda é utilizada

Outro dia, e não faz muito tempo, um telespectador atento, assistindo a uma das edições do JN, traçou um comentário que me despertou o interesse e julgo pertinente aqui colocar. Ele indagou o que porventura, esteja sendo questionado ao público receptor não como massa homogeneizada e passiva, mas enquanto ser pensante e observador dos fenômenos midiáticos e seus impactos no cotidiano: “Por que tanta visibilidade em torno de Maju?” Sem pôr em xeque os indubitáveis e irrefutáveis talento e competência da jornalista, que, independente da cor e etnia, logrou o espaço no mais cobiçado telejornal brasileiro por mérito próprio, mas por que tantos telespectadores, assim como o que citei, têm auferido a sensação de que o JN está tentando forjar uma aproximação e familiarização entre o público e a apresentadora do tempo?

Se não me falhe a memória, não me recordo do telejornal ter tratado de modo tão informal – o que pode ser uma nova roupagem do JN – um apresentador do tempo, referindo-se a ele pelo apelido, já que é notório em nossa cultura o uso de apelidos como forma de encurtar abismo entre as pessoas. Na minha região, no Nordeste brasileiro, a título de exemplo, sobretudo no interior, as pessoas costumam ser conhecidas pelos apelidos ou termos de possessão, até para se criar uma relação de proximidade e amizade. É o caso de dona Maroca da padaria, Zé de Paulina, Titica e por aí vai. Trocando em miúdos: os apelidos desmistificam e rompem a atmosfera de formalismo e de posições hierarquizantes que porventura exista. É bem verdade que a crença de que vivemos em uma democracia racial é uma utopia ou ideia fajuta, pois costumeiramente percebemos que o Brasil não se furtou de discriminações raciais, apesar de ser uma nação constituída por tantas pessoas e culturas heterogêneas. Contudo, não é a primeira vez que o público depara com a participação em telejornais e programas jornalísticos, de muito alcance e audiência no país, com apresentadores negros. Passando pelo RJTV, Jornal Hoje, Globo Repórter, Fantástico e pelo próprio JN, Glória Maria atua no telejornalismo desde os anos 70 e não despertou – ao menos publicamente – manifestações de ódio e de racismo entre internautas e público de modo geral. Outro que também exerce o jornalismo desde a década de 80, dispondo de uma longa carreira nos telejornais e sendo inclusive apresentador eventual do JN, é Heraldo Pereira, que segundo se tem conhecimento, também não foi alvo de discriminações raciais expressas na internet.

Enfim, se existe uma teoria da conspiração e o JN possa ter se aproveitado do poder de manipulação que a mídia exerce sobre o público receptor, simulando o fato? Não sei. Contudo, não é difícil de apreender que o caso Maju tem ganhado forte visibilidade social e pautado debates e discussões entre a opinião pública. Não é preciso ser McCombs para concluir o quão a Teoria do Agendamento ainda é utilizada pelos mass media.

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Ana Karla Farias é jornalista

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