Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > MÍDIA E MIGRAÇÃO

América, um sonho desfeito

Por Ernane Corrêa Rabelo em 31/10/2005 na edição 353

Sucesso de audiência, fracasso de público. Despedida sem nostalgia a da indefectível telenovela América, que tentou abordar – nos limites próprios de um preguiçoso programa de entretenimento – o drama de milhões de brasileiros que partem desta vasta terra das desigualdades para o exterior. E se dissiparam neste grande espetáculo midiático que ‘prende’ mas não ‘desperta’ a atenção do público as origens deste êxodo humano com suas terríveis conseqüências para a comunidade, a desagregação familiar e os prejuízos psicossociais a migrantes e ex-migrantes.

Na prática, foi uma novela de terror para quem pretende viajar, pois o até o governo mexicano cedeu às pressões norte-americanas e passou a exigir visto de entrada no passaporte brasileiro. Antes da estréia de América, apostou-se que este grande êxodo humano pudesse finalmente entrar na pauta da mídia e na agenda do Ministério das Relações Exteriores. Chegou-se mesmo a pensar que a novela fornecesse combustível para a ignorada CPI da Emigração Ilegal que, num esforço para dar visibilidade à causa, fez convite à autora da novela e à atriz Déborah Secco.

Nem as cifras envolvidas despertaram o interesse dos governos. O fenômeno migratório não é recente, mas explodiu no fim da década de 80 e acentuou-se com o fato de economia brasileira se arrastar desde então. Somente nos últimos cinco anos, aumentou em 1.665% o número de brasileiros detidos na fronteira com o México, segundo a Folha de S. Paulo. No ano passado, os cerca de dois milhões de migrantes estimados residentes no exterior remeteram quase US$ 6 bilhões de dólares ao Brasil. Neste aspecto, os EUA e o governo brasileiro se comportam à semelhança dos piores cafetões: empurram os excluídos para o trabalho e recolhem as moedas.

A doença se alastra

O Brasil desperdiçou nova oportunidade de discutir o tema migração quando do assassinato no metrô londrino do eletricista mineiro Jean Charles de Menezes. Outro fato de grande poder midiático, mas que acabou se tornando apenas um enredo de novela com o manjado script menino-pobre-que-sai-da-roça-tem-sucesso-fora-sendo-injustiçado-por-poderosos. Optou-se pelo enredo novelesco que emociona e revolta, com a patriotada de sempre, individualizando a questão, evitando a cerne do problema: a falta de horizontes para enorme parcela da população.

De acordo com a polícia, Jean Charles se comportou de modo ‘estranho’. Triste sina do estrangeiro: não compreender este seu novo mundo, esta nova e indecifrável sociedade – como ela se exibe aos recém-chegados, muitas vezes hostil e desafiadora. E aqui entra talvez o papel mais nobre da mídia: reduzir este ‘estranhamento’ por intermédio da exposição de seus deveres e direitos civis e políticos em programas de entretenimento e do noticiário.

A doença social se alastra e o governo recolhe as moedas sem perceber que nenhum país se desenvolveu ou tornou um lugar melhor se viver expulsando seus filhos, seus cidadãos.

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Jornalista e professor e pesquisador na área da migração e mídia

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