Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Anatomia de um spoiler

Por Mauricio Stycer em 23/06/2015 na edição 856

Na quinta-feira, 11 de abril de 1991, a capa da “Ilustrada” exibia o seguinte título: “Saiba quem matou Laura Palmer”. O subtítulo avisava: “Não leia o texto abaixo se você não quer saber o mistério da série ‘Twin Peaks’, que intrigou os EUA por cinco meses”.

O texto entregava o segredo mais aguardado pelos fãs da série já na primeira linha. “Bob, uma alma penada com obsessão por facas, matou Laura Palmer”.

O seriado vinha sendo exibido pela Globo aos domingos, às 22h30, e o episódio no qual o público descobriria o assassino estava programado para ir ao ar em 26 de maio, ou seja, dali a 45 dias.

Ainda segundo o texto, o assassino de Laura Palmer havia sido conhecido pelo público americano em 30 de setembro do ano anterior, quando o episódio-chave foi exibido pela rede ABC.

O autor do texto foi o jornalista Álvaro Pereira Júnior, então editor-chefe do jornal “Notícias Populares” (que pertencia à mesma empresa que edita a Folha). Ele morava nos Estados Unidos quando a série foi exibida originalmente e já havia assistido ao episódio em questão. Não foi dele, porém, a ideia de publicar o spoiler.

“A má ideia foi minha”, conta Matinas Suzuki Jr., então editor-executivo da Folha. “Foi algo que combinava com a atitude que a ‘Ilustrada’ tinha na época, provocadora, espírito de porco”, diz.

Mario Cesar Carvalho, então editor da “Ilustrada”, divide com Suzuki a paternidade da travessura.

“A minha avaliação é que a série do David Lynch era tão genial que saber quem matou Laura Palmer não tinha a menor importância”, diz hoje. “Continuo achando isso.”

O então ombudsman do jornal, Caio Túlio Costa, elogiou o cuidado que a “Ilustrada” teve em avisar que o texto continha revelações, mas registrou em sua coluna dominical no jornal, três dias depois, que recebeu um grande número de protestos de leitores.

Bem-humorado, Costa escreveu que uma leitora, ao fazer a sua reclamação, ainda se vingou do ombudsman: “Ela acabou me contando o fim do filme ‘O Poderoso Chefão’ [o terceiro da série], que eu ainda não vi”.

Sem controle

Não sei se foi o primeiro, mas este certamente foi o mais rumoroso caso de spoiler ocorrido até então na mídia brasileira.

Muita coisa mudou nos 24 anos que separam a revelação do nome do assassino de Laura Palmer da notícia de que um dos principais personagens de “Game of Thrones” (não vou escrever o nome) morreu no final da quinta temporada.

Se no século passado as séries americanas demoravam meses, às vezes anos, para serem exibidas no Brasil, hoje elas passam aqui de forma simultânea ou quase.

No esforço de combater a pirataria, enormemente facilitada pela revolução digital, os principais grupos que atuam na área de TV por assinatura têm se esforçado em diminuir o intervalo entre a exibição original e a reprodução no Brasil de suas principais séries.

O spoiler, ainda assim, prolifera por conta da atividade frenética de um exército de estraga prazeres nas redes sociais. É uma praga sobre a qual não existe controle, salvo se isolar do mundo.

Por fim, é preciso dar crédito ao Netflix, que desde a primeira temporada de “House of Cards” coloca suas séries à disposição dos assinantes na íntegra. A iniciativa contribui para o fim do hábito de se ver um capítulo por semana, num horário determinado, e transforma todo assinante num potencial divulgador de “segredos”.

***

Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo

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