Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Antropologia de heróis e vilões

Por Hugo R. C. Souza em 22/02/2005 na edição 317

Em seu artigo no Globo de 16 de fevereiro (‘O que diz o ‘BBB’ do B?’), Roberto DaMatta identificou nesta quinta edição do Big Brother Brasil uma postura do brasileiro em geral de ‘horror ao autoritarismo e à arrogância associada ao poder’. Concluiu assim pela observação do repúdio por parte do público, através das votações, a um grupo específico de ‘brothers’ que se reuniu em torno de uma estratégia de condução de suas respectivas atuações ao longo do programa, com direito a complôs contra determinados membros do grupo rival.

O antropólogo caracteriza esse grupo encabeçado pelo já eliminado médico Rogério como uma ‘congregação totalitária, corporativa e dominada por um pensamento único’, e chega a comparar seus membros a integrantes de ‘algum partido político totalitário’. DaMatta, por fim, louva o fato de o programa combinar ‘o paredão fidelista com o bom e velho mercado eleitoral democrático’, e se satisfaz porque as votações têm rechaçado todas as ‘pretensões stalinistas’.

Uma dúzia de pessoas escolhidas segundo critérios de beleza e carisma trancadas numa casa de luxo dificilmente pode dizer algo de muito relevante sobre questões e estruturas um tanto mais complexas. Consciente disso, a Rede Globo tampouco parece ter essa pretensão com o sucesso de seu reality show – salvo algumas generalizações comportamentais volta e meia arriscadas por Pedro Bial em suas intervenções. Caso o Big Brother revelasse algo de significativo sobre política, economia ou o sexo dos anjos, os institutos de pesquisa teriam que repensar os números de suas amostragens…

Mocinho e bandido

Ainda assim, e apesar das repetidas advertências de que ‘isso é um jogo’ – é um jogo, realmente, além de um produto extremamente rentável –, desencadeou-se, por exemplo, uma aversão em massa a um médico contra quem a única acusação legítima seria a de ser um péssimo jogador, a ponto de ser necessário a Rede Globo sair em seu socorro desde o momento de sua saída do programa, quando o comandante Pedro Bial disse que ali estava um excelente profissional, acima de tudo, e citou um pensador grego antigo: ‘Sou humano, e nada que seja humano pode me parecer estranho’.

Contradição das contradições, aquele que foi escorraçado com rejeição recorde por ser considerado o mais malicioso, maquiavélico e ‘esperto’, mostrou-se o mais ingênuo concorrente ao prêmio de um milhão de reais, tanto por não levar em consideração uma previsível reação negativa dos telespectadores ao seu comportamento, quanto por simplesmente esquecer das câmeras de forma inacreditável, quando chegou a dizer diante delas que roubava viagra do hospital onde trabalhava para distribuir aos amigos. A Globo repassou a gafe em rede nacional, claro. É o jogo…

Mas o real espírito esportivo do Big Brother não escapa do modo de funcionamento da indústria midiática em geral, cuja produção de sentidos cotidiana não foge da lógica que deságua sempre na tentativa de identificação de heróis e vilões, mocinhos e bandidos. Imagem e espelho de um senso comum que valoriza, sincera ou hipocritamente, as virtudes do bom-mocismo, esta mídia inunda diariamente páginas de jornais e telas de TV com o que chama de ‘os dois lados’ deste mundo no qual, segundo a comunicação de massa, as contradições são tidas como ilusões de um ranço ideológico. Noves fora casos de corrupção a serem desvendados por audaciosos jornalistas investigativos, o buraco nunca é mais embaixo.

Senso comum e caretice

A principal conseqüência disso parece ser um grande processo de despolitização, em que individualizações bem delineadas entre um extremo e outro – o heroísmo e a vilania – dão o tom de um discurso monocórdio há tempos em voga, cuja cantilena pode ser resumida, por exemplo, na propaganda do governo federal festejando pequenos heróis nacionais, apelando à fé em Deus, mandando o recado de que a luta atual é uma luta individual num capitalismo que não se discute mas, ainda assim, ‘basta ser sincero e acreditar profundo e você será capaz de sacudir o mundo’.

No mundinho fechado e insignificante do Big Brother Brasil, Roberto DaMatta prefere acreditar que o médico Rogério organizou realmente um grupo autoritário, arrogante, corporativo, stalinista e orientado por um pensamento único, e que o público percebeu isso muito bem e o mandou às favas batendo todos os recordes. Sem falar nos exageros, causa estranheza uma análise política generalizante do programa partindo da personalidade de seus participantes e da reação do público a uma suposta vilania de alguns deles, sem levar em consideração que essa vilania se confunde com algumas opções de edição e, no limite, uma opção ideológica de quem constrói os vilões. É significativo que uma das inúmeras brincadeiras que a produção do programa realize seja produzir animações dos participantes vestidos de super-heróis, ainda que alguns sejam retratados com expressões faciais enfezadas…

E a Globo não ousaria tentar transformar em vilão o gay que esbanja sensibilidade e saber universitário ou a nordestina com sotaque carregado que vive apelando pra sua terra natal… Até porque não têm o perfil: são boa gente… No fim das contas, o clímax: o povão acha que faz justiça com o próprio telefone, não sem pagar tarifa… Não é ‘horror ao autoritarismo e à arrogância associada ao poder’, é um senso comum balizado por uma caretice tola que chega a demonizar o politicamente incorreto, ao tempo em que cultiva um moralismo eternamente hipócrita, servindo de anestésico para suas próprias contradições.

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Jornalista

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