Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Aqui Agora, Silvio Santos e o jornalismo

Por Nelson Hoineff em 15/04/2008 na edição 481

O novo Aqui Agora durou pouco. O surpreendente é que isso seja capaz de surpreender alguém. A fidelização do jornalismo está longe de ser o forte de Silvio Santos. Corporativismo à parte, temos que admitir que isso não chega a ser pecado algum. Silvio é provavelmente o único gênio vivo da televisão brasileira. Deveria ser cultuado como tal justamente agora, não depois. Poucas vezes o veículo experimentou no Brasil uma força intuitiva semelhante. O olhar de Silvio sobre o meio – desde a época em que transformava miseráveis em rainhas por um dia, em que comprava tempo na Globo para vender o Baú da Felicidade – é singular, irreverente, extraordinariamente original.

Mas suas experiências jornalísticas fazem parte do melhor anedotário da televisão brasileira. Oscilam entre a aventura e a piada. O Noticentro (contrafação do Newscenter 4, da NBC, que o apresentador gostava na época) era uma deliciosa pilhéria. O telejornal aos sábados era a reprise do que ia ao ar às sextas. Boris Casoy, Lilian Witte Fibe e o próprio Aqui Agora – sem deixar de incluir o Documento Especial, que este colunista teve o prazer de dirigir – foram aventuras de naturezas distintas. A virada ao avesso de Ana Paula Padrão e Carlos Nascimento também, mas já numa época em que as opiniões de Silvio sobre o que deveria ser jornalismo haviam sido tornadas públicas por ele mesmo.

Silvio acreditava, e dizia em entrevistas, que bom jornalismo é aquele que jamais diverge das políticas de governo. É um notável homem de televisão que não se preocupa muito com jornalistas, mas com o desempenho comercial dos produtos que eles são capazes de realizar. Olha para a atividade com o pragmatismo de um frio empresário. A rigor, não há nada de errado nisso. Muito pior são os veículos que se apresentam como jornalísticos e lançam o jornalista todas as semanas num lamaçal de servilismo, de fraudes, de mentiras e descomposturas que o obrigam a desqualificar, dia após dia, a atividade jornalística.

Por isso, discutir se Aqui Agora é ou não é jornalismo, ou mesmo lamentar a sorte dos funcionários demitidos com o fim da atração, não tem qualquer pertinência. Trata-se, aos olhos da empresa, de um produto – que não atingiu, nas poucas semanas em que esteve no ar, os índices de audiência que se imaginavam para ele. Ponto. O vertiginoso relançamento e morte do programa podem servir, isto sim, para encorajar uma reflexão sobre o que está acontecendo com o SBT e, por extensão, com a televisão aberta brasileira.

Absurdos que dão certo

Possivelmente pela forma instintiva e naif como sempre foi conduzido, o SBT conseguiu gozar da simpatia do povão. Não há como negar, para o bem ou para o mal, que é a rede de televisão que mais se parece com o Brasil. Sobre ela, jamais pairou a rejeição que durante muitos anos acompanhou outras emissoras. A programação tem pouco a ver com isso. O que o público mais informado não gostava na Globo era seu alinhamento ideológico. O que esse público não gosta na Record é seu comprometimento com uma igreja controvertida.

A decadência do SBT não decorre, como muitos tentam insinuar, da senilidade de seu dono. Ela é fruto da incapacidade de seu conglomerado de mídia de perceber as mudanças que estavam se operando na televisão, como meio e como negócio. Isso é sem dúvida uma decorrência do modelo concentracionista de gerenciamento das emissoras – como é sabido, no SBT não se tolera executivos –, mas não se pode dizer que tal modelo não tenha funcionado antes.

A TVS, que deu origem à rede, operava com dois filmes antigos por dia. Foi montada simplesmente porque isso ficava mais barato do que arrendar espaço na Globo. Silvio Santos comprava modelos de conteúdo ruins e eventualmente os fazia bons. Quando não queria comprar o formato, simplesmente o copiava. Botava no ar o que havia de pior na teledramaturgia latino-americana. Tirava do ar novelas em andamento. Colocava programas eróticos em horários vespertinos.

Todos os absurdos que Silvio imaginava, simplesmente davam certo. Sua intuição para resultados improváveis tem em Lula um dos poucos rivais. A diferença é que Lula tem a sorte de só lhe caber dois mandatos de quatro anos. Silvio tem um mandato imperial e nunca cogitou de abrir mão dessa prerrogativa. Até o acaso tem um limite para nos proteger.

Algoz encoberto

O SBT envelheceu. Praticas esdrúxulas se tornaram inaceitáveis. Mudanças diárias na programação enfureceram agências de publicidade, anunciantes e afiliadas. O público mudou enquanto a rede continuava falando para uma platéia que aos poucos deixava de existir. Tudo isso é inquestionável. O que deve ser entendido é que o SBT não está sozinho nisso. As outras emissoras também envelheceram. Não afrontam os anunciantes, mas mostram hoje, nas suas programações, um descompasso impressionante com as novas gerações. Pretendem desconhecer as plataformas que se desenvolveram ao seu redor. Apostam na extensão infinita do passado.

Esta síndrome, o SBT apenas expressa com a ingenuidade que está presente em tudo o que faz, em tudo o que sempre fez. É a emissora do Chaves (o do Chapolin, não o outro), a que avisava que o próximo programa só vai começar quando terminar a novela da Globo, a que é capaz de relançar um produto como Aqui Agora e fuzilá-lo no dia seguinte.

Não é o abrigo seguro do jornalista. Mas isso é infinitamente mais nobre do que ser o algoz escamoteado do jornalismo.

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Jornalista

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