Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > MARCOS FAERMAN (1944-1999)

Ars longa, vita brevis

Por Claudio Willer em 26/02/2008 na edição 474

Ars longa, vita brevis é o que dizem dos criadores que morrem cedo. Aplica-se a Marcos Faerman, cuja vida intensa e produtiva, por suas realizações como repórter, criador e editor de periódicos, professor de jornalismo, escritor e administrador cultural, encerrou-se a 12 de fevereiro de 1999, aos 55 anos. Mas, se houvesse chegado aos 70, sua quantidade de idéias e projetos também sobraria. Era daqueles cuja criatividade e talento não se ajustavam ao limite dos ponteiros de relógios. Regido pela paixão, transmitia sempre a impressão de iniciar uma insurreição libertária, no jornalismo, na política, na administração cultural e no dia-a-dia.

Gaúcho (gremista fanático), depois de militar na imprensa estudantil e trabalhar no jornal Zero Hora, veio em 1968 para São Paulo e o Jornal da Tarde, onde permaneceu até os anos 1990. Dispondo de liberdade de atuação, fazia reportagem geral, inclusive policial, e, ao mesmo tempo, matérias no Caderno de Leituras sobre Herman Melville, Jack London ou Malraux, sobre Baudelaire ou Rimbaud, autores aventureiros ou transgressivos.

Levado por outra figura anárquica do jornalismo, seu conterrâneo Tarso de Castro, colaborou no Pasquim. Integrou a equipe dos inovadores Bondinho e Ex. Em 1975, deu sua grande contribuição à florescente imprensa alternativa daquela década, com Versus, jornal-ponte, encontro de diferentes vozes, tendências e preocupações, reduto da resistência interessado em tudo o que fosse revolucionário e instigante, a ponto de publicar, em primeira mão, o Van Gogh de Artaud. Propunha-se ao diálogo latino-americano, à aproximação com o restante do continente, pelo concurso de Eduardo Galeano (cuja Crisis tomava como modelo), Diana Belessi e outros. De modo pioneiro, abriu uma editoria para movimentos afro-brasileiros, e acompanhou de perto grupos e movimentos feministas.

Ao ar livre

Foi uma realização da sincronicidade encontrar Faerman em 1977, e este imediatamente convidar-me para fazer uma seção dedicada à poesia em um jornal que, desde o primeiro número, me pareceu, de toda a imprensa alternativa, aquele onde gostaria de escrever. Cito o episódio como um dos inumeráveis exemplos de seu generoso empenho em publicar e divulgar todos aqueles em quem vislumbrasse competência para alguma coisa.

Descontente com o alinhamento de Versus, deixou-o em 1978, para criar a revista Singular e Plural. Eclética, fervilhante, durou apenas seis números; certamente, não por falta de assunto e substância, mas por excesso. A ecumênica redação, com Audálio Dantas como editor, Cláudio Abramo e Rodolfo Konder, em parceria, na editoria de Internacional, e outros jornalistas de primeira linha, abria-se para então estreantes como Miguel de Almeida e Leão Serva (assim como, em Versus, havia-se feito notar Wagner Carelli, entre tantos outros em evidência que começaram ou se projetaram nas publicações de Faerman).

Dedicou-se, também, à comunidade judaica, editando Shalom e a revista da Hebraica. Esteve à frente da tentativa de uma edição brasileira de Crisis, que durou dois números. Lecionou jornalismo na PUC de Santos e, ultimamente, na Cásper Líbero, responsável por um arrojado jornal-laboratório, Esquinas. Depois de organizar eventos culturais em outros lugares, como o SESC, dirigiu, de 1993 a 1995, o Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura.

Pode ter surpreendido, ao escolher o patrimônio histórico, e não uma assessoria de comunicações. Mas, jornalista-historiador, repórter-arqueólogo, para ele vanguardismo e resgate da memória eram faces da mesma moeda. Saber enxergar o passado conferia solidez a suas inovações. Em 1994, comemorou os 40 anos do IV Centenário de São Paulo a seu modo: ao mesmo tempo, no Solar da Marquesa, a exposição fotográfica sobre os anos 1950; no andar de cima do casarão histórico, a instalação de Guto Lacaz, alegoria do período; lançou a revista Cidade, toda de depoimentos; durante o Carnaval, em pleno marco zero da cidade, promoveu um festival de teatro ao ar livre incluindo a ousada encenação dos Mistérios Gozosos por Zé Celso.

Prazer e atenção

Evocar mortos faz sentido quando deixam algo a ser apontado como modelo, lição de vida. No caso de Faerman, principalmente a valorização da cultura literária, em seus cursos, palestras e artigos sobre história da reportagem. Condensado, seu ideário jornalístico está no que escreveu para a coletânea Repórteres, preparada por Audálio Dantas (Editora Senac, 1998). Novamente, traçou uma história do jornalismo e da reportagem indissociável daquela da literatura, ao começar em Heródoto e passar por Daniel Defoe e todos os escritores que foram cronistas de seu tempo.

Reiterou a equiparação de John Reed, James Agee e Tom Wolfe, e John dos Passos, André Malraux e Steinbeck. Insistiu em que o jornalista tem que ler muito, pesquisar, vasculhar bibliotecas, sebos, livrarias, bancas. Jamais deixou de praticar essa recomendação: leitor voraz, quantas vezes não me telefonou, entusiasmado pela descoberta, em alguma loja de livros baratos, dessa ou daquela obra que, por algum motivo, merecia interesse.

Marcão, como o chamavam, foi o inimigo da burocratização do jornalismo, da edição segundo fórmulas e modelos. O defensor da grande reportagem, do jornalismo-aventura, no qual é preciso ir lá, envolver-se; o oposto do que é feito nas mesas da redação, recebendo informações passivamente das agências, quando muito checando-as pelo telefone. Chegou, por isso, como repórter, a desvendar crimes. O estilo literário nunca o impediu de obedecer ao requisito fundamental da precisão e clareza nos quando, onde e o que. A capacidade de aliar criatividade à informação factual fez que recebesse tantos prêmios, inclusive o Esso. A eloqüência e cultura o levaram a ser convidado a dar cursos e palestras.

Será lembrado, creio, como o mais radicalmente literário dos nossos repórteres. Sua coletânea Com as mãos sujas de sangue (Editora Global, 1980) merece releitura pelas ousadias até hoje insuperadas, as reportagens na primeira pessoa, em tom de crônica, monólogo interior e prosa poética. Não-linear, encaixava histórias dentro de histórias; metalingüístico, interrogava-se sobre o que estava acontecendo; procurava, especialmente em dramáticas matérias sobre grupos indígenas extintos ou em desaparição, apontar para a informação perdida, o não-dito, os silêncios irreversíveis.

Deixou textos que se sustentariam fora do âmbito jornalístico, e seriam lidos com prazer e atenção se apresentados como ficção. Nada tenho a retificar ao que escrevi sobre ele, na ocasião, em dez páginas de prefácio. E teria muito, muito mesmo, a acrescentar.

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Poeta, ensaísta e tradutor

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