Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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TV EM QUESTãO > TELESUR

As possíveis diferenças

Por Marcelo Salles em 25/07/2005 na edição 339

Na sexta-feira (22/7) houve um ato público na Lapa (Rio de Janeiro) para saudar a recém-inaugurada Telesur, emissora que pretende ser uma alternativa à mídia corporativa [veja remissão abaixo].

Tudo corria bem. O documentário A revolução não será televisionada, que mostra o golpe midiático-militar sofrido por Hugo Chávez em 2002, foi exibido com sucesso; faixas e cartazes passaram a decorar os Arcos da Lapa e a panfletagem estava bem organizada. Devia haver umas cem pessoas, entre organizadores, o pessoal da venda local e curiosos que paravam para ver aquilo tudo.

Foi então que um colega me intimou ao microfone. Eu deveria falar alguma coisa sobre a Telesur. Desastre. Sou péssimo para essas coisas. Não lembro direito o que falei, como falei e nem quanto tempo falei. Só sei que fiquei extremamente envergonhado, pois senti que não havia agradado, apesar de meu ouvido acusar tímidas palmas. Mas o mesmo colega, sincero que só ele, trouxe o conforto da certeza: ‘Marcelo, como você fala mal!’.

Então, como eu falo mal, vou aproveitar este espaço para escrever tudo aquilo que eu gostaria de ter falado, mas que a timidez crônica não permitiu. Eu começaria mais ou menos assim:

‘Um estudante de 14 anos brincava na laje de sua casa, na favela da Rocinha, quando foi assassinado brutalmente com um tiro na cabeça. O noticiário informou: ‘Troca de tiros causa lentidão no trânsito’.

Um famoso âncora do telejornalismo brasileiro afirma que a única saída para o problema da violência no Rio de Janeiro é cercar a favela da Rocinha, construir casas populares e dar um prazo para todos se mudarem. Depois, joga-se uma bomba e fim de papo, pois nesse raciocínio só vai ter ficado lá dentro quem é bandido. Dotado de grande consciência ecológica, o âncora em questão registra ainda que sua proposta é reflorestar a área explodida.

O noticiário nos informa que seres humanos investem milhões numa sonda para Marte enquanto milhões de seres humanos passam fome na Terra.’

Unidos, os governos de Venezuela, Cuba, Argentina e Uruguai investem numa emissora de televisão para a América Latina, cujo objetivo é integrar os povos, divulgar suas culturas e informar sem o filtro dos grupos econômicos que hoje controlam os meios de comunicação de massa.

O nome dessa emissora é Telesur. Caso ela já estivesse funcionando, algumas modificações em minha fala deveriam ser feitas. Vejamos como ficaria:

‘Um estudante de 14 anos brincava na laje de sua casa, na favela da Rocinha, quando foi assassinado brutalmente com um tiro na cabeça. O noticiário da Telesur informou: ‘Um jovem, com uma vida inteira pela frente, foi morto pela insanidade humana’.

Um âncora da Telesur afirma que a única saída para o problema da violência da América Latina é construir escolas e investir pesado num Estado de Bem-Estar Social, em que exista uma política de pleno emprego. E se lhe disserem que isso é impossível, então ele responderia: ‘Que tal tentar?’.

O noticiário da Telesur nos informa que seres humanos investem milhões em outros seres humanos. Não há sondas para Marte, por enquanto, até que se resolvam os problemas da Terra.’

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Editor do FazendoMedia

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