Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > FAMÍLIA E TELEVISÃO

Bem mais que dominação e subordinação

Por Mônica Costa em 17/10/2005 na edição 351

Com mais de 50 anos em operação comercial no país, a televisão está presente em 90% dos lares brasileiros, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Para detectar as características da convivência entre a televisão e a família, produziu-se uma série de entrevistas com 41 membros de 13 famílias de classe média, residentes em Natal (RN). Os resultados da pesquisa, desenvolvida nos meses de abril-maio e outubro-novembro de 2004, estão publicados na dissertação de mestrado ‘Família e televisão: mais que dominação e subordinação’, disponível na Biblioteca Central Zila Mamede, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A seguir serão analisados alguns resultados da pesquisa.

Ainda que esteja havendo um aumento do número de aparelhos nas casas de classe média, a escolha sobre a quais canais ou programas de televisão assistir não é decisão do próprio receptor individualmente, porque a ação de ver TV ainda é realizada em grupo e, por isso, pressupõe negociações e o estabelecimento de regras. A família desempenha papel-chave na assimilação-negociação das mensagens midiáticas e interfere de maneira significativa nessas escolhas. A própria definição do que é um programa bom ou ruim é fruto da aprendizagem nos longos períodos de interação entre a família em frente à televisão. Há semelhanças nas leituras dos vários membros de uma mesma família quanto ao papel da TV na sua vida, quanto ao que os motiva a assistir à programação, e quanto ao como lidam com este veículo.

Quando se dispõe a falar do seu envolvimento cotidiano com esse ‘eletrodoméstico’, o sujeito deixa transparecer a emoção que a TV lhe suscita – seja de raiva, por se sentir ‘manipulado’, seja de amor, por se sentir ‘ligado ao mundo’ através dela. De certo modo, para o sujeito, a televisão é o seu complemento, os olhos com os quais enxerga o outro, o mundo, a realidade que está além da sua humana capacidade e, ao mesmo tempo, por não serem ‘seus’, são olhos dos quais desconfia num processo contínuo de interiorização-exteriorização das mensagens.

Quando vêem televisão, os entrevistados procuram ‘informação e companhia’, com maior predominância de ‘companhia’ e ‘informação’ para as mulheres e apenas ‘informação’, para os homens. A maioria dos entrevistados afirma que vê pouca TV, embora isso não seja o que aparece nas demais respostas, pois comentam os programas e os personagens, localizando horários, emissoras etc. Todos têm dificuldade de mensurar o tempo de audiência dedicado à televisão, embora assumam que esta faz parte da sua rotina diária e o manifestem seu desconforto nos momentos de falta – como quando o aparelho apresenta defeito, por exemplo. Percebe-se, assim, uma nítida contradição entre o discurso antitelevisão, assimilado e reproduzido pela classe média, em comparação à sua prática cotidiana.

Adolescentes e adultos

O papel da televisão como agenciadora da pauta de assuntos discutidos na sociedade torna-se perceptível quando quase todos os entrevistados do grupo admitem discutir temas relacionados à TV em outras esferas de suas vidas, como trabalho, escola e até no lazer. As tramas de novelas e os noticiários são os assuntos mais comentados. A transposição das situações propostas-vividas na televisão para a vida real dos indivíduos se justifica para eles pelo papel da TV como o principal provedor de informações na contemporaneidade. É esse papel de provedor universal o determinante da importância assumida pela televisão na formação do imaginário social. Em outras palavras, o conteúdo da mensagem televisiva é um dos componentes do corpo de representações que sustentam a organização social.

Até os anos 1980 os televisores ficavam localizados no ambiente onde eram recebidas as visitas; atualmente eles estão, predominantemente, nos quartos ou na área de refeições. Esta espécie de ‘migração’ do aparelho dentro das casas pode demonstrar que o ato de ver TV tornou-se uma atividade íntima e que só diz respeito à própria família; ou ainda que esta seja uma forma de evitar polêmicas ou constrangimentos que possam ser suscitadas por temas-situações apresentados pela televisão. Por outro lado, no que se refere à destinação dos espaços domésticos, percebe-se que a televisão subverte, em parte, a norma de que cada espaço tem a sua função específica e bem definida – à medida que as pessoas organizam as suas rotinas domésticas em função do televisor, podendo fazer as refeições no quarto ou na sala, dependendo da localização desse aparelho.

Quando o assunto é o conteúdo, entretanto, mesmo havendo classificações orientadoras para as diversas faixas etárias nos programas, não se observam grandes diferenças entre pais e filhos, adultos e crianças, no que diz respeito à audiência. Todos vêem a mesma programação indistintamente. A separação, quando ocorre, se dá muito mais pelo interesse dos espectadores em programas específicos do que por regra moral.

No que toca à influência da mensagem televisiva sobre a família, a diferença de opiniões é mais evidente. Nos núcleos familiares em que a faixa etária dos filhos é pequena (menos de dez anos), a percepção das mães é de que a televisão agrega a família porque elas ficam junto com os filhos para ver TV. Quando os filhos são adultos ou adolescentes, a percepção das mães-pais é que a TV desagrega a família.

Esse quadro permite a inferência de que quando os filhos são pequenos, talvez seja somente em frente à TV o único momento em que os pais conseguem mantê-los quietos. Quando os filhos já têm uma intensa atividade fora de casa, nos momentos em que os membros da família se encontram os pais gostariam de saber dos filhos sobre a sua vida fora do ambiente doméstico, da qual não participam, mas a televisão impede a conversa.

Outro aspecto que chama a atenção é que os filhos adolescentes ou adultos (que moram com os pais) também acham que a TV agrega porque a família se junta para ver TV. Essa diferença de opinião pode demonstrar que a necessidade e a percepção de união da família são diferentes entre pais e filhos adolescentes-adultos.

Concordância e discordância

Um dado que parece caracterizar dois lados de uma mesma moeda vem à tona na opinião de ambos os grupos sobre semelhanças e diferenças entre família na TV e a família na vida real. Enquanto os pais destacam conflitos nas novelas ou cenas de violência nos telejornais como fatores que desagregam as famílias, os filhos adolescentes-adultos apontam a autonomia e independência apresentada na família televisiva e que na sua opinião não acontece na família real.

A comparação entre as respostas de um mesmo núcleo familiar e entre as dos vários núcleos aponta na direção de que existe um padrão ou modelo de respostas intra-núcleo e que partes desse padrão aparecem nos núcleos familiares descendentes. Assim, determinados valores e práticas vão sendo reconstituídos nas famílias mais jovens, mesmo que tais valores sejam reformatados a fim de que se adaptem às condições externas do presente. Explica-se, deste modo, como a segregação social, uma prática histórica da classe média em relação aos mais pobres, vai se renovando por meio de novas justificativas como a da violência, por exemplo.

O desejo de retro-alimentação e preservação da estrutura familiar interfere na definição do que é bom ou mau, de acordo com os critérios de adequação dos conteúdos da programação televisiva a tais objetivos. Entretanto, percebe-se que não há, no momento da escolha da programação a ser vista, uma sintonia entre o interesse na preservação da estrutura familiar e as subjetividades do sujeito que, em última análise, determinam o seu desejo de fruição – gerando, assim, a contradição entre o ato de ver e o de classificar como bom; ou, dito de outra forma, entre o discurso e a prática.

A audiência, inclusive a dos programas cujas mensagens subvertem a norma familiar, é justificada com discursos de exaltação da estrutura familiar através da confirmação ou do confronto com as situações apresentadas pela televisão. Assim, as situações que ‘agregam’ a família servem como exemplo a serem seguidos e os que ‘desagregam’, como o que não deve ser feito.

A partir da leitura e interpretação desses dados, é possível afirmar que a família utiliza a televisão, seja pela concordância ou pela discordância, como instrumento de confirmação dos princípios, valores e crenças construídos e repassados na própria família, ao mesmo tempo em que esses funcionam como canais de filtragem e classificação da mensagem televisual.

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Jornalista e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A pesquisa ‘Família e Televisão: mais que dominação e subordinação’ integra o temário do 4º Telecongresso Internacional de Educação de Jovens e Adultos (Brasília, 18 a 20 de outubro/2005).

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