Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Brasil descartou cooperação com China

Por Eduardo Lorea em 16/01/2006 na edição 364

A principal razão para o abandono da cooperação entre Brasil e China no desenvolvimento de um sistema de televisão digital foi um problema de timing. A informação é de Igor Vilas Boas de Freitas, representante do Ministério das Comunicações e coordenador do Grupo Gestor do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD). Segundo ele, o período necessário para a formatação do padrão daquele país, atualmente em curso, ainda é longo. ‘O sistema chinês ainda está em desenvolvimento, e a previsão de disponibilidade deles está muito além da nossa, algo em torno de 2010’, alega. A Administração de Rádio, Audiovisual e TV do Estado (SARFT, na sigla em inglês), entretanto, anuncia que tudo estará pronto para a transmissão dos jogos olímpicos de Beijing em 2008. Em 2003, quando apresentou sua contribuição ao governo federal, o FNDC já alertava sobre a ‘omissão em relação a alternativas emergentes, como a tecnologia chinesa’. Para o Fórum, que acompanha este debate desde 1999, a China adotava ‘soluções tecnológicas de perfil socioeconômico muito mais próximas do que as dos países que originaram as três tecnologias hoje dominantes’.


O intercâmbio com a nação asiática poderia ser vantajoso para o Brasil. A construção de uma solução conjunta poderia eliminar, por exemplo, a necessidade de pagamento pela utilização das tecnologias atualmente em estudo – a americana ATSC, japonesa ISDB e européia DVB. ‘Eles estão desenvolvendo todos os sistemas de codificação e descodificação, com um dos objetivos de pagar menos royalties’, confirma Freitas.


De fato, a imprensa chinesa noticiou que, caso o país adotasse o padrão dos Estados Unidos, pagaria em royalties o equivalente a US$ 1,6 trilhões para substituir os atuais 400 milhões de aparelhos de TV analógicos – 29% do total do planeta – por digitais. O cálculo é baseado no valor médio de US$ 40 pagos a título de royalties em cada receptor pelos consumidores da Coréia do Sul. No Brasil, existem cerca de 60 milhões de receptores e calcula-se que os gastos com a transição seriam de R$ 10 bilhões em 10 anos.


Argumentos para parceria


Além disso, as dimensões do mercado do país mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, dariam margem de escala que viabilizaria economicamente uma solução sino-brasileira. ‘Qualquer que seja a tecnologia que empregarem, a economia deles dá uma escala tal que qualquer um que se associar a eles pode se beneficiar’, afirma Miguel Cipolla Júnior, ex-diretor da Sociedade de Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações (SET) e ex-superintendente de Engenharia da TV Bandeirantes, que, no desempenho das funções, em 2002, recebeu uma delegação chinesa para iniciar o intercâmbio, esforço logo abandonado.


As demandas dos dois países em relação ao novo sistema também justificariam uma aproximação, acredita Cipolla Júnior. ‘As premissas deles são exatamente o que o Brasil busca: transmissão direta de sinal com altíssima robustez, para garantir boa recepção em qualquer ambiente, mobilidade e portabilidade, para ter recepção em dispositivos portáteis, e domínio do middleware, que também estamos buscando. Se a gente desenvolvesse entendimento com a China, poderíamos ter uma solução que atenderia às necessidades próprias de cada um dos países’, sustenta.


Interesse não-correspondido


Os relatos de diversos envolvidos nesta decisão indicam que o interesse do governo chinês em estabelecer uma parceria com o Brasil não foi correspondido. Em 2003, confirmou Igor Vilas Boas de Freitas, uma missão do país asiático esteve em Brasília para tratar do assunto. A seguir, representantes do Minicom retribuíram a visita. ‘Depois, as tratativas se encerraram’, diz Cipolla. Até o fechamento desta edição, o e-Fórum esperava um retorno de Augusto Gadelha, ex-coordenador do Grupo Gestor, que esteve na China para conhecer as pesquisas.


O problema, reafirmou, era a demora no processo de produção da tecnologia. ‘Esse desenvolvimento (dos sistemas de codificação e decodificação) feito integralmente, consome muito tempo, de três a cinco anos. Depois é preciso submeter à União Internacional de Telecomunicações (UIT). É uma pena, porque poderia ser uma opção boa, se estivesse pronto, se o `timing´ fosse mais casado’, afirma. Representante da Casa Civil no Grupo Gestor do SBTVD, André Barbosa lembra outro motivo para o fim das conversações. ‘Uma das razões é que naquela época houve troca de ministro. Foi na gestão do ministro Eunício Oliveira’, afirma.


‘Nós tentamos fazer com que essa intenção se concretizasse, mas havia muitos entraves dipolomáticos e burocráticos. Todas as ocasiões que eu tentei estabelecer algum elo, eu não conseguia o caminho correto’, lamenta Cipolla Júnior. O engenheiro, entusiasta de uma possível solução sino-brasileira, conta ter questionado representantes do Minicom sobre o abandono das negociações em um seminário recente. ‘A resposta que obtive era que nós estávamos em condição de desenvolvimento bastante adiantada, o que questiono. A China está em avançado desenvolvimento, e houve grandes investimentos nessa tecnologia. Mas me parece que houve um fechamento das eventuais possibilidades de interação. Houve receio de aproximar-se’, diz.


De acordo com Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, os contatos podem ser retomados. ‘Se houver interesse, podemos retomar o intercâmbio, porque por parte da China ele existe. Podemos providenciar a ida de um grupo brasileiro ou a vinda de um grupo chinês’, afirmou. Em outubro de 2003, a entidade promoveu um simpósio em São Paulo para apresentação dos trabalhos em curso no país asiático. Entretanto, apesar dos declarados interesses de aproximação, a cooperação não prosperou.


Os padrões chineses


Duas universidades chinesas trabalham em parceria com empresas dos Estados Unidos em padrões diferentes. A Tsinghua University http://www.tsinghua.edu.cn/eng/, de Beijing, associada à Legend Silicon, é responsável pelo desenvolvimento do Digital Multimedia Broadcasting-Terrestrial (DMB-T), e a Jiao Tong University http://www.sjtu.edu.cn/english/research/overview/02.htm, de Shangai, em conjunto com a Linx Electronics, pelo Advanced Digital Television Broadcasting (ADTB-T). Em princípio, o governo chinês escolherá entre um dos dois a opção do País.


Os dois padrões destinam-se à transmissão terrestre – o país adotou temporariamente o padrão europeu DVB para as transmissões por cabo e satélite – e, no início de 2005, estavam em testes para operação comercial em oito províncias. A principal vantagem já verificada em testes de transmissão do sinal do DMB-T é que ele necessita de muito menos energia para cobrir a mesma área do que seus concorrentes.


Chips 100% nacionais


Para dominar toda a tecnologia envolvida na digitalização da televisão, a China lançou e testou – com sucesso – em 2005 o primeiro chip para TV digital 100% desenvolvido no país. O desempenho do Zhongshi 1 foi considerado superior ao dos similares americanos e europeus em termos de sensibilidade e capacidade de resistência à trepidação, além de ser muito mais barato. Ele foi desenhado para operar apenas com sistema DMB-T, mas cientistas do país já apresentaram outro produto adaptado a todos os padrões.


No final do mesmo ano, a imprensa chinesa noticiou ainda o lançamento do chip Phonix II, também de tecnologia nacional, pelo Instituto de Tecnologia de Computação da Academia Chinesa de Ciências. O aparato é compatível com tecnologias de codificação e decodificação de áudio e vídeo utilizados pelos padrões de outros países, o H.264 e o MPEG-4, além do Audio Video coding Standard (AVS) chinês. Além de muito mais barato, Phonix II é 30% menor do que os chips já existentes.

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Da Redação FNDC

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