Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > 30 ANOS SEM VLADO

Carlos Marchi

14/10/2005 na edição 350


‘O hoje senador Romeu Tuma (PFL-SP), à época chefe do serviço de informações do Departamento de Ordem Política, Econômica e Social (Deops), da Secretaria de Segurança de São Paulo, foi a primeira autoridade do regime militar a denunciar o jornalista Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura paulista.


A revelação consta da ata de uma reunião da comunidade de informações, localizada no Arquivo do Estado de São Paulo e revelada pelo livro Meu querido Vlado, do jornalista Paulo Markun, preso com Herzog. O livro será lançado em 9 de novembro.


O senador Romeu Tuma confirmou ao Estado a existência da ata, mas disse não aceitar ser responsabilizado pelo destino de Herzog. Ele alega ter cumprido a sua atribuição à época – repassar informações que identificassem focos de subversão ao regime: ‘Há uma distância oceânica entre isso e o que aconteceu com o jornalista Vladimir Herzog’, disse. Alegou que foi ele quem preservou a documentação do Deops, entregando-a ao governo paulista.


´ELEMENTO COMPROMETIDO´


A ata, cujo fac-símile é mostrado no livro, reporta uma reunião em 10 de setembro de 1975, 45 dias antes da prisão e morte de Herzog pelo DOI-Codi paulista. Na reunião, Tuma disse: ‘Que o canal 2, através de seu departamento de jornalismo, está fazendo uma campanha sistemática contra as instituições democráticas e esse fato foi notado após ter assumido a direção daquele departamento o jornalista Wladimir (sic) Herzog, elemento sabidamente comprometido.


‘ Na biografia que mantém em seu site pessoal, o senador omite o cargo de chefe do serviço de informações e a posterior chefia do Deops. Segundo o livro, os ataques a Herzog como diretor de jornalismo da TV Cultura, iniciados imediatamente após sua contratação, ganharam lógica e foram reforçados pela denúncia de Tuma. Antes de contratar Herzog, o então secretário de Cultura José Mindlin consultara o chefe do escritório do Serviço Nacional de Informações (SNI) em São Paulo, coronel Paiva, que deu o ‘nada consta’.


‘Há uma distância oceânica entre a ata e o que aconteceu com Herzog’, diz Tuma


No dia em que Herzog começou a trabalhar, 4 de setembro de 1975, um editor antigo pôs no ar uma matéria sobre Ho Chi Min, líder do Vietnã do Norte, visto como poderoso símbolo comunista. Surpreendido, Herzog mandou suprimir a matéria do jornal da noite e demitiu o editor que a programou à tarde.


No dia seguinte, 5 de setembro, a matéria foi denunciada por Cláudio Marques, notório simpatizante do regime militar, que escrevia uma coluna no jornal Shopping News.


A partir de uma sucessão de movimentos de bastidores e publicações em jornais que apoiavam a repressão, foi articulada uma escalada contra a nova direção de jornalismo da TV Cultura. No dia 7, Marques publicou outra nota, bem mais provocativa, vinculando a direção de jornalismo da Cultura ao PCB.


A denúncia de Tuma veio na esteira, no dia 10. Numa das reuniões habituais da comunidade de informações para coletar e avaliar denúncias, o delegado mencionou a contratação de Herzog e o acusou de ser um ‘elemento comprometido’.


Como última etapa da escalada, as prisões começaram a acontecer no dia 29 de setembro, quando foi detido José Montenegro de Lima, que fazia o contato da base dos jornalistas com o PCB e morreria, a seguir, durante o interrogatório, assassinado com uma injeção para sacrificar cavalos.


Em 24 de outubro, Herzog foi procurado na TV Cultura por uma equipe do DOI-Codi, que acabou concordando com sua apresentação no dia seguinte, quando prestaria depoimento. Herzog se apresentou na manhã do dia 25 e horas depois estava morto.


O regime militar insistiu na versão de que ele teria se suicidado, mas em 1978 a Justiça condenou o Estado brasileiro a pagar indenização por sua morte à viúva Clarice Herzog.’



TODA MÍDIA


Nelson de Sá


‘Empurra-empurra’, copyright Folha de S. Paulo, 14/10/05


‘Vem o ministro e diz, por toda a cobertura, a começar da Globo, que ‘negocia liberar R$ 78 milhões com a Fazenda, verba que estava prevista, mas foi cortada’.


Vem o presidente da República e diz, também por toda a cobertura e a começar da Globo, que ‘não faltou dinheiro para o controle da doença’.


É de constranger o jogo de empurra entre Lula e seu ministro, este apoiado no ruralista Ronaldo Caiado, nos sites.


Nem se descobriu ainda o que aconteceu, mas sobram insinuações quanto à origem paraguaia do foco de febre aftosa -ou, pior, suposições de bioterrorismo dos sem-terra.


Faça a escolha. São versões.


Enquanto presidente e ministro da Agricultura se enfrentam em público, pelo mundo avançam as negociações comerciais, com mais pressão contra os subsídios à agricultura.


O chefe da Organização Mundial do Comércio saiu dizendo ontem, em sites como ‘New York Times’, que as conversas ‘levantaram vôo’.


A ‘Economist’ defendeu em editorial e reportagem a proposta americana de corte nos subsídios e saudou a nova fase, ‘desde que Japão e Europa respondam em espécie’:


– Pela primeira vez em um bom tempo, os protecionistas soam um pouco nervosos. É o bastante para dar aos demais um pouco de esperança.


Entre possíveis favorecidos, citou um só, o Brasil.


Jornais como ‘Financial Times’ e outros seguem na cobertura diária sublinhando que o Brasil ‘lidera os países em desenvolvimento na busca de corte drástico no subsídio dos ricos a seus fazendeiros’.


Não faltou ontem, registre-se, artigo opinativo no ‘Wall Street Journal’, intitulado ‘Os ventos da mudança’, saudando o esforço de George W. Bush para reerguer as negociações.


No texto, a ironia de que a recente proposta americana ‘é consistente com a proposta oferecida pelo Brasil, o país menos favorito dos EUA’. Era referência à crescente concorrência de ambos, na agricultura.


AS CHANCES DE MR. LULA


O ‘Financial Times’ noticiou ontem a eleição de Ricardo Berzoini para presidente do PT como ‘uma importante vitória de Lula conforme ele tenta deixar para trás o escândalo de quatro meses’. Ela acontece após ‘a vitória crucial na Câmara’ e, para o jornal:


– Os dois fatos vão fortalecer as chances de reeleição de Mr. Lula da Silva no ano que vem.


A nova edição da revista ‘Economist’, também avaliando os dois acontecimentos, é mais contida. Destaca que, ‘depois dos escândalos, Lula reage, mas seus problemas ainda não acabaram’. Ou ainda, ‘o pior provavelmente já passou, mas isso não quer dizer que o melhor já está por vir’. Sobre 2006:


– Lula continua um líder carismático capaz de ganhar um segundo mandato (embora a maioria dos comentaristas diga que não vai). Mas o carisma não levanta mais a expectativa de progresso e reforma.


Veneno


A Globo tinha até entrevista com o filho do legista do caso Celso Daniel, que falou desde o ‘Bom Dia Brasil’ do testamento deixado pelo pai, mas a escalada do ‘Jornal Nacional’ tratou do ‘envenenamento’, nada mais. Talvez por ‘terceiros’, segundo um promotor.


Na pressa


De sua parte, os blogs políticos de Jorge Moreno e de Ricardo Noblat, que haviam abraçado o ‘assassinato’ no dia anterior, fugiam das novas teses globais ontem o dia todo. O segundo chegou a postar:


– Na pressa, não esqueçamos os erros clamorosos cometidos pela mídia ou pela polícia. Ou pelo Ministério Público.


Execuções


Do outro lado, o site Carta Maior, ligado aos movimentos sociais, e a home page do UOL destacavam um relatório que ‘revela a política de execuções sumárias nas ruas e nos presídios de São Paulo’.


O texto dizia que ‘o governo Alckmin é acusado de omissão e conivência pelas entidades que elaboraram o documento’.


O santo


E d. Luiz Flávio Cappio chegou lá. Fez a ‘Economist’ debater longamente em sua nova edição, com mapas, declaração de Ciro Gomes e o título ‘O bispo e o santo’, a transposição das águas do São Francisco.’


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