Quarta-feira, 24 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1010
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Carta Capital

09/09/2008 na edição 502


INTERNET
Felipe Marra Mendonça


Google lança o Chrome para enfrentar a Microsoft, 5/9


‘A guerra entre a Microsoft e o Google era, até agora, travada em pequenas
trincheiras estratégicas e pontuais. O Google criava alternativas on-line para
programas como o Word ou o PowerPoint. A Microsoft respondia à inovação, ao
inventar o Live, ferramenta de buscas competente, mas sem chance ante o líder.
Uma empresa tentava estocar a outra em áreas sensíveis, mas não era uma
competição direta por um mesmo mercado, com produtos semelhantes.


O Google Chrome (http:// www.google.com/chrome) muda completamente esse
panorama. Ele é um navegador e bate de frente com o Internet Explorer, da
Microsoft. Ou seja, o Google quer uma fatia do mercado conquistado pela
Microsoft ao longo dos anos, em que três quartos de todos os usuários utilizam o
Explorer para navegar pela internet.


A idéia de um navegador criado pelo Google era fonte de boatos desde 2004,
mas o lançamento parece ter sido acelerado pelas inovações que a Microsoft
pretende colocar na versão 8 do Explorer. Grande parte do sucesso do Google está
em coletar informações sobre as propagandas que vendem pela internet: se são
efetivas, como e onde o usuário clica os banners que as contêm. O novo Explorer
inclui mudanças que bloqueiam essa coleta de informações e cria uma nova
experiência voltada para uma gama de serviços Microsoft. Isso significaria uma
perda de receita enorme se os usuários de internet de repente usassem os
produtos Google.


Aí entra o Chrome, com inovações interessantes. As abas que separam páginas
ficam acima da barra de endereços e a página principal mostra miniaturas dos
seis sites mais usados pelo usuário, com conteúdo atualizado. Algo como uma
lista dos mais discados, que foi sacada pelo navegador Opera há tempos. O mais
importante é o modo como o navegador trata cada página. Normalmente, um
navegador abre páginas, faz cálculos e desenha tudo de forma linear, como se
estivesse numa fila. Se uma das páginas tiver um problema, ela ficará travada, e
o navegador terá de ser fechado. O Chrome individualiza cada página dentro do
que os engenheiros do Google chamam de ‘caixa de areia’. Assim, se uma travar,
as demais continuam perfeitamente em ordem e o usuário não perde nada do que
fazia.


Essa é a outra aposta do Google com o navegador. Cada vez mais os usuários
utilizam navegadores como sistemas operacionais. Escrevem textos, checam
e-mails, ouvem música, usam programas de mensagens instantâneas, tudo hospedado
na internet, não no computador.


Com isso, o Google espera que os usuários finalmente tenham um estalo e
digam: ‘Puxa, eu não preciso mais do Windows, do Word, do PowerPoint, do
Messenger, do Media Player, está tudo aqui nos serviços do Google, dentro do
Chrome’. Esse insight talvez seja demorado, mas acaba de se tornar um dos piores
pesadelos da Microsoft.


Mesmo que o Chrome seja mais um entre os navegadores que competem pela
atenção de usuários, digladiando-se com o Explorer, o Firefox e o Safari, da
Apple, as inovações que trouxe são benéficas para todos, porque estimulam os
competidores a melhorar seus produtos. Só mesmo a tecnologia para gerar um
embate com bons propósitos.’


 


 


MÚSICA
Pedro Alexandre Sanches


Eu também existo, eu também sou gente, 4/9


‘Em seu blog Ruído, Pedro Alexandre Sanches fala sobre a morte do cantor
Waldick Soriano, e faz notar o curto espaço de tempo em que se foram dois ícones
da música brasileira –Soriano e Dorival Caymmi.


‘Os dois fatos históricos próximos e paralelos dão margem a um mergulho nos
conflitos e contradições envolvidos na relação do País com a música dita
‘popular’ brasileira e, de modo mais amplo, consigo próprio’, analisa Pedro. ‘Em
outro plano, dão margem também a uma reflexão sobre o modo como costumam ser
reportados esta música e este País, inclusive jornalisticamente.’


Pedro também aponta a dificuldade que o jornalismo cultural encontra para
elogiar Soriano, tido pela maioria das pessoas como um representante emblemático
do ‘brega’, estilo popular e fora do radar da crítica musical no País, ao mesmo
tempo em que pululam as odes que louvam Caymmi.


‘Tecer homenagens a Caymmi ou escrever sobre a vida e a morte do mito é
relativamente fácil. Se ele não chegava ser a unânime até o mês passado, agora
pode por ora se tornar, inclusive pela ternura e pela comoção que nortearão os
que sentem sua falta e os que escreverão sobre o grande artista morto’, explica
o crítico musical de CartaCapital. ‘Mas e a morte de Waldick Soriano, cantor
rotulado como ‘cafona’ ou ‘brega’, e nem de longe uma unanimidade, como há de
ser tratada? Quão profundas podem ser as interpretações e as homenagens a esse
outro artista, independentemente de quanto você gostava ou não gostava dele
(e/ou de Caymmi)?’


Continue a ler a análise de Pedro Alexandre Sanches em seu blog.’


 


 


JUCA PATO
Rosane Pavam


Grande e simples, 5/9


‘Antonio Candido, o maior crítico literário brasileiro, fez 90 anos e ganhou
o troféu Juca Pato, alusivo a uma criação do cartunista Belmonte, neste mês de
agosto. A estátua escurecida de Juca Pato confere um tremendo reconhecimento
intelectual a quem a recebe, embora Candido dispense o que se possa dizer dele
hoje, seja bom, seja mau.


Havia muito, um amigo mais velho do crítico, o escritor Oswald de Andrade
(Oswáld para ele), provocara-o e a seus companheiros da revista Clima, Décio de
Almeida Prado e Paulo Emilio Sales Gomes, entre outros, chamando-os de
chatoboys. Hoje não há quase ninguém para se lembrar desta expressão que,
contou-me Décio em uma entrevista antes de sua morte, em 2000, sempre divertiu
os atingidos. Restou ao público o Antonio Candido sacralizado como a Vitória de
Samocrácia.


Mas nem o próprio crítico parece sentir conforto neste lugar em que o
colocaram, acima de todos e de tudo. Este grande intelectual provou seu vigor e
a face bem-humorada durante a entrega do Juca Pato na Faculdade de Direito do
Largo São Francisco, no último dia 20. A cerimônia marcada para as 19h começou
cerca de quarenta minutos depois, dada a inexistência de um auditório repleto.
As cadeiras ficaram por muito tempo vazias por conta do trânsito irascível da
cidade. O tráfego intenso, contudo, não alterou a rotina do próprio crítico,
pronto para seus espectadores muito antes de o espetáculo começar.


Candido é forte, mesmo sentado sobre o estofado vermelho da cadeira de
madeira longa, em que seu corpo fica mal diagramado, pequeno demais. Ele está
sereno, com a face que parece se repetir há pelo menos três décadas, sem que o
tempo a altere. Tem, ademais, um bom gesto para quem discursa seu favor:
aproxima as mãos uma da outra em sinal de prece e abaixa a cabeça, como um
oriental.


Sentado na grande cadeira, espera o que dele têm a dizer a União Brasileira
de Escritores, a Academia Brasileira de Letras, a Associação de Alunos Veteranos
da São Francisco e Fábio Konder Comparato. Este jurista exaltou seu personalismo
e sua cordialidade, qualificando o homenageado, numa só adjetivação, como uma
persona cordial. A leitura que Comparato faz do termo adotado por Sergio Buarque
de Holanda é a de um homem que respeita o outro. Não o tolo passivo. Não aquele
que, sugere o adjetivo, submete a racionalidade ao coração.


Não, ninguém ousaria dirigir ao combativo Candido a pecha de acomodado,
servil, submisso. Ele é um dos nossos duradouros socialistas. Ele é o homem que
sistematizou a crítica literária brasileira ao colocar fundações na formação de
nossa literatura. Ele é quem procura os tipos anônimos destacados das
personalidades, como fez em Os Parceiros do Rio Bonito ou Um Funcionário da
Monarquia.


Pois foi este Antonio Candido quem, durante a cerimônia que tinha sede
naquela faculdade onde estudara, disse jamais tê-la concluído como deveria, já
que não conseguira passar em um dos exames, nem de segunda época. Desse
insucesso ele guarda um diploma de burro, a que sempre recorre quando alguma
sombra de vaidade extrema ameaça perturbá-lo. Fizera, ademais, sete anos de
curso em lugar de cinco, porque ainda precisara atravessar uma temporada de
estudos pré-jurídicos antes de começar de fato a encarar os livros de Direito.


Foi Antonio Candido, principalmente, quem disse, naquela noite, ter aprendido
com as críticas semanais de cinco laudas, destinadas à Folha da Manhã, a
escrever com a clareza que se poderia associar, inadvertidamente, a anos de
estudos profundos. Mas a academia não lhe deu isso, nem mesmo a ele, o maior
crítico. A lida com o jornal e seu leitor formaram esta escrita transparente que
é uma das melhores entre a de todos os outros eruditos brasileiros.


Para Candido, será sempre necessário situar o intelectual e sua importância.
Não mistificá-lo, não fazê-lo crescer mais do que o justo, enquanto deve
prosseguir o trabalho de dar a importância devida a quem jamais a mereceu dentro
do meio. Por exemplo, no número 37 da revista Discurso, editada pela Alameda
(442 págs., R$ 38), Candido escreve no artigo A Importância de não Ser Filósofo
a respeito do professor de filosofia Jean Maugüe, integrante da Missão Francesa
que inaugurou, junto à italiana e à alemã, a Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da Universidade de São Paulo, nos anos 30:


Percebendo provavelmente que não poderia exigir de nós o que se exigia de um
estudante francês, procurou ajustar o ensino à situação local. Dizia, por
exemplo: ‘Quero que a filosofia lhes sirva para ler melhor o jornal, analisar
melhor a política, compreender melhor o seu semelhante, entender melhor a
literatura e o cinema.’ Com estas idéias, se não formou filósofos, influenciou a
vida intelectual de seus alunos.


Mas dava também conselhos marcados pelo rigor, digamos específico, como este
que não esqueci: o estudante de filosofia deveria concentrar-se na leitura de
uma obra difícil, lendo, relendo, refletindo sobre cada conceito, esclarecendo
cada palavra, até compreendê-la completamente, em todos os níveis. É um trabalho
lento e penoso, mas ao cabo o estudante seria capaz de refletir e adquirir a
verdadeira cultura.


Jean Maugüe é o personagem de Candido por excelência. O esquecido que a
história oficial não saberá incluir, porque sua grande obra não foi escrita. Em
1982, conta ele, Maugüe fez publicar o livro de memórias Lês Dents Agacées, seu
texto de maior vulto, e recebeu uma resenha no Le Monde na qual o historiador
Fernand Braudel tocou em um ponto essencial: o autor escreveu o livro a fim de
perguntar a si mesmo a razão pela qual alguém tão capaz como ele nada produzira
que mostrasse quem realmente era.


Há Magües onde não os vemos. Não nos esqueçamos deles, como não seria
possível atenuar a lembrança do maior intelectual entre nós.’


 


 


 


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