Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

TV EM QUESTãO > PÂNICO NA TV

Clodovil não é humilde, e daí?

Por Cezar Scanssette em 15/03/2005 na edição 320

Um par de sandálias, um estilista de moda e dois humoristas. Em jogo a medida para a humildade, ou da humilhação a que se pode chegar. E tudo isso via televisão, num show da vida real. Trata-se do troféu ‘sandálias da humildade’, criado pelo programa Pânico na TV, que durante oito semanas perseguiu o apresentador de televisão Clodovil Hernandes. Mas, então, calçar as benditas sandálias torna alguém mais humilde? Difícil afirmar. Clodovil, ao final, foi demitido da emissora que abriga o Pânico, por outros motivos, divulgou-se em relatos da diretoria da empresa. Quanto aos personagens do Pânico, até hoje dão entrevistas e são notícia em revistas semanais.

Forçar uma pessoa à humildade é o mesmo que humildá-la, ou seja, é humilhar. Qualquer dúvida, basta recorrer ao dicionário Aurélio, por exemplo. Nele, se observa que humilhar é tornar humilde, rebaixar, oprimir e abater, entre outros conceitos. Mas, no mesmo livro entende-se que humilde tem relação com modéstia, pobreza, simplicidade. Em comum, mais ainda, humildade e humilhação têm com a submissão, ao sujeitar-se a algo ou alguém. Não esquecer ainda que humilhar é tratar com desdém, com soberba.

Em recente entrevista à revista Época, Rodrigo Scarpa, que representa o Repórter Vesgo no Pânico, respondeu de forma curiosa a uma pergunta simples. A repórter queria saber se, às vezes, ele não passa do limite e humilha as pessoas. ‘Claro que não. Como que a gente humilha?’, devolveu Scarpa. A charada começa a se resolver, então, da seguinte forma: o Vesgo não se vale dos conceitos de humildade e humilhação constantes do dicionário. Talvez o dicionário precise de uma atualização, neste caso. Ou talvez ele, o Vesgo, só conheça o significado prático do que fala. Apropria-se de noções comumente utilizadas, mas somente compreendidas quando confrontadas com um suposto elemento antagônico. Assim, pressupõe-se que humildade é o contrário de arrogância (insolência, atrevimento, soberba), aquele orgulho que se manifesta por atitudes altivas e desdenhosas.

Se o Pânico na TV queria um Clodovil humilde, então o queria menos arrogante ou simplesmente queria humilhá-lo, forçá-lo à submissão, àquilo que, no programa humorístico, consideram humildade. De qualquer forma, é lógico afirmar que seria arrogante a atitude de alguém em querer forçar um outro à humildade.

Ao prosseguir com a entrevista, Wellington Muniz, o Sílvio Santos do Pânico, complementou que Clodovil não calçou as ‘sandálias’, sofreu da ‘maldição’ e ‘perdeu o emprego’. Afirmou que Clodovil foi a outra emissora de TV e calçou as ‘sandálias da humilhação’, desta vez para pedir emprego. Disse também que somente as sandálias do Pânico é que fazem efeito, que são as legítimas. ‘Não adianta, ele vai continuar arrogante e nós demos um fim nessa história, porque ninguém agüenta mais essa perseguição’, disse à revista. Desta forma, ele confirma utilizar-se de conceitos diferentes para humildade, para arrogância e para humilhação. Mas também responde a outra questão, escondida entre suas palavras: justamente o reflexo do poder que as ‘sandálias’ investiram aos humoristas do Pânico na TV.

Adversários novos

Para Clodovil não restou muita defesa. Em seu programa de televisão, quando podia falar ao vivo, ele chegou a contra-argumentar que preferia a bondade, segundo ele algo inerente a sua pessoa, ante a humildade oferecida pelo Pânico. Lançou as ‘sandálias da coragem’, mas não se sabe quais efeitos decorreram disso a seu favor. Ele resistiu às ‘sandálias da humildade’, mas pereceu a sua imagem, a sua aceitação junto à opinião pública.

Ao fim, a campanha do Pânico foi um sucesso. O que sinaliza que a disputa é outra, não pela medida da humildade, como se pode supor inicialmente. É pela simpatia da audiência, pelo prevalecer de uma verdade, conseqüentemente, a verdade que mais convém ao momento. Portanto, não é demais afirmar que perseguir Clodovil e sua resistência a calçar as ‘sandálias’ do Pânico alimentaram a audiência dos dois programas de televisão, o humorístico dominical e a revista diária de variedades. Alimentou também debates em programas vespertinos de outras emissoras de televisão. Quer dizer, foi comercialmente oportuno.

As ‘sandálias da humildade’ e todo o trabalho do Pânico têm lá suas qualidades, reconheçamos. Sílvio e Vesgo conseguem escrachar certos círculos da sociedade. Criticam aqueles que sobrevivem de aparições na televisão, mas mostram pouco talento em suas profissões. Fazem o espectador rir dos malabarismos que ‘socialites’ e artistas se prestam a executar. Contudo, a mesma atitude crítica e divertida parece ter escapado ao limite, ao controle, tal qual uma metralhadora giratória em piloto automático. Atualmente a coisa tomou certo freio, conforme revelou Wellington Muniz (o Sílvio): há mais prudência nas críticas.

Não resta dúvida sobre quem foi vítima de quem nas ‘sandálias da humildade’. O humorismo do Pânico na TV foi vítima dele mesmo. Na investida contra Clodovil, quem perdeu a humildade foi o pessoal do Pânico, que não poupou esforços em seu intento. E não lhes falta modéstia quando tratam do assunto, o que se observa nas próprias palavras dos humoristas na revista Época. Mas conseguiram explodir a opinião pública contra Clodovil, que já não era tido como dos mais simpáticos e carismáticos apresentadores da televisão.

Se a questão era uma disputa por audiência, venceu o Pânico na TV, que agora, entretanto, precisa de novos adversários para manter o monstrinho que criou, ou seja, eleger novos alvos para as ‘sandálias’, ao menos enquanto isso parecer engraçado para o espectador de televisão.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/09/2010 lucas wanderley

    O SUCESSO DO PÂNICO NA TV É UM RETRATO DE COMO A SOCIEDADE BRASILEIRA SE SENTE BEM COM A HUMILHAÇÃO AO PROXIMO, SEJA ELE FAMOSO OU NÃO. O HUMOR VERDADEIRO É ENGRAÇADO, NÃO HUMILHANTE. OBRIGADO

  2. Comentou em 24/03/2005 Cezar Scanssette

    TARCÍSIO MOTA, comerciante e editor de revistas em São Paulo, prazer em receber seu comentário. Concordo que o Pânico é um programa ímpar e, principalmente aos domingos, é uma opção para os telespectadores. Agora, discordo quando, em relação ao meu artigo, você considera que eu deveria exaltar o escracho. Quando enviei o texto ao Observatório, a Marinilda, da equipe que administra o site, questionou-me sobre o fato de o Pânico se dar ao direito de humilhar as pessoas com suas brincadeiras, ou seja, com vistas à diversão do público, enquanto o Clodovil, em seu programa, humilhava as pessoas que entrevistava de forma séria. Apresentar programas de televisão é uma profissão como qualquer outra, exige ética, postura. Assim como é profissional o humorístico do Pânico. A questão que levantei é que até o humorístico tem limites, assim como o escracho tem limites. Fazer piadas não isenta as pessoas de qualquer responsabilidade. É como se o piadista fosse encarado sempre como uma criança que deve ser desconsiderada, relevada em suas atitudes. Quando se tornar enfadonho o humor do Pânico o que eles farão para recuperar a audiência? Até onde são capazes de ir? A medida é exatamente até onde o público se agrada.

    RENATO AUAR, estudante de jornalismo, congratulações. Li a revista Superinteressante deste mês, a qual traz uma reportagem que aborda justamente este sentimento que temos em ver celebridades em situações constrangedoras, humilhantes. Obviamente, o pessoal do Pânico e o seu trabalho foi abordado nesta matéria. Gostamos, todos nós, mesmo, do “tosco” (mal acabado, como disse o Zurita, do Pânico), do escrachado e da humilhação, desde que nada disso seja conosco e sim com as celebridades, principalmente aquelas que conquistam a antipatia do telespectador. Gostamos disso e, quando o Vesgo e o Sílvio vão à cata de celebridades, esperamos que eles façam alguma coisa constrangedora com as pessoas (artistas, socialities, etc.). Rimos às gargalhadas disso. Só não rimos quando alguém dá o troco no Vesgo ou no Sílvio. Quando alguém entra no “espírito” da piada e não se deixa constranger. Aí não tem graça! Eles só são engraçados quando alguém se irrita, perde a compostura, agride. Humorismo não é só isso, não se restringe dessa forma. Renato, discordo, outrossim, quando você diz que o meu texto tenta induzir que o Pânico se destina a instruir ou educar o telespectador. Não disse isso em nenhuma linha, ou entrelinha do texto. Acho que há um equívoco na sua interpretação. Discordo também quando diz que “a intenção de humilhar não significa não humilhar o entrevistado” (???). Novamente recorre-se à “inocência” do humorista que, por sua irreverência deveria ser relevado de qualquer responsabilidade sobre o que faz. Contudo, concordo com você, Renato, que as “celebridades” são pessoas que já se humilharam de diversas formas para aparecer na televisão

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