Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº930

TV EM QUESTãO > Cultura x entretenimento

Como a publicidade influi na produção de programas culturais

Por Lars Erick em 19/12/2016 na edição 928

O objetivo do trabalho é mostrar como a teoria “A Influência do Jornalismo”, capítulo do livro Sobre a Televisão, de Pierre Bourdieu, explica a ausência de produtos/programas televisivos culturais na Rede Globo de Televisão. Para isso é preciso entender como funcionam os órgãos de difusão de informação e como os campos econômicos e políticos os afetam, levando em conta todos os aspectos teóricos propostos por Pierre Bourdieu no capítulo.

Embora o capítulo se chame “A influência do Jornalismo”, ele não se refere ao suposto poder de influenciar os telespectadores e moldar a opinião pública ao seu favor, como no filme O 4º Poder, de Costa Gavras. No entanto, o capítulo põe em vista todas as influências que os mecanismos jornalísticos sofrem, tendo em vista a interferência de campos externos, avaliando especificamente o jornalismo televisivo.

Com o passar dos anos, a evolução do jornalismo foi adquirindo termos e regras inexplícitas; como o desenvolvimento da televisão, começando com o barateamento do custo do aparelho televisivo e tornando um bem comum na casa do brasileiro. Com o aumento dos números de públicos possíveis veio a necessidade de utilizar linguagens universais para atingi-los, o que no texto é comparado com o surgimento da literatura industrial.

Assim como um produto, os jornais e programas televisivos são comparados por números de venda, ou seja, a quantidade de pessoas que consomem aquele determinado canal, naquele determinado momento. A partir do número de pessoas que assistem ao programa é possível cobrar mais caro por propagandas, anúncios e patrocínios, pois, teoricamente, atingiria mais pessoas. A necessidade de continuar produzindo telejornais e vendendo anúncios publicitários cria a primeira interferência de campos, os interesses do campo econômico influenciam o campo jornalístico, fazendo produzir o maior número de matérias possíveis, no menor tempo possível. Sendo assim, os jornalistas são os mais propensos a adotar “os critérios de audiência” (fazer o simples, para o entendimento de todos e em um curto espaço de tempo).

O grau de autonomia de um órgão de difusão se mede, sem dúvida pela parcela de suas receitas que provém da publicidade e da ajuda do Estado (sob a forma de publicidade ou subvenção) e também pelo grau de concentração de anunciantes” (Pag.: 104 a 105 do livro Sobre a Televisão).

Também foi adotado pelo jornalismo um signo de velocidade, que é necessário transmitir as notícias em tempo real, e com o passar dos anos, o público absorveu essa ideia e criou esta fetichização da notícia, cobrando do jornalista uma produção em maior escala, mas na mesma carga horária. Isto afeta a qualidade da notícia produzida, empobrecendo a construção do texto e apuração dos fatos, levando em alguns casos a precipitação. A mecanicidade se torna habitual no jornalismo, podendo comprar o que era considerado por Otto Groth como produção cultural, hoje pode ser visto como a alienação do trabalho, teorizado por Karl Marx.

Visando satisfazer a sede por atualidades do público, e manter o seu emprego, o jornalista tem sua autonomia de criação ditada por pautas e prazos para cumprir. Seu campo de atuação também é interferido por fatores internos da própria empresa, que é afetada pelo campo econômico. Além destas, o tempo de uma notícia é estipulado pela emissora, delimitando o espaço do jornalista para trazer argumentos, pontos e contra pontos da notícia, o impedindo de aprofundar o assunto.

Outro fator que influência o modo em como os produtos culturais são desenvolvidos é a necessidade do jornalismo se auto afirmar objetivo e imparcial, com o intuito de manter a velha ideia de que o apresentado em telejornais são de fato a realidade, esquecendo que os produtores jornalísticos e os métodos utilizados na produção da notícia são um recorte do fato a partir de convicções políticas individuais. Estes auto afirmamentos são intitulados por Pierre Bourdieu como alodexia, que também pode ser observado em outros campos, como o jurídico.

Utilizando os mesmos critérios das grandes emissoras, entre todos os programas da TV aberta brasileira, o programa com maior número em audiência, segundo o Ibope, é o Jornal Nacional, que passa no horário nobre da Rede Globo. A emissora tem os melhores números que a concorrência em todos seus programas. Abaixo, os dados de audiência nas praças de Porto Alegre e Recife com base no ranking consolidado do Ibope dos dias 28/11 a 04/12.

Audiencias IBOPE Globo
Audiencias Record Ibope
Audiencias Band Ibope
Audiencias SBT Ibope

Muito dinheiro, pouca cultura

Como podemos analisar, a Globo tem o maior número de telespectadores e com isso suas receitas também são as maiores. Justamente por disponibilizar de tantos recursos, visa mantê-los, utilizando todos os métodos apresentados. Também influenciados pelo campo econômico, não há programas culturais realizados pelo Globo, tão pouco possui reportagens culturais.

Utilizaremos o conceito de cultura de Raymond Williams, que considera cultura atos de reação em relação aos acontecimentos individuais da vida de cada um, como citado no texto: “A história da ideia de cultura é a história do modo por que reagimos em pensamento e em sentimento à mudança de condições por que passou a nossa vida. Chamamos cultura a nossa resposta aos acontecimentos que constituem o que viemos a definir como indústria e democracia e que determinaram a mudança das condições humanas. […] A ideia de cultura é a resposta global que damos à grande mudança geral que ocorreu nas condições de nossa vida comum.” (1969, p. 305).

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizada em 2010, 77% dos entrevistados acreditam que o contato a programas culturais são caros, o que dificulta o acesso de grande parte da população. Com isso, vivemos em um país onde a maioria da população não tem acesso à cultura e no qual as grandes emissoras se isentam de levar cultura aos telespectadores, por comodidade e medo de “errar com a audiência” e consequentemente perder dinheiro.

Se para as pessoas ter dinheiro significa ter maior acesso à cultura (literatura, música, arte críticas), ironicamente, quanto mais dinheiro uma emissora tem menos autonomia ela tem sob si mesma, e mais engessada é sua grade de programação. Os únicos programas produzidos pela Globo, intitulados por eles mesmo como culturais (de novo alodoxia), são respectivos as próprias produções institucionais, como novelas, séries ou filmes.

Também há os programas de auditório, como o Altas Horas, que tentam disfarçar esta ausência de jornalismo cultural trazendo atores e atrizes da Globo que fazem peças de teatro fora da TV, mas com investimento da própria emissora.

Ao que parece, a Globo utiliza-se de sua forte importância no mercado para delimitar o que é cultura, fazendo com que a grande massa entenda que esta seja entretenimento. Pelo menos, a trata como se fosse.

***

Lars Erick é estudante de jornalismo

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