Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 17 E 18/5

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20/05/2008 na edição 486

ELEIÇÕES NOS EUA
Antonio Tozzi

A mídia na campanha de Obama, 19/5

‘Miami (EUA) – Ainda não está confirmado, mas poucos têm dúvidas de que Barack Obama será ungido o candidato oficial do Partido Democrata na convenção de agosto.

A pá de cal sobre a candidatura Hillary Clinton parece ter sido jogada por John Edwards, ex-senador da Carolina do Norte, que desistiu da corrida pela indicação do partido após sentir que não conseguia ir além da terceira opção, atrás portanto dos favoritos Obama e Hillary. Esta semana Edwards confirmou estar apoiando Obama e, segundo os analistas, este tipo de suporte sela o destino da candidatura democrata.

John Edwards, que disputou a eleição presidencial de 2004 como candidato a vice na chapa democrata encabeçada pelo senador John Kerry, é importante por ter boa aceitação junto aos trabalhadores brancos, segmento que tem dado sustentação a Hillary Clinton, como foi comprovado na última primária em West Virginia, onde ela derrotou Obama com ampla vantagem.

Ele acompanha o próprio Kerry, Ted Kennedy, Bill Richardson e outros próceres do partido no apoio a Obama, o que torna praticamente irreversível a situação de Hillary Clinton, que, ao contrário do que sugerem alguns partidários, não dá sinais de que desistirá, e pretende disputar todas as primárias até o dia 3 de junho.

Analisando friamente, ela está certa. O discurso da senadora por Nova York é o de que todos os eleitores democratas têm o direito de se manifestar, inclusive os de Michigan e da Flórida, que tiveram suas primárias invalidadas.

Os fãs de Obama estão exultantes. Afinal, ele representa a verdadeira mudança enquanto o casal Clinton usa métodos nem sempre limpos para alcançar seus objetivos.

É discutível. Apesar de reconhecer em Obama um bom candidato, ficou claro que a mídia americana usou dois pesos e duas medidas. As gafes de Obama eram geralmente relevadas, enquanto as de Hillary eram exacerbadas. As intervenções de Bill Clinton eraM duramente criticadas, por ser um falcão da política. Já a de Michele Obama perdoadas, por se tratar de uma neófita. Hillary chegou mesmo a condenar esta postura da mídia, que vê sempre em Obama um idealista e nela uma pessoa sem escrúpulos que não mede esforços para vencer.

Isso passou para o eleitorado que passou a enxergar os Clinton como inimigos em vez de meros adversários dentro do sistema de disputa estabelecido pelo partido. Pior, procuraram o tempo todo transformar o fato de que eleger um negro seria um fator de transformação e renegaram o passado dos Clintons que justamente tiraram os negros da base da pirâmide social e os inseriram na sociedade americana, além de Bill ter feito uma excelente gestão econômica e Hillary ser uma defensora da justiça social através do welfare, que garante uma assistência básica aos menos favorecidos.

Já falando como provável candidato oficial, Obama está tentando manter uma postura de estadista e conclama Hillary Clinton a se juntar à sua campanha na busca do objetivo comum: recolocar um democrata de volta na Casa Branca. A senadora, por sua vez, vem reafirmando que independente de quem seja o indicado o partido marchará unido para a vitória em novembro, implicitamente aceitando a derrota.

Como citou o analista Peter Beinart na revista Time, os admiradores de Obama adoram criticar os Clintons, mas se esquecem que sem o casal Clinton nunca poderia haver Barack Obama. Eles fizeram o trabalho sujo para colocar a casa em ordem (desmontada pelo sucessor) e abriram caminho para novas lideranças. Cabe a Obama provar ser ele o político certo para esta missão.

(*) Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de S. Paulo. Vive nos EUA desde 1996, onde foi editor da CBS Telenoticias Brasil e no canal de esportes PSN. Atualmente é editor da revista Latin Trade e do jornal AcheiUSA. Fonte: Direto da Redação’

PROFISSÃO PERIGO
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Repórter sai ileso de atentado na Grande SP, 16/5

‘Edson Ferraz, repórter na TV Diário, afiliada da TV Globo em Mogi das Cruzes, Grande São Paulo, voltava sozinho na noite de quinta-feira (15/05) de São Paulo para sua cidade quando um Voyage preto, com dois homens ainda não identificados, interceptou o veículo da emissora em que ele estava. Um homem encapuzado deu dois tiros contra ele. Ferraz estava no bairro de Rodeio. Ele procurou a polícia na manhã de sexta (16/05).

O jornalista vem trabalhando em reportagens que envolvem policiais civis, que cobrariam propina para garantir o funcionamento de casas de prostituição e outras ilegalidades.

O caso foi investigado pelo Ministério Público de São Paulo. Treze homens do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) podem estar envolvidos e já respondem a processo.’

***

Polícia encontra carro que pode ter sido usado em atentado contra repórter, 19/5

‘O Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) encontrou no sábado (17/05) um Voyage preto com placa CIN 6882 de São Paulo na Vila Natal, periferia de Mogi das Cruzes (SP). O carro, abandonado na madrugada de sexta-feira (16/05), quatro horas depois do atentado sofrido pelo repórter Edson Ferraz, da TV Diário, afiliada da TV Globo, pode ter sido usado por dois homens que tentaram atirar contra o jornalista. Policiais chegaram até o local por de uma denúncia.

Ferraz, que deve fazer o reconhecimento do automóvel, contou que um dia antes do atentado recebeu um telefonema alertando para possíveis represálias às reportagens que fez sobre o suposto envolvimento de 13 policiais civis que cobrariam propina para garantir o funcionamento de casas de prostituição e outras ilegalidades.

Peritos não encontram nenhum vestígio de pólvora ou cápsulas de revólver no veículo.

SJPSP e Abraji se manifestam

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) se disse preocupada com a tentativa de matar Ferraz. Informou que espera um trabalho intensivo das autoridades ‘para a rápida elucidação do crime, de modo a levar os responsáveis a responder por ele na Justiça’ e que ‘continuará acompanhando o caso e cobrando resposta das autoridades’.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo (SJPSP) pediu providências urgentes e manifestou ‘sua preocupação com a integridade física dos profissionais de jornalismo que, com freqüência cada vez maior, têm sido alvo de ataques violentos em função de matérias que expõem mazelas como corrupção e desrespeito a direitos civis’. Informou que ‘vai encaminhar ofício ao secretário de Segurança Pública no Estado de São Paulo, Ronaldo Marzagão, pedindo rigor na apuração do caso e punição dos responsáveis pelo atentado’.

Atentado

Ferraz voltava sozinho na noite de quinta-feira (15/05) de São Paulo para sua cidade quando um Voyage preto, com dois homens ainda não identificados, interceptou o veículo da emissora em que ele estava. Um homem encapuzado deu dois tiros contra ele, que não teve ferimentos.

O jornalista registrou ocorrência na Corregedoria da Polícia em São Paulo.

(*) Com informações do Portal G1 e do SPTV.’

TV PÚBLICA
Marianna Senderowicz

Reestruturação da TVE-RS pode envolver unificação com outras TVs públicas, 16/5

‘A proposta de unificar a TVE-RS com as TVs Assembléia, Câmara e Prefeitura começou a ser discutida em nível político no Rio Grande do Sul. Em reunião realizada em 15/05, representantes da emissora e da Câmara de Vereadores de Porto Alegre analisaram a idéia de, a partir da tecnologia digital, unificar as transmissões dos canais com o objetivo de racionalizar custos.

‘Basicamente, seria necessária a compra de um transmissor, antena e um multiplexador. De resto, a maioria das TVs já capta em digital’, explica James Görgen, vice-presidente do Conselho Deliberativo da Fundação Cultural Piratini – que engloba a TVE e a FM Cultura. Na prática, todos os veículos utilizariam o mesmo sistema de transmissão, mas as programações seguiriam individualizadas. ‘Com a digitalização, qualquer canal atual poderá transmitir até oito programações simultâneas em qualidade de DVD, duas em HDTV ou uma em HDTV e quatro em SDTV. É com esta última idéia que estamos trabalhando.’ Assim, não haveria compartilhamento de horário de grade, mas de canal, que seria escolhido pelo público via controle remoto. ‘Aí está a racionalização e a economia.’ A tecnologia digital, que por enquanto só funciona nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, deve chegar ao estado sulista em março do ano que vem.

Conforme Görgen, o presidente da Câmara, Sebastião Melo, e os deputados gaúchos se mostraram favoráveis à unificação. ‘Não há obstáculos de parte das TVs menores. A Prefeitura, que sequer possui uma TV, seria uma das maiores interessadas, assim como o presidente da TVE, Airton José Nedel, é parceiro da idéia e a secretária de Cultura, Mônica Leal, também. Mas não sabemos o que pensa o restante do Grupo de Trabalho nomeado pela governadora Yeda Crusius’, afirma.

Questões políticas

O representante da TVE informa que não há previsão para um encontro com os representantes do governo. ‘Estamos solicitando isso há tempos. Ontem (15/05) mandei um novo e-mail reforçando o pedido ao presidente da TVE.’

Os próximos passos do debate também incluem uma audiência pública na Assembléia e reunião entre as procuradorias da Câmara e da Assembléia para discutir um modelo jurídico para firmar o acordo de compartilhamento. ‘A concessão segue sendo da Fundação Piratini.’

Na visão do vice-presidente do Conselho Deliberativo, o maior entrave à aprovação da proposta está em nível político. ‘A questão é saber como partidos diferentes, que controlam as três esferas de governo, conviveriam. É preciso criar uma estrutura pública, ou seja, suprapartidária, para que ninguém fique refém desse ou daquele administrador.’’

MICROBLOG
Bruno Rodrigues

Twitter: esse ‘treco’ merece tanta atenção?, 15/5

‘Eu sigo meu amigo Wolfrido no Twitter. A cada atualização que ele faz em sua ‘página-perfil’ – www.twitter.com/wolfrido -, eu fico sabendo de imediato, via web ou celular, sobre o que ele está fazendo. ‘Com sono, no metrô’, encabeçava a lista de mensagens da manhã de hoje. ‘Fechando matéria, temo não sobreviver ao cansaço’, foi seu comentário na hora do almoço. ‘As pessoas são estranhas’, dizia a última, publicada há dez minutos. Confesso que não entendi, mas compreendi.

Afinal, as pessoas *são* estranhas. Por que cargas d’água as tecnologias de comunicação e/ou relacionamento têm sempre que vir a público sem, digamos, o trabalho de um bom assessor de imprensa para aparar as arestas necessárias? A primeira imagem que fica, nestes casos, é de um punhado de ferramentas que parecem ter saído de um laboratório de cientistas loucos para servirem de ‘brinquedinhos’ nas mãos de pós-adolescentes viciados em tecnologia e sem nada para fazer na vida. O que, definitivamente, não é verdade.

Mas vá convencer um cliente, assim que ‘brotar’ uma nova ferramenta, que é algo para se levar a sério – é pôr a conta em risco. É preciso deixar que o mainstream absorva a idéia, que a mídia vire a novidade do avesso e que o mercado enxergue potencial financeiro na ferramenta para, aí sim, você poder abordar os clientes. ‘Ah, Twitter, já ouvi falar!’ será a senha para você vender seu peixe sem correr risco de vida.

Sejamos realistas, precisamos, mesmo, enfrentar esta via-crúcis?

Afinal, o Twitter *é* útil. Da mesma forma que descobrimos, aos poucos, que o YouTube não tinha apenas lixo, que as redes sociais como Orkut e Facebook não eram brincadeira de adolescente, que o msn, os feeds de RSS e as mensagens de texto via celular adiantam a nossa vida e que os blogs fincaram, de vez, o pé no Jornalismo.

Tudo isso só é possível, claro, se for explicada a utilidade de cada ferramenta. Assim como meu amigo Wolfrido não existe e foi apenas criado para ilustrar este texto, não há utilidade em um perfil do Twitter que ‘alugue’ os ‘followers’ – os seguidores, aqueles que assinam um perfil – com baboseiras tipo ‘Meu computador deu pau’ ou ‘Por que os bancos têm porta giratória?’ (ótima questão, mas não para o Twitter).

É preciso que a real utilidade dos ‘cellphone alerts’ – como a ferramenta é renomeada para os leigos – seja explicada. Um exemplo: você sabia que foram os usuários do Twitter que ‘furaram’veículos como a BBC.com e o The New York Times.com quando o terremoto da China ainda estava acontecendo? Quem seguia estes usuários ficou sabendo em tempo (mais que) real. Segundo alguns dizem, o Twitter foi capaz até de furar o próprio United States Geological Survey que prevê – ou deveria prever -terremotos…

Como isso pode ser aproveitado pelo Jornalismo Online? Ponha um repórter no lugar do cidadão, e – voilà! – está criado um novo tipo de ‘breaking news’. Aconteceu, ele insere a notícia no Twitter e o leitor pode checá-la na primeira página do noticioso na web ou recebê-la diretamente no celular se ele for um ‘follower’ do perfil do veículo em questão. Sem precisar passar por processo de edição alguma, sem atravessador, direto da fonte para o receptor da informação.

Faça uma tentativa: crie seu perfil no Twitter (em www.twitter.com) e procure seus amigos por lá. Além disso, cheque a página do Wolfrido – será que ele não existe, mesmo? – e depois assine www.twitter.com/nyt_world só para sentir o gostinho.

Depois, dê retorno – será que valeu a pena conhecer o Twitter?

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A próxima edição de meu curso ‘Webwriting & Arquitetura da Informação’ terá início em 03/06, no Rio de Janeiro. Para quem deseja ficar por dentro dos segredos da redação online e da distribuição da informação na mídia digital, é uma boa dica.

As inscrições podem ser feitas pelo e-mail extensao@facha.edu.br e outras informações podem ser obtidas pelo telefone 0xx 21 2102-3200 (ramal 4). Até lá!

(*) É autor do primeiro livro em português e terceiro no mundo sobre conteúdo online, ‘Webwriting – Pensando o texto para mídia digital’, e de sua continuação, ‘Webwriting – Redação e Informação para a web’. Ministra treinamentos em Webwriting e Arquitetura da Informação no Brasil e no exterior. Em sete anos, seus cursos formaram 1.300 alunos. É Consultor de Informação para a Mídia Digital do website Petrobras, um dos maiores da internet brasileira, e é citado no verbete ‘Webwriting’ do ‘Dicionário de Comunicação’, há três décadas uma das principais referências na área de Comunicação Social no Brasil.’

JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu

Horror dos horrores, 15/5

‘estou sobrando.

em volta, o silêncio

montando guarda

(Nei Duclós in Fome)

Horror dos horrores

Lula poderá entrevistar jornalistas na TV, escreveu o Clipping TV, que citou a Folha de S. Paulo como fonte:

O presidente Lula poderá entrevistar jornalistas em um novo programa de TV. É o que pretende a TV Brasil, a rede pública lançada por Lula em 2007.

Um dos quatro novos programas jornalísticos que a TV Brasil prepara para o segundo semestre, o ‘3 a 1’ reunirá três pessoas ‘debatendo, conversando, entrevistando ou provocando’ uma personalidade, segundo Orlando Senna, diretor-geral.

Em um determinado momento, haverá inversão de papéis. O entrevistado vira entrevistador. ‘O presidente da República poderá entrevistar jornalistas’, exemplifica Senna.

Janistraquis, razoavelmente versado na obra de Edgar Allan Poe, tomou um susto:

‘Considerado, Lula como entrevistador deve ser o horror dos horrores, algo assim como aquela coisa que cometia os crimes da Rua Morgue…’.

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Conversa fiada

Diante da besteira generalizada, pede-se licença para uma pequena observação; ao Brasil pouco importa se são brancos ou negros os futuros doutores, pois a pergunta é: terão competência? Que bichos sairão dessas universidades cujo ‘ensino’ é feito nas coxas? O resto é pura balela e conversa de quem não tem o que fazer.

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A arte de pensar

O considerado José Paulo Lanyi, que durante muito tempo foi nosso colega aqui no C-se, envia alguns comentários de Michel de Montaigne (1533-1592), os quais ‘nos ajudam a tolerar, sobreviver e aprender em meio à burrice geral e aos embates que valem a pena’.

Reunidos em A Arte da Conferência (2004, Martins Fontes, tradução de Rosemary Costhek Abílio e Mario Laranjeira), os comentários que fazem a cabeça de Lanyi ‘nos mostram também, com acerto (o que é mais importante), a nossa intolerância e as situações em que agimos sem refletir, na ânsia de vencer uma discussão. Devemos, pois, nos corrigir.’

Sobre discutir com tolos, escreveu Michel Eyquem, senhor de Montaigne:

‘É impossível discutir de boa-fé com um tolo. Nas mãos de um amo tão impetuoso, não apenas meu julgamento se corrompe, mas também minha consciência. (…) Só aprendemos a discutir para contradizer e, cada qual contradizendo e sendo contraditado, advém que o fruto da discussão é pôr a perder e aniquilar a verdade’

Leia no Blogstraquis outros e fundamentais ensinamentos. E leia também aqui o polêmico artigo de Lanyi no Observatório da Imprensa.

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Ah, se tem!

Passa um anúncio na TV cujo slogan é ‘você por cima’. Janistraquis, que não confia nem no cofrinho do ministro da Fazenda, está convencido de que aí tem…

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Eis uma verdade

O considerado Camilo Viana, diretor de nossa sucursal em Belo Horizonte, cujo prédio faz parede-meia com o Palácio da Liberdade, descobriu por que o governador Aécio Neves tanto namora o PT:

Sozinho, um homem não é nada… Nem corno!

Aliás, aproveite para ler o artigo que Camilo Viana escreveu especialmente para o Blogstraquis, no qual desanca o texto de Janio de Freitas na Folha de S. Paulo de terça-feira, 13, intitulado Fatos sem reservas.

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Humor negro

Piadinha que percorre a internet nesses tempos pavorosos:

Um maníaco escolhe sua vítima e caminha com ela por um parque bem distante do centro urbano; embrenham-se pela mata quando, a certo ponto, a vítima comenta:

– Puxa, estou ficando com medo!

E o maníaco:

– Você com medo? Imagine eu que vou voltar sozinho!

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A conta da causa

Janistraquis consultou vários professores de respeito e deles obteve a seguinte informação, a qual, com o maior respeito, repassa aos jornalistas cuja formação profissional não foi nenhuma Brastemp:

‘A expressão por conta de, utilizada ad nauseam por aí afora, não é substituta para a velha e boa por causa de, pois conta é conta e causa é causa; basta pegar a frase reajuste causa aumento na conta de telefone e fazer a substituição reveladora: reajuste conta aumento na causa do telefone.’.

Pois é, este mês a gente ainda não pagou a causa do telefone.

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Nei Duclós

Esse guerreiro dos versos assesta o verbo na vereda da cidade sacana que nos abandona à inanição. Leia no Blogstraquis a íntegra do poema cujo fragmento encima esta coluna.

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Terceiro mandato

Os considerados Péricles Alvear Ribeiro, de São Paulo; Érica Martins de Andrade, do Rio, e Jamila Moreira Dias, de Porto Alegre, são alguns dos 32 leitores (até agora, dez da manhã de quinta-feira, 15/5) que escreveram para denunciar o artigo de Rui Martins no site Direto da Redação como ‘panfleto golpista’. Péricles lembra que é fácil pedir mais um mandato para Lula quando se mora na Suíça…

Leia aqui o artigo de Martins, o qual compara Lula a Roosevelt, que exerceu o poder nos EUA por 12 anos, e Miterrand, presidente francês durante 14 anos. Janistraquis, que nem conhece a Suiça, faz pequeno adendo ao clamor:

‘Não podemos esquecer que Hitler também ficou 12 anos no poder e foi aquilo que se viu…’.

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A arte da manchete

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto, de cujo varandão debruçado sobre a sem-vergonhice geral é possível ver o interior do solar presidencial onde Lula paga, do próprio bolso, diárias aos ministros, no intuito de evitar as tais ‘sacanagens’, pois Roldão ilustrava-se nas páginas do Correio Braziliense quando deparou com o titulaço:

Só parte dos servidores tem aumento garantido.

O subtítulo dizia:

Dinheiro previsto no orçamento não é suficiente para bancar reajuste de novos acordos.

Mestre Roldão, dedicado investigador que lê jornal armado de poderosa lupa, enviou carta ao diretor da Redação:

A manchete está em desacordo ou, pelo menos, não é exata com a notícia que diz que o governo já tem recursos para reforçar o contracheque de cerca de 800 mil servidores de 17 categorias que integram o Executivo.

Fazer uma manchete é uma arte. A manchete é a propaganda do jornal na banca, mas num jornal sóbrio, como o Correio, deve ser contida. Nada semelhante às antigas manchetes de O Dia, do Rio, na década de 60/70: ‘Cachorro faz mal à moça’ ou ‘Violada no auditório’, que ficaram célebres.

Parodiando o dito futebolístico, a manchete é tão importante que deveria ser feita pelo dono do jornal.

Sugestão alternativa para a parangona de hoje:

Servidores: super aumentos pendentes.

É verdade, ó Roldão, a manchete é uma arte. Bom exemplo veio num comentário do considerado José Truda Júnior, depois da eliminação dos urubus na Libertadores. Octavio Guedes, talentoso botafoguense do jornal carioca Extra, escreveu: O FLAMENGO CHOROU POR ÚLTIMO!

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Compreenção

A considerada Miriam Abreu, editora deste portal, acessou uma página do UOL e quase caiu para trás com o aviso que ali jazia:

Problemas Técnicos — Essa página não pode ser exibida devido a ocorrência de problemas técnicos em nossos servidores. Pedimos que tente novamente mais tarde. Agradeçemos pela compreensão.

Janistraquis analisou o abusão e concluiu:

‘Há uma grave incoerência no textinho, considerado; ora, se meteram Ç em ‘agradecemos’, por que não fizeram a mesma coisa com a palavra ‘compreensão’?’.

Confira aqui, ó incrédulo leitor, pois talvez não tenha aparecido ainda alguém para consertar.

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Trote & galope

Frase que percorre a internet e que Janistraquis adaptou em reconhecimento às pesquisas de opinião:

Lula parece cavalo em parada de 7 de setembro: andando, cagando e sendo aplaudido.

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Jagerando

Chamadinha na capa do UOL:

Cana já gera mais energia no país que as hidrelétricas.

Janistraquis adorou o ‘já gera’, que o transportou ao jardim de infância de Rio Branco (PE) onde aprendeu a segurar o choro:

‘Considerado, tínhamos uma professora com curso primário completo que reclamava assim, quando algum de nós contava mentira: ‘ah!, esse menino, num já gera…’.

(Exemplo de ‘jageração’ é esta chamadinha do UOL: Ministério do Meio Ambiente — Saída de Marina é um golpe para futuro do planeta, diz jornal inglês.)

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Mengooooooo!

Um pouco abaixo do ‘já gera’ a capa do UOL chamou para outra materinha:

Flamengo — Eliminação pode ser ‘boa’, diz cartola, referindo-se àqueles 3 a 0 diante do América do México, vexaminosa derrota que excluiu o bicampeão carioca da Taça Libertadores.

Meu assistente condenou as aspas, mesmo simples:

‘Ora, considerado, eliminação do Flamengo sempre é boa, né não?’

Devo admitir que, vascainamente, concordo.

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Memória ruim

Meu assistente leu e leu, viu e viu, escutou e escutou o que pôde sobre o tumultuoso caso do dossiê e desabafou:

‘Esses petistas são tão, digamos, bizarros, que até os computadores do Planalto mentem barbaridade e nada guardam na memória; para essas incríveis máquinas, o dia de ontem é apenas uma vaga lembrança.’

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Nota dez

O considerado Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, escreveu na Agência Carta Maior:

Ao anunciar a reativação da Quarta Frota, desativada há 58 anos, para ‘patrulhar os mares da América Latina’, a marinha estadunidense encena, em versão farsesca, a sina do capitão magistralmente criado por Wilhelm Richard Wagner, em 1841.

A diferença é que se o ‘Holandês voador’ navegava eternamente por conta de maldição que só um amor redimiria, o que move os militares norte-americanos – e seus ‘navios fantasmas’ – é a necessidade de retomar o controle de uma região que, por décadas, foi seu quintal seguro.

Leia aqui a íntegra do excelente artigo desse ilustre torcedor do Flamengo que não se deixou abater pela sensacional derrota diante dos mexicanos.

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Errei, sim!

RABO PRESO — Apaixonado pelo chamado ‘jornalismo investigativo’, Janistraquis apareceu com ares sherloquianos, se me permitem o termo. ‘Considerado, finalmente descobri onde a Folha prendeu o rabo’, anunciou, em triunfo. ‘Foi na Rede Bandeirantes!’

E passou-me às calejadas mãos este delicioso Erramos: ‘O encarte Televisão do último domingo publicou erradamente que o jornalista Miguel Jorge, diretor de Comunicação Social da Autolatina, é presidente da empresa, cargo ocupado por Wolfgang Sauer. O jornal foi induzido ao erro pela Rede Bandeirantes, em material de divulgação do programa Investigação Nacional’.

Eufórico, meu secretário margeava o delírio: ‘A Bandeirantes induziu a Folha ao erro, considerado; induziu!!’ E, por perversa erudição, citou frase de O Lobisomem, de Herberto Sales, à página 104: ‘Mulher … ele não podia ver, que logo não induzisse a desprevenida a receber a fecundação dele.’

(outubro de 1988)

Colaborem com a coluna, que é atualizada às quintas-feiras: Caixa Postal 067 – CEP 12530-970, Cunha (SP), ou japi.coluna@gmail.com.

(*) Paraibano, 65 anos de idade e 46 de profissão, é jornalista, escritor e torcedor do Vasco. Trabalhou, entre outros, no Correio de Minas, Última Hora, Jornal do Brasil, Pais&Filhos, Jornal da Tarde, Istoé, Veja, Placar, Elle. E foi editor-chefe do Fantástico. Criou os prêmios Líbero Badaró e Claudio Abramo. Também escreveu nove livros (dos quais três romances) e o mais recente é a seleção de crônicas intitulada ‘Carta a Uma Paixão Definitiva’.’

TUDO E NADA
Eduardo Ribeiro

Sem lenço, sem documento e a rua como moradia, 14/5

‘Um grupo de amigos viveu na última semana, em São Paulo, uma experiência dolorosa, dessas que provocam uma imensa catarse, seguida de uma ferida de difícil cicatrização. Além de um profundo processo de reflexão sobre o próprio futuro.

Fomos encontrar, como morador de rua, um profissional de estirpe, de carreira brilhante, que nos mais de 30 anos de atividade, foi repórter, editor e chefe de publicações como Gazeta Mercantil, DCI, IstoÉ, O Globo, Folha de S.Paulo e TV Record. Mais interessante: foi um dos primeiros jornalistas brasileiros especializados na nobre editoria de finanças.

Sem dinheiro, sem trabalho, sem roupa, sem moradia, relegado pelo pequeno núcleo familiar, com a auto-estima abalada e, o que é pior, sem esperança e sem opções, encontrou abrigo nas ruas da cidade e também nos albergues da Prefeitura de São Paulo, com direito a pouso (era obrigado a acordar e sair às 5h da manhã), banho (muito rápido, porque havia fila de espera), um prato de comida (aí a concorrência às vezes ajudava, porque permitia escolher entre a comida pública e aquela oferecida por ONGs e outras entidades assistenciais) e alguma assistência médica.

Como companhia, vagabundos diversos, criminosos de todos os tipos (inclusive os de alta periculosidade), deficientes físicos e mentais e (acreditem se quiser) alguns outros profissionais diplomados, como médicos, advogados e pelo menos mais dois jornalistas.

No sábado, num encontro que com ele estivemos, eu, Nelson Blecher, diretor de Redação de Época Negócios, e Fernando Porto, repórter do Diário do Comércio, que já há algumas semanas é a ponte entre ele e o mundo civilizado, numa tentativa de evitar o pior. Foi na Praça da Sé, no Centro Cultural da Caixa Econômica. Ali nosso colega recobrou parte das esperanças, não sem antes se emocionar, chorar, tossir (seqüela de uma pneumonia que insiste em não abandoná-lo, apesar de medicado, como ele disse estar) e contar algumas histórias de sua perambulação pelo mundo da miséria, dos desvalidos, daqueles que encontraram a rua como moradia e os anônimos como família.

Rubens, sim o primeiro nome me arrisco a revelar, mas vou manter nosso personagem no anonimato para preservá-lo, sobretudo porque estamos apostando na sua reintrodução no mundo do trabalho e de uma vida digna, contou que a vida (por culpa dele próprio) foi lhe fechando os caminhos, até empurrá-lo para esse beco praticamente sem saída.

Ele também um boca de rango, como são chamados os moradores de rua que disputam as refeições gratuitas oferecidas na cidade, contou ter dia em que a espera por um prato de comida, chegava a três horas.

‘A indústria da miséria é muito poderosa’ contou ele para nós, dizendo ser a igreja uma das grandes beneficiárias de recursos da Prefeitura. E como bom jornalista investigativo, apontou dúvidas e questionamentos em relação ao uso desses recursos, por conseguir enxergar nas ruas coisas que os homens da civilização não conseguem ver.

‘Sofremos muita humilhação. Muita mesmo. Outro dia fui pedir um copo de água de torneira num bar e o balconista me falou, na lata: ‘água de torneira não se pode pedir aqui sentado no balcão, não; espera lá na porta da rua’. Você não sabe o que fazer; a vontade é de desaparecer’.

Dinheiro fácil? Também tem. Não é muito, mas tem. O ‘programa câmbio’ dá a quem tem o CPF limpo, sem pendengas financeiras, R$ 15. Isso mesmo, R$ 15 limpinhos. É só ir lá, nas escadarias da Praça Ramos de Azevedo, ao lado do Teatro Municipal, a qualquer hora do dia (incrível isso) e assinar uns papéis. Sabem o que são esses papéis? Aquisição fictícia de dólar para lavar dinheiro sujo – coisa de U$ 5 mil por CPF. Uma desfaçatez, um crime que a polícia finge não ver e que faz a alegria de traficantes e outros criminosos, que se valem da miséria para mostrar que nesse país muitas vezes o crime compensa.

São histórias que Rubens está vivendo na pele, não por opção, mas por falta de, já há dois meses. Ele já vinha cambaleante havia um ano, desde que teve de deixar a casa em que morava de favor, da única irmã que tem, numa cidade do interior, próxima de São Paulo. Desde então não mais se acertou. Agüentou o quanto pôde, com um ou outro frila, morando em pensões, até que tudo nem isso deu mais.

Família? Desde que se separou de sua mulher, também jornalista, quase 30 anos atrás, perdeu contato completamente, inclusive com o filho, então recém-nascido, que nunca mais encontrou na vida. A única coisa que sabe é que o menino tem hoje 28 anos, é advogado e mora em São Paulo.

Com algum dinheiro nas mãos, para uma ação de emergência, e uma enorme esperança no coração, ele se despediu de nós voltando a acreditar que voltaria a ter melhores dias pela frente. Nós também saímos confiantes num desfecho positivo, até porque a solidariedade de vários outros colegas foi fantástica.

Ainda é cedo para saber se tudo sairá como o esperado, mas ele já deixou o albergue, passou alguns dias num hotel simples (um cinco estrelas se comparado ao albergue da prefeitura), com direito a tevê e bife a milaneza, e hoje está morando numa pensão bancada pelo Sindicato dos Jornalistas, que, acionado, não se furtou a acolhê-lo e a dar apoio, assim como também fizeram vários dos amigos que ele fez ao longo dos anos em que freqüentou as respeitadas redações.

O primeiro passo foi dado e agora já há garantia de alguns trabalhos para ele, de modo a que possa entrar novamente em ritmo de jogo e quem sabe voltar a brilhar. Tem apenas 57 anos e pode, portanto, ter ainda muitos anos produtivos pela frente.

Esse grupo de amigos, que tem também como um dos pilares Lino Rodrigues, além de se empenhar na questão material, financeira e de trabalho, tenta agora o que seria o passo decisivo e mais importante: reaproximá-lo da família. Se os céus e os anjos estiverem ao lado de todos nós, haverá de dar certo.

Nós é que nunca mais seremos os mesmos depois dessa experiência que mexeu com os mais nobres de nossos sentimentos.

Fica a lição de que o jornalismo, como várias das profissões estressantes, pode levar alguns de seus representantes para a beira do abismo. Temos de pensar seriamente nisso para quem sabe construir uma rede de proteção como acontece em algumas outras atividades, caso dos artistas, por exemplo, que tem conseguido dar abrigo e dignidade àqueles, que já sem forças e condições, querem apenas ter uma velhice digna.

Um tapa na cara de quem se julga acima do bem e do mal, dono da verdade e paladino da justiça, da moralidade e dessas que certamente não desejamos para nosso pior inimigo, mas que traz ensinamentos importantes para quem, como nós, abraçou esta difícil e fascinante atividade como ofício.

A partir de e-mails trocados entre dois colegas, pudemos constatar que um deles tinha chegado ao fundo do poço, perdendo inclusive o mais valioso dos bens, a vontade de viver.

Foi um choque. Como seria possível um profissional renomado, que fez uma brilhante carreira nos anos 70, 80 e 90, com passagens por nada menos que O Globo, Folha de S.Paulo, IstoÉ, Gazeta Mercantil, DCI e TV Record, sempre em cargos de alguma relevância, chegar àquela situação, sem família, sem emprego, sem dinheiro, sem casa, sem roupa, sem auto-estima e, pior de tudo, sem esperança?

(*) É jornalista profissional formado pela Fundação Armando Álvares Penteado e co-autor de inúmeros projetos editoriais focados no jornalismo e na comunicação corporativa, entre eles o livro-guia ‘Fontes de Informação’ e o livro ‘Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia’. Integra o Conselho Fiscal da Abracom – Associação Brasileira das Agências de Comunicação e é também colunista do jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, além de dirigir e editar o informativo Jornalistas&Cia, da M&A Editora. É também diretor da Mega Brasil Comunicação, empresa responsável pela organização do Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.’

MERCADO
Carlos Chaparro

Jornal pode ser mercadoria; jornalismo, não!, 12/5

‘O XIS DA QUESTÃO – Se o mundo fosse movido e ordenado apenas pela energia do mercado, teriam razão os que vêem o jornalismo apenas como negócio. Mas o homem é um ser cultural. Cria os conflitos, age neles. Por meio deles, é verdade, legitima coisas como o lucro, a livre concorrência, a exclusão social. Submete, porém, as competições a valores e a projetos coletivos que a cultura impõe.

1. Projeto Folha, matriz ideológica

Para aprofundar um pouco mais a questão do ‘publijornalismo’ vinda à baila no texto da semana passada, volto ao assunto para lembrar que esse neologismo criado por Alcino Leite Neto tem a ver com o projeto editorial assumido pela Folha de S. Paulo para entrar no século XXI, em documento publicado pelo jornal em agosto de 1998. O documento antecipava os comportamentos do jornal para lidar com os desafios do tempo novo, assumindo, como ponto básico, que ‘(…) o jornalismo contemporâneo terá de corresponder à sensibilidade de parcelas crescentes do público, que reclamam um emprego criterioso do poder de informar’.

Portanto, não estavam nos valores éticos da sociedade, mas na ‘sensibilidade de parcelas crescentes do público’, as razões para o emprego mais criterioso do poder de informar.

Mário Vitor Santos, então ombudsman da Folha, ao comentar o documento em seu artigo semanal, estranhou e lamentou a pouca importância dada à questão da ética nas razões do novo projeto editorial. Para Mário Vítor, na equação dos paradoxos do jornalismo, ‘a decisão fundamental não é técnica nem mercadológica, mas ética’.

Na perspectiva em que a Folha se colocava, os atributos éticos viriam naturalmente, por decorrência das exigências do mercado. Por isso, o documento nem com a ética se preocupava.

Ainda assim, era um documento interessante, nas reflexões que fazia e nas propostas que apresentava. Havia nele provocações estimulantes, tendo em vista a necessidade de compatibilizar faces contraditórias que compõem os desafios do jornalismo. Exemplo: Como denunciar e criticar sem agredir direitos? Como revestir de formas interessantes, atrativas, conteúdos que devem ser ponderados? Como aprofundar os enfoques sem perder a vivacidade jornalística?

O documento levantava, mas não respondia a essas questões. Propunha, porém, diretrizes a adotar, a primeira delas a de ‘não apenas organizar a informação inespecífica, aquela que potencialmente interessa a toda pessoa alfabetizada, como também torná-la mais compreensível em seus nexos e articulações’.

2. Jornal, apenas produto

Foi nas correntes do projeto editorial da Folha para o século XXI que Alcino Leite Neto navegou, ao anunciar, na mesma época, o fim do jornalismo tradicional, em texto sem dúvida interessante, mas polêmico. No entendimento proposto, esse tal ‘jornalismo tradicional’ seria substituído por um jornalismo híbrido que incorpora os fundamentos da publicidade e do entretenimento. Aquilo a que ele chamou de ‘publijornalismo’, produto de ‘uma revolução silenciosa’, que na opinião do autor ocorria há décadas na imprensa brasileira e internacional.

Na visão de Alcino, ‘a publicidade – com suas regras e sistemas para vender um produto – foi mimetizada pelo jornalismo e transformou a imprensa em outra coisa’, mais precisamente, no ‘publijornalismo’.

A provocação do texto de Alcino começava pelo título: ‘O admirável novo jornalismo’. E o adjetivo admirável autorizava a supor que Alcino considerava evolução aperfeiçoadora esse novo jornalismo inteiramente inserido na lógica do consumo.

Até para serem contestadas, vale a pena transcrever as razões em que Alcino Leite Neto sustentava a argumentação.

Ao analisar os antecedentes, dizia que, antes, no intercâmbio realidade-jornalismo, o leitor ocupava o lugar de espectador passivo, e sobre ele a imprensa exercia um poder de influência. Era o leitor que aderia aos jornais, e essa adesão seguia afinidades ideológicas, ou de gosto, ou de posição de classe. Por isso havia publicações que se opunham umas às outras, diferindo em tudo.

Nos novos tempos, para Alcino, o publijornalismo (‘admirável meio novo’) não vê no que faz outra coisa senão um produto. ‘A noção se generaliza dentro das publicações e atinge todos os seus processos. (…) O publijornalismo só contesta, elucida ou investiga porque pretende fazer um melhor produto e vendê-lo mais, e não porque julga, como seu antepassado (o jornalismo), que estará também influenciando numa determinada realidade ou cumprindo um papel ideológico numa sociedade’.

Alcino fazia, portanto, o anúncio da morte do jornalismo. Com a seguinte conclusão: ‘A imprensa ainda vive essa situação como um problema, mas logo o drama chegará ao fim’.

3. O mundo ético existe

Dez anos depois, vale a pena voltar a discutir o texto de Alcino Leite Neto – do qual discordo, evidentemente.

Para dar uma achega à possível discussão, transcrevo pequeno trecho de uma reflexão que fiz à época, em texto que um dos meus livros guarda:

‘Se o mundo fosse movido e ordenado apenas pela energia do mercado, talvez Alcino estivesse certo. Mas o homem é um ser cultural. Cria os conflitos, age neles. Por meio deles, é verdade, legitima coisas como o lucro, a livre concorrência, a exclusão. Submete, porém, as competições a valores e a projetos coletivos que a cultura impõe’

‘Os objetivos vitais das sociedades, ainda que adormecidos ou abafados, continuam sendo éticos, ligados às razões da vida. Nunca a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi tão evocada e tanto se impôs quanto nos tempos atuais, para a identificação,a denúncia, a crítica e a correção de situações que agridem o ser humano’.

Escrevia eu, portanto, de um mundo ético vinculado às razões da vida e da cultura, mundo no qual o jornalismo continua a existir e a atuar com participe importante. E do qual faz parte.

(*) Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor livre-docente (aposentado) do Departamento de Jornalismo e Editoração, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, onde continua a orientar teses. É também jornalista, desde 1957. Com trabalhos individuais de reportagem, foi quatro vezes distinguido no Prêmio Esso de Jornalismo. No percurso acadêmico, dedicou-se ao estudo do discurso jornalístico, em projetos de pesquisa sobre gêneros jornalísticos, teoria do acontecimento e ação das fontes. Tem quatro livros publicados, sobre jornalismo. E um livro-reportagem, lançado em 2006 pela Hucitec. Foi presidente da Intercom, entre 1989-1991. É conselheiro da ABI em São Paulo e membro do Conselho de Ética da Abracom.’

TELEVISÃO
Antonio Brasil

Globo lança programa sobre o mundo das universidades, 12/5

‘Se você acredita, assim como o nosso presidente, que a mídia exagera na divulgação de más notícias, que deveria sim enfatizar as boas notícias, você certamente vai adorar o mais novo lançamento da Rede Globo, o programa Globo Universidade.

Mas se você acredita que a TV também deveria reservar um espaço para discutir os problemas e mazelas do nosso ensino superior, que deveria buscar soluções para os nossos problemas, certamente você vai se decepcionar com o Globo Universidade.

Ou seja, o novo lançamento da Globo é bom ou ruim dependendo das suas expectativas.

No Globo Universidade não há espaço para matérias sobre temas polêmicos como greves de professores, invasões de reitorias ou dramática falta de recursos principalmente para as universidades públicas brasileiras. Afinal, esta não é a proposta do programa.

Segundo a divulgação da emissora: ‘O programa é voltado para o meio acadêmico e mostra o que há de melhor e de inovador em matéria de ensino, pesquisas, ações e projetos desenvolvidos por alunos e professores, através de uma universidade’.

Isso fica ainda mais evidente pelos títulos dos principais blocos do programa: Toque de mestre, Mérito acadêmico, Fora de série ou Eu amo o meu trabalho.

Cabeça ou Tostines

O Globo Universidade não é um programa jornalístico no sentido tradicional da palavra. É um exercício de relações públicas por parte da emissora carioca ou exemplo de jornalismo positivo ou jornalismo chapa-branca.

Ou seja, neste sentido, o novo programa da Globo é um bom programa de TV. Tem excelente apresentação, visual moderno e alto padrão de qualidade em formato e linguagem. O conteúdo, no entanto, é limitado. O programa tem somente meio hora para falar de muitas coisas boas. Mas os temas apresentados são complementados em um bom site na Internet.

Os temas dos programas variam da Antropologia à Aracnofobia, passando pela Zoologia e Arqueologia. O último programa mostrou a beleza e importância dos pássaros da região do Cerrado. Foi muito interessante. Nenhuma palavra sobre reitores ‘gastadores’ ou alunos revoltados na mesma região. Esses assuntos ficam restritos aos telejornais da emissora. Mas será que ficam mesmo? Mas isso é uma outra história.

A boa notícia para quem gosta de boas notícias é que os programas do Globo Universidade, apesar de exibidos em horário considerado ‘ingrato’, também estão disponíveis na Internet. É só conferir aqui. O site, por sinal, é muito bom. Para quem acredita que jornalismo tem que ter uma agenda positiva, o site está repleto de ‘boas notícias’.

O Globo Universidade é mais um dos projetos ‘cabeça’ da Rede Globo. Programas produzidos para faixas da programação com baixa audiência, mas que garantem ‘prestígio’ para a emissora líder. As nossas emissoras comerciais consideram que projetos educacionais e culturais não podem ou não devem exibidos em horário nobre.

Para esses programas, estão disponíveis faixas da programação com pequeno valor comercial. Então a questão se transforma num enigma de audiência. O público não assiste por causa do horário, devido ao conteúdo ou à qualidade dos programas? É a ‘Problemática Tostines’ ou o dilema do ovo e da galinha na TV: é o formato que determina a função ou é a função que determina a forma? – Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Eis aqui uma questão a ser discutida!

É tudo igual?

Nessa faixa obscura da programação são exibidos os programas educacionais e culturais como os Telecursos, Globo Ecologia e Globo Ciência. Estava faltando o Globo Universidade. Agora, não falta mais. Todos os sábados às 7:15 da madrugada, quero dizer, da manhã poderemos saber tudo sobre o maravilhoso mundo das universidades brasileiras.

Esses programas educacionais ou culturais da Globo possuem características comuns: são todos muito simpáticos e bem produzidos. Se não atraem grande audiência ou lucro financeiro, pelo menos, não criam problemas para os interesses da emissora. A Educação e a Cultura em nosso país podem ser temas polêmicos, também podem ser fontes inesgotáveis de boas notícias. Afinal, no fundo, em essência, as nossas TVs públicas, estatais ou comerciais possuem mais coisas em comum do que deveriam ou anunciam. Elogiar é sempre melhor, mais seguro e rende mais lucros do que criticar.

TV é um meio de comunicação poderoso que seduz a todos. Alguns se contentam em assistir. Mas muitos só querem aparecer, mostrar e lucrar. A TV tem a capacidade de incentivar um consumo irresponsável, elege políticos e reitores, mas também pode informar e educar.

Produzir boa TV não carece de muitos recursos, mas não dispensa jamais a ousadia e a criatividade. Com liberdade e participação efetiva, de alunos e de professores, pode ser um instrumento revolucionário. Tem o potencial de mudar um cenário universitário brasileiro com a divulgação de boas notícias e realizações. Mas também deveria dedicar espaço para mostrar deficiências, injustiças e apontar soluções.

E se você ainda tem alguma dúvida sobre os problemas da TV Brasil, não deixe de ler a matéria de capa de Carta Capital desta semana (aqui) : ‘Tevê pública, o dilema. Cineastas e jornalistas enredam-se em embate sem solução para definir os rumos de um modelo que, no Brasil atual, contradiz hábitos e tradições’. Imperdível!

(*) É jornalista, professor de jornalismo da UERJ e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Atualmente, faz nova pesquisa de pós-doutorado em Antropologia no PPGAS do Museu Nacional da UFRJ sobre a ‘Construção da Imagem do Brasil no Exterior pelas agências e correspondentes internacionais’. Trabalhou na Rede Globo no Rio de Janeiro e no escritório da TV Globo em Londres. Foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. É responsável pela implantação da TV UERJ online, a primeira TV universitária brasileira com programação regular e ao vivo na Internet. Este projeto recebeu a Prêmio Luiz Beltrão da INTERCOM em 2002 e menção honrosa no Prêmio Top Com Awards de 2007. Autor de diversos livros, a destacar ‘Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica’, ‘O Poder das Imagens’ da Editora Livraria Ciência Moderna e o recém-lançado ‘Antimanual de Jornalismo e Comunicação’ pela Editora SENAC, São Paulo. É torcedor do Flamengo e ainda adora televisão.’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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