Segunda-feira, 27 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Consideramos justa toda forma de amor?

Por Jaiane Valentim em 09/06/2015 na edição 854

O termo democracia, do grego demos (povo) mais kratós (poder, governo), começou a ser usado no século V a.C. em Atenas. Entendemos por democracia a união entre grupos ou pessoas em que a titularidade do poder consiste na totalidade de seus membros, ou seja, a tomada de decisões responde à vontade geral.

No Brasil, além do sistema político democrático, aparece cada vez mais algo que chamamos de democracia direta, quando as decisões são tomadas pelo povo; em sua maioria, quando se trata de algum assunto que se torna público e que esteja ao alcance de ser modificado pelo grupo, como, por exemplo, o boicote à novela das 21h da Globo, Babilônia.

A nova vítima do “grupo politicamente correto” é a rede de cosméticos e perfumes O Boticário, mais especificamente a campanha do Dia dos Namorados da empresa. Em sua propaganda de trinta segundos, a marca mostra casais, gays e héteros, trocando presentes. Nada que ofenda as pessoas. Pelo contrário. A sutileza que a peça traz é de uma beleza ímpar, que, inclusive, desperta em nós um sentimento muitas vezes repreendido: presentear alguém que se ama.

Chega a ser assustador pensarmos que ainda existam pessoas que acham que estão agindo democraticamente, mas pregam uma ditadura à felicidade de uma parcela considerável da população brasileira. Os dados não são oficiais, mas estima-se que há cerca de 18 milhões de homossexuais no Brasil; números que podem aumentar porque ainda existem os que temem represálias e não se assumiram.

Boticário respondeu com uma postura firme

Essa “ditadura direta” acontece porque as pessoas viram que se manifestando através das redes sociais são ouvidas. Como ninguém gosta de desagradar o público em geral, a posição da maioria vence e o viés muda, como aconteceu em Babilônia. Desta vez, o público que tenta derrubar a peça publicitária fez uma corrente no WhatsApp, pedindo que as pessoas entrassem na conta oficial no YouTube de O Boticário e dessem dislike no vídeo da propaganda. Isso se tornou uma competição e, até o momento, o vídeo tem 334.779 likes e 181.376 dislikes. Nos comentários, há manifestações de homofobia e “argumentos” como “casal pra mim é homem e mulher”.

Mas houve quem foi além. O site Reclame Aqui recebeu mais de 80 queixas contra a propaganda. Em uma delas, o texto da reclamação diz: “Fiquei muito insatisfeita em assistir a um comercial onde ocorre a banalização das famílias no modelo tradicional, e onde aparecem famílias homossexuais, como se fosse normal”. A pessoa ainda diz: “Não tenho preconceito com homossexuais. Inclusive luto para que encontrem o caminho de Deus.”

Outras pessoas insatisfeitas com a propaganda resolveram registrar suas reclamações diretamente no Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). Após receber cerca de 30 queixas, o órgão anunciou que irá analisar o conteúdo da peça. Ainda não há data para julgamento.

Felizmente, a propaganda, que está circulando desde 24 de maio, não saiu do ar e O Boticário respondeu à queixa no Reclame Aqui com uma postura firme, reiterando que a peça tem por objetivo “abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor”. A empresa toma a posição levando em consideração o alto número de elogios que recebeu pela peça publicitaria.

Uma minoria acha que vivemos nos tempos de Adão e Eva

Essas pessoas dizem não ser preconceituosas e usam a Bíblia como escudo para justificar um pensamento, sim, preconceituoso, porque, afinal, Deus não quer que você seja ruim para com o próximo. Inclusive, Ele disse: “Amai-vos uns aos outros, como Eu os amei”. Falar que luta e/ou torce para que homossexuais encontrem o caminho de Deus não será levado em consideração quando o julgamento final chegar, mas sim, suas atitudes em relação aos demais. Ser bom para os outros, às vezes, não consiste em ajudá-lo, mas, no mínimo, respeitá-lo.

Não podemos esquecer que, como se trata de publicidade, o objetivo é atrair o público. Homossexuais comentavam no vídeo do YouTube que não sabiam o que dariam de presente para seus namorados, mas que agora sabem. “Publicitariamente” falando, parte do objetivo foi alcançado. Não é por isso que devemos deixar de elogiar a coragem da marca que poderia ter colocado sua imagem em xeque, mas que não deixou ser golpeada por uma minoria que acha que tem a razão e acredita que vivemos nos tempos de Adão e Eva.

A trilha sonora da propaganda, da música de Lulu Santos, diz: “Consideramos justa toda forma de amor”. Eu considero. E você?

***

Jaiane Valentim é jornalista

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