Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

TV EM QUESTãO > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 12/02/2008 na edição 472

7/2/08

Boas notícias

O Planalto anunciou que os ministros não poderão mais usar cartões corporativos. Rendeu a manchete da Folha, ´Governo retira cartões de ministros´.

Foi publicado decreto restringindo os saques em dinheiro, ´prática de difícil fiscalização´, como anotou o jornal.

O reitor da Universidade Federal do Piauí disse que pedirá uma auditoria de gastos.

Uma ministra que fez mau uso dos cartões caiu.

O Ministério das Comunicações investiga quem liberou R$ 1.400 para arrumar a mesa de sinuca.

São boas notícias. Insuficientes para moralizar um instrumento de moralização, que são os cartões. Porém boas. Elas decorreram de reportagens sobre o uso indevido dos cartões.

Os cidadãos hoje sabem mais sobre os fatos. Mérito do jornalismo.

É possível que seja formada uma CPI –a considerar tantas comissões dos últimos anos, essa pode não ser uma boa notícia (como pode ser).

Má notícia: as reportagens tiveram como reação um retrocesso na transparência, com o fim do acesso público a uma série de informações.

É importante, em um momento de tantos números para pesquisar no Portal da Transparência e nas empresas que receberam pagamentos, manter a sobriedade. Foi o que ocorreu hoje em duas boas reportagens exclusivas da Folha: os gastos bancados por cartões de dirigentes de universidades federais e do ministro dos Esportes.

De novo, editorializado

A Folha repete uma informação editorializada sobre a decisão do ministro dos Esportes, Orlando Silva, de devolver R$ 30 mil.

Chamada da primeira página diz que ´abusos com os cartões` o levaram devolver a quantia.

Não é o que o ministro afirmou em coletiva.

Ele disse aguardar a devolução do dinheiro após análise das prestações de contas por organismo de controle.

Ou o jornal prova o que afirma ou manterá um relato enviesado.

Furo alheio

Seria uma injustiça afirmar que se trata de batalha perdida: desconheço publicação brasileira com maior tradição de reconhecer furos alheios que a Folha.

Hoje, porém, o jornal foi infeliz: suitou reportagem do ´Globo` sobre pagamento de reforma de mesa de sinuca com cartão corporativo, mas calou sobre a origem da informação.

O ´Estado` deu o crédito ao Globo.

Ficou ainda mais chato porque o diário carioca reconheceu o furo da Folha sobre desembolsos de seguranças da família do presidente Lula (com verbas dos contribuintes).

Pensamento único

O Painel do Leitor tem quatro cartas sobre cartões. Todas no mesmo tom.

Seria muito mais interessante se contemplasse opiniões diversas, mantendo-se como espaço plural de idéias.

Cartões paulistas?

Leitores indagam se a Folha não publicará reportagem sobre o uso de cartões corporativos no governo de SP.

Esses cartões existem? Se existem, evidentemente que há interesse público, portanto jornalístico, em saber sobre eles.

Folha: é de São Paulo

A propósito, há dias, como hoje, que a Folha simplesmente ignora o Executivo paulista.

É um desserviço aos leitores.

Na moita

Sei que o presidente da República está de folga.

Mas não custa dizer o óbvio: a primeira pergunta a ser feita a Lula quando possível é sobre o uso dos cartões corporativos.

Retrato do Brasil

Folha e ´Estado` publicam na primeira página fotografia de Selminha, porta-bandeira da Beija-Flor, campeã do Carnaval carioca.

O ´Globo` saiu com foto melhor, mostrando Aniz Abrahão David desfilando sobre um carro do Corpo de Bombeiros. Conhecido como Anísio, o bicheiro, cartola da escola de samba, esteve preso durante boa parte do ano passado. Completo, seu nome foi citado 35 vezes pela Folha em 2007.

Jornalisticamente, ´sua` festa tem mais relevância, pelo menos como imagem.

Nas carnes

Manchete do ´Estado´: ´Brasil recua e tira 2 mil fazendas de lista da UE´.

O ´Globo` também tem a notícia.

Não a vi na Folha.

Palavrão

Dentro, ainda vai.

Mas publicar na primeira página a expressão ´qualidade da elegibilidade` é demais.

Trata-se de um palavrão jornalístico.

Quem lê tanta notícia?

A Folha permanece na dianteira da cobertura das primárias americanas.

Mas o jornal exagera. Hoje publica três páginas inteiras sobre o assunto, mais o alto de uma quarta página, sobre a posição de israelenses e árabes a respeito dos pré-candidatos democratas.

Está demais: quem tem tempo para ler tudo isso?

Erramos 1

A primeira página da edição Nacional afirmou que jogaram ontem pela seleção três jogadores com ´idade olímpica´.

A edição São Paulo corrigiu: foram quatro.

Erramos 2

A coluna ´De tanto morrer se aprende a viver` (pág. C12 do domingo) informou que o município de São Gonçalo fica na Baixada Fluminense.

Não fica.

Erramos 3

Leitores notaram que há erro no texto ´Hospital do SUS britânico matou paciente, diz júri` (pág. A9 de ontem).

O texto afirma que homicídio doloso não é intencional.

Pelo contrário: se há dolo, é –como ensinaram numerosos cursos, apostilas e atividades de formação na Folha. Como já corrigiram infindáveis Erramos. Como já repetiram todos os ombudsmans. Como informa o dicionário.

Nesse caso, sim: batalha perdida.

6/2/08

A cobertura sobre a farra de (alguns) servidores federais com cartões corporativos deixa algumas lições.

Uma, jornalística, é sobre a atitude a tomar quando se leva um furo. As revelações originais sobre o emprego irregular do cartão pela agora ex-ministra Matilde Ribeiro foram do Estado.

A Folha teve a atitude correta: em vez de ´esconder` o assunto, correu atrás e produziu muitas reportagens boas e exclusivas. Nos últimos dias, sobre seguranças da família do presidente Lula.

Outra lição: a sociedade só tem a ganhar com instrumentos de acesso público a dados públicos. Sem o Portal da Transparência, o jornalismo não teria como (ou teria muito mais dificuldade) contar as informações, de interesse público, sobre o uso impróprio e talvez ilegal dos cartões.

É direito dos cidadãos e dos consumidores de notícias saber como são empregados os recursos dos contribuintes. As opiniões sobre o uso do dinheiro são legítimas. Mas elas só podem ser elaboradas se houver informação suficiente sobre o que acontece. É esse o papel do jornalismo: informar.

Graças ao jornalismo, o governo deve publicar novo decreto regulamentando o uso de cartão corporativo. E uma ministra que fez mau uso dele caiu.

Sua Excelência

OK, a fonte das informações é o Portal da Transparência, da Controladoria Geral da União.

Custa informar aos leitores como acessar o site?

Editorialização

Trecho da boa reportagem ´Segurança da filha de Lula gastou R$ 55 mil em cartão` (pág. A4 da segunda-feira): ´O ministro Orlando Silva (Esportes) também anunciou que devolverá cerca de R$ 30 mil por gastos indevidos em seu cartão´.

Pelo que eu li, o ministro não afirmou que os R$ 30 mil representam ´gastos indevidos´.

Memória

O jornal informa que ´os cartões foram criados em 2001, na gestão FHC´.

É possível rastrear o uso dos cartões desde aquele ano?

A convite

É muito boa a reportagem ´Governo russo banca viagem de Jobim a São Petersburgo` (título da primeira página) no sábado.

Sóbria, não faz julgamento.

Mostrou o jornal atento. É esse mesmo o seu dever: fiscalizar o poder.

Outra contribuição foi a entrevista com o ministro Jobim. Muito simpático quando quer, ele engrossou ao saber do conteúdo da reportagem. Corretamente, foi dado amplo espaço de manifestação ao ministro.

Superterça e reportagens

A Folha fez a melhor cobertura das primárias de ontem nos Estados Unidos. O motivo fundamental foi a opção de pôr os três repórteres em campo para acompanhar os candidatos principais. Ou, melhor, dois repórteres: a reportagem mais fraca foi a feita de longe, sobre Hillary Clinton, privilegiando as opiniões de especialistas. As que trataram de Barack Obama e John McCain, apuradas ´na rua´, são de alto nível.

Superterça e balanços

Além das informações obrigatórias, como o número de delegados obtidos e as perspectivas dos pré-candidatos, o jornal deveria trazer um dado jornalisticamente importante, embora sem influência direta nas definições partidárias: quantos votos acumularam até aqui os candidatos, considerando todas as primárias.

Tudo bem que as regras eleitorais e partidárias nos EUA são peculiares (Al Gore teve mais votos que Bush, mas não levou), mas é interessante saber quem conta com mais cabeças a seu favor.

O jornalismo americano destaca, entre os democratas, cortes claros nas votações: negros e jovens com Obama, mulheres com Hillary. A considerar o resultado na Califórnia, ela parece ter boa dianteira entre os latinos.

Outro fato digno de nota é o aparente fiasco do apoio de Ted Kennedy a Obama. Em Massachusetts, Estado do atual ´chefe` do clã Kennedy, deu Hillary com folga.

O ´adiamento` da vitória de McCain não parece tão ruim para ele. Alguns observadores apontavam a definição precoce como nociva à candidatura, por afastar o senador da mídia nas semanas (ou meses) em que os democratas seguirão a se digladiar.

Superterça – Para confundir

A divisão do mesmo Estado em cores distintas, de acordo com o indicado de cada partido, tornou de leitura difícil o quadro ´Corrida à Casa Branca` (pág. A7 de hoje).

O jornal deveria, penso, fazer dois mapas: um para os republicanos, outro para os democratas.

Superterça – Sem aprender

O jornal já deveria ter aprendido com primárias recentes que as pesquisas de opinião nos EUA, pelo menos as partidárias, devem ser tratadas com reservas.

Na edição Nacional, corretamente, Mundo condenou ao pé de um longo texto a informação de que ´Obama superava Hillary na Califórnia por 1,2 ponto´.

Já a primeira página pôs a informação na chamada!

Com 92% dos votos democratas da Califórnia apurados, Hillary vencia por 52% a 42%.

A informação da pesquisa não tinha relevância — em poucas horas os votos começariam a ser contado– e era pouco confiável.

Acabou na capa da Folha.

Tradução 1

A nota ´Primeira ou primeiro?` (pág. A6 de hoje) menciona coluna do ´Washington Post` e cita, entre aspas, a palavra ´liberais´.

Reafirmo: as aspas não resolvem, não dão o verdadeiro sentido.

A lista de tradução recém-distribuída é para valer ou não?

Lá, encontra-se o significado em português do Brasil para o ´liberal` americano.

Tradução 2

Reportagem do domingo diz que Obama votou ´presente` 129 vezes, quando era senador estadual (´Cidade natal da adversária, Chicago é Obama de Zariff, o barbeiro, à sorveteria` (pág. A8 da terça-feira, título da edição Nacional).

´Presente´, no caso, quer dizer ´abstenção´, salvo engano.

Ele não votou a favor nem contra projetos de lei. Absteve-se. É isso o que eu entendi em um debate recente, ainda com três pré-candidatos democratas.

Tanto riso

Na primeira página da Folha de hoje: ´No Rio, Beija-Flor é a favorita por causa do rigor técnico´.

Na do Estado: ´Beija-Flor, exuberante, fecha o desfile´.

Manchete do Globo: ´Coleções da Unidos da Tijuca ganham o Estandarte de Ouro` (prêmio oferecido pelo jornal).

Do Extra: ´Beija-Flor faz desfile federal de olho no bi´.

De O Dia: ´Beija-Flor ganha o Tamborim de Ouro` (prêmio do jornal).

Do Jornal do Brasil: ´Só não ganha se garfarem` (sobre a Viradouro).

Insensibilidade

O grande desfile do país é o do Rio de Janeiro.

Mesmo no Carnaval, porém, a cidade recebeu a edição Nacional da Folha, concluída cedo, no horário do começo dos desfiles na Marquês de Sapucaí.

A edição final deveria ter circulado no Rio.

Prioridades

A reportagem principal da Folha hoje sobre a vitória da Vai-Vai no Carnaval paulista recebeu a assinatura de três colaboradores do jornal, e não de repórteres da casa.

Covardia

O jornal deveria se sentir constrangido pelo que fez hoje em duas notas de espaço noticioso.

Em ´Pobre menina rica –Fotógrafo confunde socialite em baile` (pág. C5), cita entre aspas, sem identificar o fotógrafo ignorante, o comentário dele sobre uma senhora: ´Parece um travecão´.

Em ´Cruzes´, na mesma página, afirma que uma atriz ´parecia uma prima distante de Mortícia Adams´.

As notas nomeiam os alvos.

Um pouco de elegância não faria mal.

Jornalismo mordaz não equivale a jornalismo vulgar ou agressivo.

Batalha perdida

Título de primeira página no domingo: ´Galo da Madrugada atrai 1,5 milhão no Recife´.

Isso é projeção de outros. A informação deve constar de reportagem, não de título.

Está no Manual, ombudsman após ombudsman comenta, e fica na mesma.

No mesmo dia, título da pág. C7: ´Bola Preta atrai 500 mil no Rio´. A ´estimativa` dos organizadores e da PM foi essa. Qualquer levantamento científico, contudo, atestaria que os números são exagerados.

Mas a Folha embarca, ingenuamente.

Ainda no domingo, na pág. C10, outro título: ´Na Bahia, 20 mil seguem DJ holandês´.

Chute

A Folha divulgou: a atriz Lucy Liu teria recebido 170 mil euros por uma visita a um camarote de cerveja na Sapucaí.

A cifra parece inflada.

Não diga

Título na primeira página da segunda-feira, edição Nacional: ´São Clemente abre desfile com enredo sobre a família real´.

Isso era informação conhecida há meses.

Mesmo com o apressado da hora, é possível ser mais original e menos previsível.

Sugestão de leitura

Na cobertura carnavalesca, brilhou o excelente texto de Ruy Castro ´Com Império Serrano na avenida` (pág. C4 da terça-feira).

O título é infeliz: essa formulação exigia um ´o` antes do nome da escola.

Não cabe? Então, muda-se o título.

Nonsense

É mais um registro, porque eu não sei como resolver.

Em meio às fotos da folia, a primeira página do domingo tascou o título: ´Mapa da violência subestima total de assassinatos no país´.

Homicídio não combina com festa…

Idem na segunda, na manchete ´Chuva mata 6 mulheres e 3 crianças em serra do Rio´.

Encerrando

A propósito, é das manchetes mais tortuosas dos últimos tempos: ´Chuva mata 6 mulheres e 3 crianças em serra do Rio´.

Para começar, ´em serra` é cacófato.

A tragédia ocorreu, sim, na região serrana.

Com artigo definido: ´a` região serrana.

´Em serra` ou ´em alguma serra` é construção estranha que ignora a maneira como a região é tratada.

Seria como alguém morrer afogado no Guarujá e a manchete anunciar que a pessoa morreu ´em litoral´.

Sem

A Revista não circulou no domingo.

Na segunda, não saiu o Folhateen.

Folia? Não para os leitores da Folha.

Folha versus Folha

Chamada com 17 linhas na primeira página da segunda-feira: ´MST invade 4 fazendas em SP e planeja 10 ocupações hoje´.

Dentro, a reportagem foi editada em pé de página, com duas colunas, total de 31 linhas.

A notícia era ou não importante?

O leitor deve considerar a relevância dada pela primeira página ou por Brasil?

Latinidade

Chamada na pág. D1 da terça-feira: ´Em crise, Santos contrata dois latinos e desagrada Leão´.

Título no mesmo dia, pág. D3: ´Leão chia contra opção latina para a crise do Santos´.

Brasileiros? Franceses? Italianos? Espanhóis? Uruguaios?

Um contratado é equatoriano. O outro, colombiano.

São latinos, é verdade.

Latino-americanos.

Sul-americanos.

Erramos 1

Legenda na primeira página de sábado afirma que Obama e Hillary ´beijam-se` após debate.

Não se beijam.

Que eu tenha visto na TV, também não se beijaram antes ou depois.

Eles conversavam ao pé do ouvido.

Erramos 2

Editorial da terça informou que as primárias nos EUA ocorreriam em 24 Estados.

No domingo, editorial cravou 22.

Qual o número correto?

De régua na avenida

De tudo o que li e vi do Carnaval, o que chamou mais a atenção foi o texto ´Modelo usa tapa-sexo de apenas 4 cm` (pág. C1 da segunda-feira, edição São Paulo/DF).

O Globo estimou a dimensão da peça em ´meia caneta esferográfica´.

Já a Folha (e O Dia) cravou: 4 cm.

É o que se chama esforço de reportagem…

Golpe no lugar-comum

Como se viu pelo noticiário quente desde janeiro, 2008 não esperou o Carnaval para ´começar´.’

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