Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > ÂNCORAS, O FIM DE UMA ERA

Da voz de Deus à voz de todos

Por Nelson Hoineff em 31/10/2005 na edição 353

O tempo dos grandes âncoras dos noticiários de televisão está se esgotando com mais rapidez do que se esperava. Muitos dos sintomas que levam a isso estão relacionados numa reportagem de Bill Carter para o New York Times – ‘After CBS’s decision, networks face many more’ – publicada na sexta-feira (27/10).

A matéria é sobre a indicação de Sean McManus para chefiar a CBS News, mas sintetiza a perplexidade das grandes redes abertas diante das alternativas para substituir os grandes âncoras que, com pequena diferença de tempo, deixaram seus noticiários principais: Peter Jennings, da ABC, Tom Brokaw, da NBC e Dan Rather, da CBS.

Até agora a questão se resumia em trocar as peças por outras que se encaixassem na mesma função. Rather, por exemplo, teve há 20 anos a missão quase impossível de substituir a Walter Cronkite, que havia se tornado, mais do que um âncora, a grande consciência da América. Brokaw e Jennings cumpriram o mesmo papel: representavam em suas emissoras uma voz acima de qualquer suspeita. A ‘voz de Deus’, nas palavras de Leslie Moonves, o chefe da CBS.

A questão agora consiste em saber se o espectador está ansiando por outro Cronkite, por outro Rather, por outra voz de Deus.

A resposta aparentemente é não. Não há mais indicações de que o espectador busque no âncora um guia para formar sua própria opinião – e a capacidade de uma só pessoa para ser fiadora da qualidade de informação prestada por toda uma organização é cada vez mais discutível.

Números de faturamento

Uma das razões para isso é que por qualidade de informação não se pode mais entender apenas axiomas como o da isenção jornalística, por exemplo.

Isenção é um conceito relativamente recente, mas bem sedimentado como um valor básico da atividade jornalística moderna. Surpreendente hoje não é um noticiário isento, mas a ausência de isenção num noticiário.

Qualidade de informação em televisão é hoje entendida na melhor das hipóteses pela capacidade de apurar e desenvolver a notícia; e na pior, pela capacidade de a emissora transformá-la em espetáculo. Uma outra razão que decorre disso é que a televisão sedimentou velozmente modelos grotescos de transformar tudo num picadeiro, inclusive a informação. Basta acompanhar uma pueril transmissão esportiva. Até o envolvimento do espectador com o ataque do seu time é guiado pelo soar de clarins.

Algazarra de clarins e rufar de tambores acompanham sistematicamente a transformação da notícia em espetáculo, sua diluição em shows de consumo fácil. Por essa razão, os noticiários matinais da TV americana – Good Morning América e Today – tornaram-se muito mais rentáveis que os telejornais principais. Não é de se espantar que tenham se tornado mais influentes também. ‘Os dias dos executivos das divisões de notícias das grandes redes como emblemas da consciência do jornalismo se foram há tempos’, nota Carter, no NYT. ‘O trabalho requer agora a capacidade de administrar elenco e orçamento’.

Modelo passado

Se por um lado os âncoras ainda investidos dos personagens de guardiões da consciência não podem ser levados a oferecer ao espectador o circo explícito dos noticiosos matinais, por outro o espectador está mostrando sinais de saturação no trato com tais personagens. Prefere ser guiado pelos clarins.

O sucesso da Fox News é uma das fortes evidências de que o dogma da credibilidade está em crise. Além disso, o espectador está se dando conta de que a televisão está perdendo a cada semana a capacidade de ser sua fonte primária de informação. Esse papel está visivelmente passando para a telefonia móvel. Reverterá para uma mídia intermediária logo que as plataformas digitais estiverem assentadas e tiverem formado um ambiente de convergência plena.

Se a televisão já não é quem dá ao público a notícia em primeira mão, e se esse público não precisa da televisão para ter certeza de que estão lhe dizendo a verdade, então qual o futuro dos grandes noticiários de TV?

‘Tem que haver um novo espírito’, responde Leslie Moonves. Uma nova era está claramente prestes a começar. Sabe-se que o modelo encarnado pelos três grandes âncoras que acabam de deixar seus postos pertence ao passado. Não se tem a menor idéia do modelo que pertencerá ao futuro.

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