Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Direto da Redação

15/08/2006 na edição 394

ELEIÇÕES 2006
Eliakim Araújo

Candidatos sem nome no JN, 10/08/06

‘A exposição dos candidatos à presidência nas semanas que antecedem o pleito é da maior importância para que o eleitor forme sua opinião e vote, pelo menos, com a certeza de ter feito uma escolha consciente, baseada em informações que ele vai colhendo ao longo da campanha. E a televisão, a mais poderosa das mídias, tem função primordial nessa fase decisiva do processo de escolha. Todos os canais, de uma maneira ou de outra, tentam influir no processo de escolha ao abrirem espaços para os candidatos. Mas, nem sempre, o fazem da maneira mais adequada.

O Jornal Nacional, por exemplo, a exemplo do que fez na eleição anterior, tem convocado os candidatos para uma sabatina na própria bancada do telejornal. A intenção pode ser boa, mas a execução deixa a desejar.

Em primeiro lugar, pela disposição física da bancada do telejornal. Projetada para dois apresentadores, a presença de uma terceira pessoa, sentada na ponta da mesa, deixa o entrevistado pouco à vontade e em posição de desvantagem em relação aos entrevistadores, confortavelmente instalados em seu local de trabalho diário.

Depois, o rigor do formato. Para começar o entrevistado é chamado todo tempo de ‘candidato’ e ‘candidata’, como se nenhum deles tivesse o nome registrado em cartório. A formalidade continua no relojinho colocado no canto da tela, como garantia de que o espaço de tempo ocupado por cada um é rigorosamente cronometrado.

Esse desejo exacerbado de que a divisão do tempo seja rigorosa, parece que passa também pelo trabalho dos apresentadores. Há nitidamente entre eles uma disputa para que um não apareça mais que o outro. Mas, se isso acontecer, como são marido e mulher, as contas serão acertadas em casa.

Brincadeiras à parte, o mais grave de tudo é a questão do conteúdo. Os apresentadores se esmeram em fazer perguntas para embaraçar o candidato, sem preocupação com os temas realmente importantes para o país que pretendem governar.

Na entrevista da senadora Heloisa Helena, por exemplo, na terça-feira, a primeira pergunta já deu o tom de como seria a sabatina. Logo de cara, lhe perguntaram se não era ofensivo chamar o ministro Tarso Genro de ‘empregadinho do Lula’, quando a maioria do povo brasileiro é formada por empregados? A senadora gentilmente respondia e até declarava seu arrependimento pela expressão, quando foi interrompida pela apresentadora que insistiu no tom de ‘fofoca’: mas a senhora também usa outras expressões ofensivas como ‘safados, lacaios, imbecis…’

Ora, ninguém aplaude a senadora por usar expressões chulas em seus discursos, mas dar tal importância a essas provocações, comuns no calor da campanha, pouco contribui para o debate de idéias. Felizmente, os candidatos têm experiência suficiente para passar por cima dessas ‘armadilhas’ e conseguem encaixar na conversa alguma coisa que preste em torno de idéias. Por isso, quem lê somente a fala do entrevistado no jornal do dia seguinte, nem de leve pode imaginar como se chegou àquele resultado com perguntas desse tipo.

Mais adiante, a apresentadora se atrapalhou e confundiu programa de partido com programa de governo. Teve que ouvir uma aula da senadora, com direito a um irônico ‘meu amor…’.

No assunto reforma agrária, mais uma prova do despreparo dos entrevistadores. A candidata falava sobre invasões e desapropriação quando a apresentadora a interrompeu para afirmar com autoridade que ‘reforma agrária não se faz em um dia’. Heloisa sorriu aquele sorriso condescendente, tocou o braço da entrevistadora e calmamente retrucou ‘meu amor, desculpe mas de reforma agrária eu entendo mais que você’.

Penso que essas entrevistas do JN da maneira como são conduzidas não ajudam o eleitor a decidir. Por que não gravar a entrevista mais cedo, num ambiente tranqüilo, com entrevistadores e entrevistado confortavelmente sentados em sofás? Certamente o resultado seria melhor para todos, principalmente para quem precisa tomar uma decisão em relação ao futuro do país.

(*) Ancorou o primeiro telejornal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista do JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing’



CPI DOS SANGUESSUGAS
Mair Pena Neto

Gabeira errou o alvo

‘O deputado Fernando Gabeira travou uma discussão com jornalistas que o abordavam no Congresso em meio à CPI dos Sanguessugas. Gabeira queixou-se da falta de preparo dos repórteres, que o obrigava a recomeçar a história a cada pergunta. A crítica de Gabeira é procedente e toca na ferida da precariedade da formação de muitos jornalistas brasileiros, mas acho que ele errou o alvo.

Em meio ao bate-boca, Gabeira disse que não era chefe de reportagem, que gosta muito de ser chefe de reportagem, mas que essa não é sua função no momento. O desabafo do deputado fez sentido novamente, porém, mais uma vez, não chegou ao cerne da questão.

Talvez por estar fora do jornalismo há muitos anos, Gabeira desconheça o funcionamento de grande parte das redações atuais. E, talvez por essa razão, sua crítica não chegou à estrutura que gera toda essa cadeia de despreparo. Alguns dos jornalistas que o entrevistavam provavelmente estavam em sua terceira ou quarta pauta do dia e trabalhando há mais tempo do que deviam. A máquina de moer da informação exige que os repórteres se multipliquem e o tamanho enxuto das redações impede que se preparem adequadamente.

Não busco aqui uma desculpa para os jornalistas, mas invoco a atenção que a questão merece. Os jornalistas brasileiros, em grande parte, são submetidos a jornadas cruéis de trabalho e salários aviltantes. É incrível uma categoria com tanto acesso à informação ser tão explorada.

Jornalistas, talvez por vaidade intelectual, não se consideram trabalhadores como outro qualquer e são incapazes de se mobilizar pelos seus direitos. As lutas de classe praticamente inexistem e as representações sindicais são vistas com desprezo. Prato feito para os donos dos meios de comunicação que impõem salários baixíssimos a quem deveria ser especialmente remunerado. O resultado é uma falta de preparação e um desânimo que levam fontes mais esclarecidas, como o deputado Gabeira, a explosões e, mais perigoso ainda, a instrumentalizar a imprensa.

O repórter é a linha de frente do jornalismo, e se sua informação chega manipulada à redação é difícil de ser salva. Chefes de reportagem deveriam ser os orientadores do reportariado, como prega Gabeira, mas na apressada dinâmica dos jornais e com pouca mão-de-obra disponível praticamente não têm tempo para exercer o papel que deles se espera. A função, muitas vezes, se limita a montar escalas, conseguir carros e ainda ouvir as reclamações dos repórteres cansados e pouco motivados.

O jornalismo precisa se valorizar como profissão e os jornalistas saberem que precisam estar muito bem preparados para qualquer matéria. Esta consciência tem que vir e ser estimulada desde os cursos de Comunicação, mas de nada adiantará se mantidas as atuais condições de trabalho da maior parte dos meios de comunicação do país.

(*) Trabalho no Globo, JB e Agência Estado. Foi correspondente da F-1 em Londres, durante três anos. Foi editor de Política do JB e repórter especial de Economia. É coordenador de Empresa e Negócios da Agência Reuters.’



******************

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‘A exposição dos candidatos à presidência nas semanas que antecedem o pleito é da maior importância para que o eleitor forme sua opinião e vote, pelo menos, com a certeza de ter feito uma escolha consciente, baseada em informações que ele vai colhendo ao longo da campanha. E a televisão, a mais poderosa das mídias, tem função primordial nessa fase decisiva do processo de escolha. Todos os canais, de uma maneira ou de outra, tentam influir no processo de escolha ao abrirem espaços para os candidatos. Mas, nem sempre, o fazem da maneira mais adequada.

O Jornal Nacional, por exemplo, a exemplo do que fez na eleição anterior, tem convocado os candidatos para uma sabatina na própria bancada do telejornal. A intenção pode ser boa, mas a execução deixa a desejar.

Em primeiro lugar, pela disposição física da bancada do telejornal. Projetada para dois apresentadores, a presença de uma terceira pessoa, sentada na ponta da mesa, deixa o entrevistado pouco à vontade e em posição de desvantagem em relação aos entrevistadores, confortavelmente instalados em seu local de trabalho diário.

Depois, o rigor do formato. Para começar o entrevistado é chamado todo tempo de ‘candidato’ e ‘candidata’, como se nenhum deles tivesse o nome registrado em cartório. A formalidade continua no relojinho colocado no canto da tela, como garantia de que o espaço de tempo ocupado por cada um é rigorosamente cronometrado.

Esse desejo exacerbado de que a divisão do tempo seja rigorosa, parece que passa também pelo trabalho dos apresentadores. Há nitidamente entre eles uma disputa para que um não apareça mais que o outro. Mas, se isso acontecer, como são marido e mulher, as contas serão acertadas em casa.

Brincadeiras à parte, o mais grave de tudo é a questão do conteúdo. Os apresentadores se esmeram em fazer perguntas para embaraçar o candidato, sem preocupação com os temas realmente importantes para o país que pretendem governar.

Na entrevista da senadora Heloisa Helena, por exemplo, na terça-feira, a primeira pergunta já deu o tom de como seria a sabatina. Logo de cara, lhe perguntaram se não era ofensivo chamar o ministro Tarso Genro de ‘empregadinho do Lula’, quando a maioria do povo brasileiro é formada por empregados? A senadora gentilmente respondia e até declarava seu arrependimento pela expressão, quando foi interrompida pela apresentadora que insistiu no tom de ‘fofoca’: mas a senhora também usa outras expressões ofensivas como ‘safados, lacaios, imbecis…’

Ora, ninguém aplaude a senadora por usar expressões chulas em seus discursos, mas dar tal importância a essas provocações, comuns no calor da campanha, pouco contribui para o debate de idéias. Felizmente, os candidatos têm experiência suficiente para passar por cima dessas ‘armadilhas’ e conseguem encaixar na conversa alguma coisa que preste em torno de idéias. Por isso, quem lê somente a fala do entrevistado no jornal do dia seguinte, nem de leve pode imaginar como se chegou àquele resultado com perguntas desse tipo.

Mais adiante, a apresentadora se atrapalhou e confundiu programa de partido com programa de governo. Teve que ouvir uma aula da senadora, com direito a um irônico ‘meu amor…’.

No assunto reforma agrária, mais uma prova do despreparo dos entrevistadores. A candidata falava sobre invasões e desapropriação quando a apresentadora a interrompeu para afirmar com autoridade que ‘reforma agrária não se faz em um dia’. Heloisa sorriu aquele sorriso condescendente, tocou o braço da entrevistadora e calmamente retrucou ‘meu amor, desculpe mas de reforma agrária eu entendo mais que você’.

Penso que essas entrevistas do JN da maneira como são conduzidas não ajudam o eleitor a decidir. Por que não gravar a entrevista mais cedo, num ambiente tranqüilo, com entrevistadores e entrevistado confortavelmente sentados em sofás? Certamente o resultado seria melhor para todos, principalmente para quem precisa tomar uma decisão em relação ao futuro do país.

(*) Ancorou o primeiro telejornal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista do JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing’



CPI DOS SANGUESSUGAS
Mair Pena Neto

Gabeira errou o alvo

‘O deputado Fernando Gabeira travou uma discussão com jornalistas que o abordavam no Congresso em meio à CPI dos Sanguessugas. Gabeira queixou-se da falta de preparo dos repórteres, que o obrigava a recomeçar a história a cada pergunta. A crítica de Gabeira é procedente e toca na ferida da precariedade da formação de muitos jornalistas brasileiros, mas acho que ele errou o alvo.

Em meio ao bate-boca, Gabeira disse que não era chefe de reportagem, que gosta muito de ser chefe de reportagem, mas que essa não é sua função no momento. O desabafo do deputado fez sentido novamente, porém, mais uma vez, não chegou ao cerne da questão.

Talvez por estar fora do jornalismo há muitos anos, Gabeira desconheça o funcionamento de grande parte das redações atuais. E, talvez por essa razão, sua crítica não chegou à estrutura que gera toda essa cadeia de despreparo. Alguns dos jornalistas que o entrevistavam provavelmente estavam em sua terceira ou quarta pauta do dia e trabalhando há mais tempo do que deviam. A máquina de moer da informação exige que os repórteres se multipliquem e o tamanho enxuto das redações impede que se preparem adequadamente.

Não busco aqui uma desculpa para os jornalistas, mas invoco a atenção que a questão merece. Os jornalistas brasileiros, em grande parte, são submetidos a jornadas cruéis de trabalho e salários aviltantes. É incrível uma categoria com tanto acesso à informação ser tão explorada.

Jornalistas, talvez por vaidade intelectual, não se consideram trabalhadores como outro qualquer e são incapazes de se mobilizar pelos seus direitos. As lutas de classe praticamente inexistem e as representações sindicais são vistas com desprezo. Prato feito para os donos dos meios de comunicação que impõem salários baixíssimos a quem deveria ser especialmente remunerado. O resultado é uma falta de preparação e um desânimo que levam fontes mais esclarecidas, como o deputado Gabeira, a explosões e, mais perigoso ainda, a instrumentalizar a imprensa.

O repórter é a linha de frente do jornalismo, e se sua informação chega manipulada à redação é difícil de ser salva. Chefes de reportagem deveriam ser os orientadores do reportariado, como prega Gabeira, mas na apressada dinâmica dos jornais e com pouca mão-de-obra disponível praticamente não têm tempo para exercer o papel que deles se espera. A função, muitas vezes, se limita a montar escalas, conseguir carros e ainda ouvir as reclamações dos repórteres cansados e pouco motivados.

O jornalismo precisa se valorizar como profissão e os jornalistas saberem que precisam estar muito bem preparados para qualquer matéria. Esta consciência tem que vir e ser estimulada desde os cursos de Comunicação, mas de nada adiantará se mantidas as atuais condições de trabalho da maior parte dos meios de comunicação do país.

(*) Trabalho no Globo, JB e Agência Estado. Foi correspondente da F-1 em Londres, durante três anos. Foi editor de Política do JB e repórter especial de Economia. É coordenador de Empresa e Negócios da Agência Reuters.’



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