Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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O amor é lindo

Por Marcio Greick em 31/01/2012 na edição 679

A polêmica do suposto estupro no Big Brother Brasil12, que virou até investigação policial, fez a audiência do programa BBB disparar, chegando ao pico de 36 pontos no Ibope da Grande SP, um recorde da temporada, que estreou no último dia 10/01. O reality cresceu 25% em relação à primeira segunda-feira do BBB11 (2011), que registrou 29 pontos. Teria então, a emissora atingido o seu objetivo? Ou a emissora protagonizaria a mais grave crise do programa desde sua criação?

As cenas tórridas de sexo foram transmitidas pela internet e pela TV paga às 6h da manhã de domingo (23/01) pelo sistema pay-per-view. O que a emissora não esperava era a repercussão negativa nas redes sociais, onde tuiteiros de plantão exigiram providências da direção do programa quanto ao “comportamento inadequado do modelo Daniel” que, segundo a Globo, aproveitando que a moça estava desacordada, resolveu dar um “amassos”, digamos, mais eróticos.

Dizem os marqueteiros de plantão que as imagens valem mais que mil palavras! E Daniel foi vencido pelas imagens, que são transmitidas em tempo real, porém podem ser manipuladas pela direção, que pode direcionar qual das câmeras ao vivo deva ser usada para mostrar ao telespectador, a melhor cena, o melhor ângulo, ou seja, o melhor jeito de se espiar as nossas próprias vergonhas.

Estrago feito, a emissora agiu rápido, aproveitando o pico de audiência durante a polêmica, expulsando o brother peremptoriamente, sem direito a defesa nem a se despedir da moça, que estava aparentemente bêbada ou inconsciente. Mas segundo ela, tudo foi de forma consensual, livrando, aparentemente, a cara do modelo de ser processado por estupro de vulnerável.

Confessionário como pano de fundo?

Segundo a direção do programa, foi feita uma análise minuciosa das imagens e se chegou ao consenso pela expulsão do modelo que infringiu as regras e pela permanência da comportada moça na casa. Mas que regras são essas? Não se explicou quais regras ele infringiu ou se cometeu algum abuso, mas resolveram jogar panos quentes numa crise sem precedentes na história do programa.

E tudo voltou ao normal na casa. Mas, com certeza, na vida do ex-BBB12 muita coisa mudou. E em nossas casas, o que mudou? E o que dizer das nossas novelas, que são retransmitidas para o mundo, com cenas fortes de sexo, onde corpos suados se fundem num só, ao som de gemidos, isso tudo em horário nobre, para nossos pais, filhos e netos, assistirem a tudo, de camarote, em silêncio, inertes pelos picos de audiência?

Diante dos fatos, vem a seguinte pergunta: qual é mesmo o papel do reality show Big Brother Brasil em nossas vidas? Um programa de entretenimento? Um reality show movido a cenas de sexo, regado com bebidas quentes e energéticos, cheio de tramas, para se ganhar um bocado de dinheiro ou a fama? A famosa casa parece mais uma arena onde rola um jogo de intrigas, sexo, luxúria, egoísmo, poder, onde vale tudo em busca de R$ 1 milhão ou mais de reais. Ou seria um confessionário como pano de fundo, para que possamos espiar nossas próprias fraquezas, frustrações, sonhos, medos, preconceitos, alegrias e decepções?

E bola pra frente…

O diálogo entre, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, cujo filho, Boninho, dirige o BBB, e o jornalista Pedro Bial, no programa Altas Horas, pode ter a resposta. “Gosto de ver coisa ruim na TV”, diz Pedro Bial, demonstrando claramente a função principal do programa. “Então você assiste o BBB”, retruca José Bonifácio Sobrinho, o Boni, cujo filho, Boninho, dirige o BBB. “Eu não assisto porque não gosto de me ver. Mas, para domar o formato, tive que me despir de jornalista e ser um Zé Mané junto com os outros”, disse o jornalista referindo-se aos participantes do BBB e aos milhares de brasileiros que assistem ao programa. As cenas debaixo do edredom, de sexo, ou possivelmente abuso sexual entre o casal, foram resumidas, em uma frase esdrúxula pelo apresentador: “O amor é lindo!”

E bola pra frente, esse é o Big Brother Brasil.

E você, ainda vai continuar dando a sua espiadinha?

***

[Marcio Greick é jornalista, acadêmico de Direito e pós-graduado em Planejamento e Gestão de Projetos Sociais, Palmas, TO]

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