Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

TV EM QUESTãO > CASSETA & PLANETA

Novo programa, velha fórmula

Por Francisco Fernandes Ladeira em 03/04/2012 na edição 688

Na noite de sexta-feira (30/3), a Rede Globo exibiu o programa Casseta & Planeta Vai Fundo,humorístico que, apesar da grande popularidade conquistada na década de 1990, obteve baixos índices de audiência nos últimos anos.

É fato que alguns programas de humor são excelente meio para transmitir, de forma sutil, uma determinada ideologia. Sob o prisma do “politicamente incorreto”, preconceitos, estereótipos e visões de mundo são obscuramente difundidos sem que os telespectadores tenham a real noção das intenções de certas atrações televisivas. Nesse sentido, o Casseta & Planeta Urgente (antigo título do programa)destacou-se, ao longo de dezoito anos, como grande porta-voz do pensamento conservador no Brasil. Um dos principais objetivos do programa é imprimir, no inconsciente coletivo brasileiro, o estereótipo do “político desonesto”. Ora, evidentemente, nem todos os políticos agem de forma correta. Porém, o fato de alguns políticos serem corruptos, não quer dizer, em hipótese alguma, que todos aqueles que se dedicam a esta atividade tenham objetivos sórdidos.

Generalizar um comportamento específico a toda uma classe é uma aferição demasiadamente simplista e controversa. Portanto, não nos iludamos. Conforme o salientado pelo sociólogo Nilton José Dantas Wanderley,“jogar todos os congressistas na vala comum, demonizando a política, é um viés retrógrado e conservador de nossa mídia. Quebrar ou fragilizar nossas instituições não é um bom negócio para ninguém”. Segundo Jessé Souza, professor da UFJF, a estratégia de demonizar, a todo custo, a esfera pública possui uma intenção bem definida: diminuir a atuação da esfera estatal para aumentar a área de atuação dos interesses privados. Em outros termos, trata-se de uma propaganda do clássico paradigma neoliberal: menos Estado e mais mercado.

“Quero desmistificar esse picareta”

Entretanto, a crítica à esfera pública realizada pelo humorístico Casseta & Planeta é seletiva. Políticos que compactuam com o liberalismo econômico são poupados de chacotas, enquanto políticos com ideias mais à esquerda são ironizados. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, era retratado como um homem sóbrio e disposto a acabar com a excessiva burocracia estatal. Por outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva, odiado pelas elites por ter uma origem humilde, foi constantemente ridicularizado pelo programa.

Não por acaso, um dos integrantes do Casseta & Planeta, Marcelo Madureira, concedeu a seguinte declaração durante o programa Manhattan Connection, em outubro de 2010: “O pior desses oito anos de governo Lula foi transformar a política definitivamente numa coisa de chacota. É impressionante como a política foi desmoralizada. Acho incrível porque, na minha opinião, a política é a mais nobre atividade do ser humano. E é impressionante como atrai vagabundo, picareta e tal, a começar pelo presidente da República, que não vale nada. Vai demorar gerações para a sociedade brasileira se recuperar do mal causado por Lula. Eu quero desmistificar esse picareta que está na Presidência da República.”

Humor desgastado e anódino

Diante dessa declaração, cabem aqui duas perguntas capciosas: o programa do qual o humorista é integrante, ao ridicularizar os políticos brasileiros, também não contribui para transformar essa “nobre arte” em chacota? Será que Madureira possui a mesma opinião sobre os crimes documentados no livro A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior?

Ao analisarmos as publicações, produções musicais e os conteúdos do programa televisivo do Casseta & Planeta é fácil encontramos atitudes misóginas (“mulher é tudo vaca”, diz a letra da música “Mãe é mãe”), bairristas (a música “Paulista” retoma a velha rivalidade Rio-São Paulo ao chacotear os habitantes do estado bandeirante), intolerância religiosa (a paródia do terrorista saudita Bin Laden muitas vezes foi utilizada para ridicularizar o islamismo) e a difusão de antigos estigmas regionais (como o baiano indolente, o mineiro caipira e piadas sobre gaúcho).

Apesar do novo formato (o programa agora é temático), a volta do Casseta & Planeta, após intervalo de catorze meses, apresentou as mesmas características dos últimos anos. Piadas de duplo sentido que beiram a imbecilidade, paródias escalafobéticas de apresentadores globais (geralmente ressaltando suas características exóticas), exibição de populares em situações constrangedoras e citações escatológicas marcaram o programa.

Os convidados especiais também não ajudaram. Edson Celulari, Daniel (cantor sertanejo), Suzana Vieira e Marcelo Anthony (independente de suas possíveis qualidades artísticas) demonstraram pouca aptidão para o humor. Já a sátira da presidenta, apresentando uma Dilma Rousseff ávida por se tornar celebridade, foi melancólica. Por outro lado, muitos afirmam que programas humorísticos não precisam ser politicamente corretos. Lembrando uma frase do apresentador Marcelo Tas, “o limite do humor é a graça, é ser engraçado”. Mesmo assim, os integrantes do Casseta & Planeta já não são engraçados há anos. Uma semana após a perda de Chico Anysio, é lastimável assistir seis comediantes decadentes utilizando uma forma de humor completamente desgastada e anódina.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

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