Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Nova classe média brasileira ou nova classe trabalhadora?

Por Francisco Fernandes Ladeira em 26/06/2012 na edição 700

Na terça-feira (19/6) o programa A Liga, exibido pela Rede Bandeirantes, apresentou a realidade de algumas pessoas da chamada “nova classe média brasileira”. Para muitos pesquisadores das ciências sociais, a “nova classe média” (também conhecida como “classe C”) é o maior fenômeno sociológico do Brasil contemporâneo. De acordo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, são classificadas como integrantes da classe média as famílias com renda per capita entre R$ 291 a R$1.019. Segundo Adriana Nicacio e Lana Pinheiro, da IstoÉ Dinheiro, “a nova classe média brasileira é composta por milhões de pessoas que saíram da marginalidade da economia para aproveitar as benesses do aumento de renda e do acesso ao crédito fácil”. Para Marcelo Neri, autor do livro A nova classe média: o lado brilhando da base da pirâmide, “a nova classe média constrói seu futuro em bases sólidas que sustentem o novo padrão adquirido. Isso é o que chamamos de lado brilhante dos pobres”. “Essa população emergente, com seu desejo de continuar a consumir e seu foco no progresso pessoal, é um sintoma de que o Brasil está melhorando”, apontou uma reportagem da revistaÉpoca.

Entretanto, o que se pôde constatar ao longo do programa A Liga (e também em nosso cotidiano) foi uma “nova classe média” formada por brasileiros extremamente endividados, que, não raro, trabalham em dois empregos, ou trabalham e estudam com jornadas diárias extenuantes e exercem ocupações altamente instáveis.

“Dependência meio que dependente”

O aumento do padrão de consumo dos indivíduos que compõem a “nova classe média” foi o principal destaque do programa. “Gastar dinheiro é uma das práticas preferidas da ‘nova classe média’. […] Mesmo com o orçamento apertado, não deixam de gastar com o quê é melhor para eles”, anunciou a apresentadora Débora Vilalba. Todavia, o consumo da “nova classe média” está associado mais ao crédito fácil do que propriamente ao aumento do poder aquisitivo. “Por isso temos hoje no Brasil uma massa de inadimplentes”, frisou Donizét Píton, especialista em Defesa do Consumidor. “O leque de oportunidades financeiras está aberto à ‘nova classe média’. Eles têm à disposição cartão de crédito, cheque especial, cartões de lojas e créditos pré-aprovados”, afirmou Débora Vilalba. “A ‘nova classe média’ gostaria de poder comprar à vista, mas não ‘cabe no bolso’. Se tiver, por exemplo, de guardar dinheiro para comprar algum produto, vai demorar muito tempo para poder comprar”, salientou Renato Meirelles, especialista em Mercado Popular. “A gente não tem dinheiro para pagar a vista, por isso a gente parcela”, justificou Rosângela, trabalhadora autônoma. Porém, “junto com a euforia das melhores condições de vida, vêm também as dívidas. Na hora de financiar o futuro é ‘só alegria’, mas depois, os carnês e mais carnês se acumulando na gaveta podem tirar o sono de qualquer um”, advertiu a apresentadora Mirian Bottan.

Mesmo após deixar a casa dos pais, muitos filhos da “nova classe média” continuam dependendo financeiramente dos seus progenitores. “A minha independência em relação aos meus pais é uma ‘dependência meio que dependente’. Às vezes eu preciso de alguma coisa e eles ajudam”, afirmou Jonatas, ajudante geral e recém-casado.

Rendimento e ocupação

Por outro lado, publicações científicas recentes rejeitam a designação de “nova classe média” para os brasileiros que ascenderam socialmente nos últimos anos. De acordo com estes trabalhos, outros fatores, além da variável renda (como a capacidade de converter capital econômico em capital cultural, por exemplo), devem ser utilizados para definir uma classe social. Diferentemente da “tradicional classe média”, formada basicamente por profissionais liberais como bancários, professores universitários, gerentes e administradores; a “nova classe média” geralmente está associada a atividades com menor nível de escolaridade.

No livro Os batalhadores brasileiros: nova classe média ou nova classe trabalhadora?, Jessé Souza assevera que a expressão “nova classe média”, é inadequada para classificar os indivíduos que melhoraram suas condições de vida. “Trata-se de uma interpretação que pretende esconder contradições e ambivalências importantes na vida desses brasileiros e vincular a noção de um capitalismo ‘bom’ e sem defeitos. A ideia que se quer veicular é a de uma sociedade brasileira de novo tipo, a caminho do Primeiro Mundo, posto que, como Alemanha, Estados Unidos ou França, passa a ter uma classe média ampla como setor mais numeroso da sociedade.”

Opinião análoga é compartilhada por Marcio Pochmann, autor do livro Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira: “Não tem classe nova, muito menos média. O que se tem é uma ampliação da classe trabalhadora. […] São ocupações [vinculadas à terceirização, ao trabalho temporário, à prestação de serviços as famílias, à construção civil] e rendas [remunerações em torno de 1,5 salário] típicas da classe trabalhadora. […] Seja pelo nível de rendimento, seja pelo tipo de ocupação, seja pelo perfil e atributos pessoais, o grosso da população emergente não se encaixa em critérios sérios e objetivos que possam ser claramente identificados como classe média.”

Alegria fugaz

Portanto, fatores como estilo de vida e tipo de ocupação, apontam que os milhões de brasileiros em ascensão na pirâmide social formam uma “nova classe trabalhadora”, e não uma “nova classe média”. “O que percebemos é que a realidade cotidiana dessa classe [‘nova classe média’], ou seja, sua visão de mundo ‘prática’ – que se materializa em ações, reações, disposições de comportamento e, de resto, todo tipo de atitude cotidiana concreta consciente ou inconsciente – não tem nada a ver com o que se entende por ‘classe média”, apontou Jessé Souza na conclusão de seu livro.

Em suma, o termo “nova classe média” nada mais é do que um eufemismo para qualificar uma “nova classe trabalhadora” extremamente explorada (principalmente pelo sistema financeiro) que encontra na aquisição de bens materiais a sua alegria fugaz.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

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