Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / JOÃO EMANUEL CARNEIRO

Subúrbio é o astro de Avenida Brasil

Por Cristina Padiglione em 28/08/2012 na edição 709
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 27/8/2012; intertítulos do OI

A dois meses de botar um fim na vingança de Nina (Débora Falabella) contra Carminha (Adriana Esteves), o autor da novela Avenida Brasil fala ao Estado sobre a psicopatia que distancia sua vilã anterior, Flora (Patrícia Pillar), da atual, Carminha (Adriana Esteves), má por livre-arbítrio. Caçula do seleto time de dramaturgos da Globo, João Emanuel Carneiro, 42 anos, atrai a audiência da classe AB – além da C, claro – ao celebrar o subúrbio ascendente.

E não poupa o Rio de Janeiro, cidade que, “fora a zona sul e uns poucos lugares, vamos combinar que é um grande Divino”. Antecipa ainda as próximas leituras de Tufão (Murilo Benício), repertório que tem norteado o espectador para os passos seguidos pelo frágil herói da história: depois de Madame Bovary, A Metamorfose, Interpretação dos Sonhos e O Primo Basílio, o ex-craque do futebol, apaixonado por aquela que em tese seria sua enteada, vai se debruçar sobre as páginas de Lolita.

Também de Vladimir Nabokov, lerá Riso no Escuro, sobre um homem rico, respeitável e feliz, que abandona a mulher por causa de uma jovem amante a quem amará, mas por quem não será amado, e sua vida acabará em desastre.

“Todo indivíduo pode escolher entre o bem e o mal”

Afinal, por que Lucinda deixou o filho nas mãos do pérfido Nilo quando criança? Max é produto do meio ambiente, ou há sensibilidade ali?

João Emanuel Carneiro– Eu gosto muito do Max porque ele é um marginal frágil, sempre em crise, um bandido que sofre de depressão e síndrome do pânico. Como a Carminha, ele é um sobrevivente do lixo, capaz de fazer qualquer coisa pra não ter que voltar pra lá. Bondade ou sensibilidade são coisas muito distantes do mundo do Max, acho. Quanto ao segredo de Lucinda, só dá pra revelar no final da novela.

E Carminha, tem algo de bom?

J.E.C.– Carminha tem um amor sincero pelo filho, que é um dado que a humaniza. Além disso, é uma personagem cheia de contradições, muito paradoxal. Acho que no fundo ela ama o Tufão e aquela família, senão já teria se mandado com o Max.

O psiquiatra Daniel de Barros defende que Carminha não seja psicopata. Você concorda?

J.E.C.– Concordo. Carminha não é psicopata como a Flora de A Favorita. Acho que a Carminha, como o Max, é uma sobrevivente do lixo, uma pessoa amoral. Essa tendência de se classificar qualquer ato de maldade como psicopatia é uma maneira muito moderninha de se lidar com o problema. Dizer que uma pessoa age errado porque é resultado da má criação ou do ambiente ruim, a meu ver, é uma simplificação meio marxista, meio behaviorista preguiçosa do problema. Eu, como Dostoievski, acredito que todo indivíduo tem livre arbítrio para poder escolher entre o bem e o mal.

“Acho ótimo quando os atores fazem cacos”

Avenida Brasil foi submetida a pesquisas de avaliação?

J.E.C.– A pesquisa que foi feita indicou que boa parte do público tinha muita dificuldade em entender a conduta da Nina. Mas essa é a graça dessa novela.

Você já sabe como acabará uma novela desde o início?

J.E.C.– A graça da obra aberta é se lançar nesse oceano de capítulos com uma pequena bússola, mas sem o final fechado. Eu sei a maior parte do encaminhamento da trama antes de ela começar, mas nunca o final.

Você aceita bem os cacos (improvisos dos atores) no script?

J.E.C.– Acho ótimo quando os atores fazem cacos, desde que estejam bem inseridos no contexto. Acho que novela é obra de mutirão em que não cabe preciosismo de texto. O jeito que o Adauto chama a Muricy, de “Muri”, ou o Nilo dá aquela risadinha são marcas criadas pelos atores.

“Não tenho a pretensão de inovar nada”

Você conhece o subúrbio carioca como visitante. Chegou a frequentar bairros como o Divino?

J.E.C.– O Divino é fruto mesmo da minha imaginação e da observação de um habitante da vida da cidade do Rio de Janeiro, que fora a zona sul e uns poucos lugares, vamos combinar que é um grande Divino.

Você é o único autor da Globo que veio do cinema. Isso determina um estilo distinto?

J.E.C.– Acho que influencia muito no meu método de escrita. Faço uma escaleta enorme, com a maior parte dos diálogos já indicados para os colaboradores e acabo reescrevendo bastante. Essa coisa das reescrituras, das revisões, é herança do cinema.

Alguns autores de novela, colegas seus, desdenham da apreciação vanguardista que a crítica faz de Avenida Brasil. Você considera o seu folhetim inovador?

J.E.C.– Eu não tenho a pretensão de inovar nada, só de fazer uma boa novela, o que já considero uma tarefa bastante difícil. Aos meus colegas que dão declaração se proclamando mais inovadores que eu, o que dizer? Meus parabéns para eles, que além de pessoas tão bem educadas, são artistas revolucionários!

“Quando a novela acaba, sinto luto e alegria”

A existência de um acontecimento em todo capítulo pode ser vista como semelhança à narrativa dos seriados americanos?

J.E.C.– Sempre fui muito inquieto com a narrativa, gosto de me criar problemas a cada dia, mas de uns anos pra cá tenho visto muito os seriados americanos, que na minha opinião foram a grande novidade do audiovisual nesse século 21. Sem novela no ar, não perco 24 horas, Lost, True Blood, Desperate Housewives, Sopranos, Mad Men, Mothern Family, Roma, Tudors, House

Quais os próximos livros a serem devorados pelo Tufão?

J.E.C.– Ele vai ler Nabokov: Lolita e Riso no Escuro.

Sentirá crise de abstinência quando a novela acabar?

J.E.C.– Quando a novela acaba, sinto um misto de luto e alegria. Luto porque me despeço daqueles personagens com quem convivi por tanto tempo, e alegria porque me despeço dessa rotina pesada, desumana de trabalho.

***

[Cristina Padiglione, do Estado de S.Paulo]

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