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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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A diferença de uma notícia sobre regiões longínquas

Por Lucas Marinho Mourão em 02/10/2012 na edição 714

Como em muitas cidades brasileiras, na capital do estado do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, também os bons costumes são deixados de lado durante as campanhas eleitorais. Não basta discutir ideias e apresentar propostas para a administração da cidade, é necessário gastar bastante tempo falando da vida pessoal e atacando os oponentes.

A maneira como se disputam os votos pela prefeitura se tornou comum e nem chama tanto a atenção. Entretanto, na última semana um ataque midiático tomou proporções jornalísticas nacionais. Foi a divulgação de um vídeo (anônimo e claramente tendencioso) no site YouTube contra o candidato Alcides Bernal (do PP), com denúncias de instigação à prática de aborto, embriaguez, lesão corporal e enriquecimento ilícito. A Justiça Eleitoral determinou, então, a retirada do vídeo, a pedido da assessoria jurídica do candidato, mas o Google (empresa responsável pelo Youtube) alegou que a responsabilidade pelo teor do vídeo é dos usuários e por isso não poderia cumprir a determinação da Justiça.

Resultado? O diretor-geral do Google Brasil, Fábio José Silva Coelho, foi preso por policiais federais na tarde de quarta-feira (26/9) em São Paulo, em cumprimento a ordem judicial expedida pelo juiz Amaury da Silva Kuklinski, do TRE de Mato Grosso do Sul. Kuklinski determinou a prisão sob o argumento de que o Google não tirou do ar o vídeo postado, tratando-se do crime de desobediência, com pena de até um ano de detenção. Por se tratar de um crime de menor potencial ofensivo, apesar de trazido para a Polícia Federal, ele não permaneceu preso.

Domesticar o grande público

A prisão do executivo foi também noticiada no Jornal Nacional e Jornal da Band. E os jornais locais entraram em alvoroço com o fato. Sites divulgaram várias matérias e a TV Morena (filiada à Rede Globo) fez uma cobertura do ocorrido em todas suas edições (Bom Dia MS, 1ª edição e 2ª edição), dando sempre destaque ao fato do ocorrido ter sido noticiado no exterior: Estados Unidos (The Washington Post, CNN, The New York Times, The Wall Street Journal)França (Le Monde) eEspanha (El País).

Deixando a discussão sobre a questão de liberdade de expressão (se a determinação da Justiça é autoritária demais ou se apenas combate um crime de calúnia), o que se pode notar nesse caso é diferença que a mídia nacional faz de uma notícia que envolve regiões longínquas do eixo Rio-São Paulo-Brasília. O que suscita o questionamento: “os jornais nacionais são nacionais mesmo?”

Sabe-se que a notícia foi escolhida pelos editores porque envolvia a prisão de um diretor do Google (site americano, conhecido e utilizado mundialmente). Será que a notícia passaria pelo crivo dos jornalistas caso envolvesse outro personagem menos importante ou que fosse restrito ao Mato Grosso do Sul? É provável que não.

Enock Cavalcanti observou muito bem em seu artigo no Observatório, “Edições nacionais, traição diária”: “Não há cabeça iluminada dentro do jornalismo brasileiro que nos faça fugir dessa centralização em torno do ‘eixo’ Rio-São Paulo-Brasília. Brasília até nem tanto porque o eixo gira mesmo em torno das grandes capitais que sediam as redes nacionais de TV”.Para ele, a Rede Globo existe para tentar domesticar o grande público do Brasil, enganado que os conteúdos são do Brasil inteiro.

Aparentemente nacional

Para ele, um jornalismo bem organizado e democrático que fosse capaz de contribuir para a integração cultural e a conscientização política, social e humana do povo brasileiro, nas mais diferentes regiões do país, não acontece. “Acaba que os ditos jornais nacionais são feitos de costas para a nacionalidade, de costas para o Brasil. Na era da globalização parece mais interessante instalar correspondentes em Nova York, Londres, Paris, do que em Palmas, Manaus, Cuiabá, Porto Alegre, Belém… e tecer o fio da notícia de tal forma que o público dessas regiões tenha que curtir os acontecimentos das grandes capitais sem condição de conhecer e refletir a sua própria realidade, referenciando-a com a realidade dos grandes centros.”

Enquanto a mídia nacional noticia rapidamente um ocorrido como o da prisão do presidente do Google, a regional dá uma grande ênfase na apuração local. Afinal, quando somos notícia lá fora, precisamos caprichar na cobertura aqui. É fato ainda que os jornais dão foco nos estados periféricos quando a notícia é negativa, predominantemente. O Mato Groso do Sul, por exemplo, tem se conformado em aparecer mais na mídia quando um boi invade o aeroporto, o governador xinga um ministro ou um juiz pede a prisão do diretor de um site.

Mesmo sendo conhecidos como telejornais onde se vê o “Brasil ao vivo”, “realmente nacional” ou “da integração do país”, percebe-se que na prática não é bem assim. Enquanto essa realidade não muda, nos contentamos em assistir um jornal aparentemente nacional, mas que só representa o Brasil distante quando a “coisa está fedendo”.

***

[Lucas Marinho Mourão é jornalista, pesquisador em telejornalismo, mestrando em Comunicação na UFMS]

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