Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

TV EM QUESTãO > VER TV

Tristes tardes

Por Mauricio Stycer em 02/10/2012 na edição 714
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 30/9/2012

São 17h de quarta-feira quando uma moça, apresentada como advogada, surge na tela. Diante dela, sentada, uma senhora carrancuda pergunta qual é o problema que a traz ali. “Já tentei o exame da OAB duas vezes e não passei”, ela explica, antes de perguntar se vai ser bem-sucedida na terceira tentativa. Sem mover um músculo do rosto, Mãe Dináh dá a receita. Primeiro, pense positivamente. Depois, coloque um ovo numa panela com leite e acrescente a mensagem com o pedido: “‘Eu quero passar.’ Deixe ferver. Você vai ver como consegue tranquilamente”, assegura a vidente. A cena se passa ao vivo, no palco da TV Gazeta, em São Paulo, durante o programa Mulheres, uma espécie de decano das atrações vespertinas na televisão.

No ar desde 1980, primeiro com o nome Mulheres em Desfile, o programa ajudou a fixar a ideia de que o público deste horário, supostamente feminino, está interessado em programas descontraídos, em ritmo de conversa na sala de estar, sobre todo tipo de bobagem. A produção precária da Gazeta e o jeitão descontraído de Catia Fonseca, apresentadora do Mulheres, ajudam a passar a impressão de que a conversa, seja sobre esoterismo, fofoca, moda ou gastronomia, está de fato ocorrendo na casa da sogra.

Por justiça e mérito, Catia é uma campeã em aparições no “Top 5” do CQC, dedicado a gafes e situações ridículas exibidas na televisão. Esta semana, por exemplo, comentando uma foto indiscreta da atriz Kristen Stewart que vazou na internet, a apresentadora sublinhou: “Ela tá com a mão assim, tapando o fiofó.”

A incapacidade de oferecer algo melhor

Mulheres sofre hoje a concorrência direta de duas atrações com formato semelhante, Muito +, na Band, e Programa da Tarde, na Record. Ambos exploram a mesma premissa – de que é preciso entupir o público com bobagens no meio da tarde –, mas dispõem de mais recursos, embalagem “moderna” e apresentadores mais famosos. Comandante do Muito +, Adriane Galisteu não aparece tanto quanto Catia Fonseca no “Top 5” do CQC, apesar de também merecer, mas é campeã em matéria de capas da Caras. Esta semana, ela mostrou no ar a enésima revista que a exibe sorridente anunciando que está “pronta para ter o segundo filho”.

Seus companheiros de programa não fizeram nenhuma piada a respeito, mas logo deram início ao que Galisteu chamou de “fofocaiada” – uma sessão de comentários sobre notícias publicadas em revistas e sites do mesmo ramo que a Caras. Dois atores de Avenida Brasil foram criticados com severidade por se recusarem a comentar fofocas sobre o suposto namoro deles.

Na Record, Ana Hickmann passou quase uma hora na casa de praia de Gugu Liberato, conversando sobre assuntos tão palpitantes quanto o implante de cabelos do apresentador e a cor da cueca que ele usa para dormir. Numa entrevista com Sabrina Sato, um repórter perguntou: “A primeira vez que você fez amor foi com o Dhomini ou com o Felipe?” Ao que a moça respondeu, espantada: “Mas o programa é da tarde.”

Contando isso assim, selecionando os “melhores” momentos, chega a parecer engraçado. Mas é triste. Com base em pesquisas, números de audiência, intuição ou simples preconceitos, esses programas vespertinos apostam na ideia de que “é isso que o público quer”. Duvido. Na minha opinião, expressam simplesmente a incapacidade de oferecer algo melhor.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]

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