Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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TV EM QUESTãO > AVENIDA BRASIL

Chupa, Carminha!

Por Mauricio Stycer em 16/10/2012 na edição 716
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 15/10/2012

Depois de 168 capítulos, Tufão finalmente se convenceu de que foi traído, enganado e roubado por Carminha durante 12 anos. No momento mais aguardado, quando a vilã levou um tapa na cara, houve registros em diversos bairros de São Paulo de pessoas que correram à janela para gritar, como em dia de jogo do Corinthians: “Chupa, Carminha!”.

A audiência de “Avenida Brasil” neste dia (8/10) foi a maior alcançada por um programa na televisão em 2012. Apesar das muitas qualidades da novela, é interessante observar como este resultado foi atingido justamente quando ela assumiu seu lado mais “mexicano”.

O melodrama de João Emanuel Carneiro se construiu, com muita eficiência, em torno de um trio comum: Carminha, a completa inescrupulosa, Tufão, o ingênuo quase boçal, e Nina, a vingadora obcecada.

Diferentes fatores fizeram de “Avenida Brasil” uma novela atraente, festejada não apenas pelo público de sempre, mas também por parte da elite econômica.

Fomos todos convidados a compartilhar do alto astral, da sinceridade, da sem-cerimônia e da língua dos habitantes do Divino, um bairro de subúrbio dos sonhos, onde ricos e pobres vivem em total harmonia, sem conflitos sociais ou raciais.

Mais oitenta

O texto muito bem escrito, sempre atualizado com as piadas e gírias “da hora” no Twitter, levou o público não apenas a se divertir, mas a se sentir “parte” da história.

O ritmo de seriado, sempre com muita ação, suspense e bons “ganchos” para os capítulos seguintes, amarrou o espectador na poltrona.

Um ótimo elenco colocou em movimento este universo colorido do Divino. Caprichando em umas poucas caretas e grunhidos, Adriana Esteves conquistou milhões de fãs como Carminha.

Gostei mais de Marcos Caruso (Leleco), Isis Valverde (Suelen), Claudia Protásio (Zezé), Juliano Cazarré (Adauto) e, em especial, Murilo Benício (Tufão).

O ator conseguiu dar substância ao mais implausível dos personagens, o ex-jogador de futebol milionário, com passagem pela França, mas incapaz de ver que a mulher o enganava dentro da própria casa.

A direção foi louvada pela capacidade de colocar em cena cinco ou seis atores falando ao mesmo tempo em torno da mesa da mansão de Tufão e por permitir a improvisação dos mais talentosos.

Por volta do centésimo capítulo, Nina já havia reunido elementos e provas suficientes para desmascarar Carminha e se vingar da madrasta. A novela estava pronta para terminar, mas faltavam ainda 80 capítulos.

A vingadora passou a dizer, então, que não podia mostrar as provas ao bom moço, sob risco de chocá-lo, e que precisava fazer com que a vilã fosse embora da mansão. “Avenida Brasil” degringolou.

Lógica atropelada

Nina perdeu espaço na novela e quase sumiu. Carminha, que sempre agiu com o propósito de se dar bem na vida, começou a cometer maldades sem sentido.

Uma trama mais complexa, que envolvia um jogador de futebol gay e sua mãe evangélica, ex-atriz pornô, ficou sem sentido. O único núcleo da zona sul se mudou para o Divino e passou a protagonizar piadas com galos e panelas de feijão.

Foi neste contexto, de uma novela esticada, sem a complexidade inicial e atropelando a lógica, que “Avenida Brasil” bateu seu recorde. Para além dos números, deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]

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