Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Quando o princípio da realidade é a ficção seriada

Por Claudio C. Paiva em 23/10/2012 na edição 717

Avenida Brasil traz uma nova apresentação dos segmentos populares que o Cinema Novo tinha pintado equivocadamente como inocente. Essa telenovela faz a reversão de quase todos os valores morais, driblando o maniqueísmo, pois ali os ricos e os pobres são demasiado humanos cheios de virtudes e vícios. A narrativa nos permite a realização das experiências fundamentais da poética, da estética e da catarse. Pode-se criticar a qualidade do conjunto: os modelos substituem os artistas, a narrativa se arrasta por longos meses, a obra é presa às regras do consumo etc., mas triunfa no mercado internacional e goza de extrema popularidade no território nacional. (Não foi à toa o adiamento do comício político, às vésperas das eleições à prefeitura nas capitais, devido ao último capítulo). Guardadas as proporções, Avenida Brasil atua no imaginário coletivo como uma leitura de Crime e Castigo; funciona como “psicanálise das massas”: os telespectadores transferem os seus demônios para os personagens.

Vivemos numa “era dos extremos” e sofremos os efeitos da violência no cotidiano. Isto “nos desperta os piores sentimentos”. Os heróis e vilões servem como depositórios da nossa admiração e também vontade de vingança. Max, Carminha, Nilo, Santiago etc. são, ao mesmo tempo, nossos semelhantes e nossos opostos; identificamo-nos com eles e os odiamos porque temos em nós a parte do bem e a parte do mal. A exibição da novela coincide com o Julgamento do Mensalão. E diante da suposta “galera do mal” (nossos bodes expiatórios), os nossos afetos se projetam distintamente nas figuras dos juízes e réus; Gilmar e Lewandowski também nos parecem heróis e vilões. Nós somos movidos também pela vontade de “vigiar e punir”. Entretanto, norteada pelo princípio do prazer (e do espetáculo), a ficção é mais sedutora; como obra de arte, é positiva por nos causar estranheza, por fazer nos sentirmos “estranhos a nós mesmos”. Logo, começará a próxima novela, Salve Jorge, então não lembraremos mais da Avenida Brasil nem do “mensalão”; porém, nas profundezas da alma, um grande arrebatamento já terá acontecido: a narrativa pesada da telenovela e a narrativa maçante do julgamento já terão – de algum modo – exorcizado temporariamente todos os nossos demônios.

***

[Claudio C. Paiva é professor universitário, João Pessoa, PB]

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